Mais de 100 escritores assinam carta de apoio à candidatura de Daniel Munduruku para a Academia Brasileira de Letras

Mais de 100 escritores assinam carta de apoio à candidatura de Daniel Munduruku para a Academia Brasileira de Letras

Nas últimas semanas a Academia Brasileira de Letras tem sido comentada nas redes sociais como nunca antes, devido à inclusão da atriz Fernanda Montenegro (mulher) e do músico Gilberto Gil (negro) na galeria de “imortais”.

A escolha dos dois provocou elogios, ironias e até indignação. Afinal, por que a escritora negra Conceição Evaristo não foi aceita, quando concorreu em 2018, perdendo para Cacá Diegues por 1 voto contra 22? Ela seria a primeira mulher negra eleita na ‘casa’ de Machado de Assis!!

Agora, a academia tem mais uma oportunidade para tornar-se diversa.

A eleição para a cadeira 12 – ocupada pelo escritor Alfredo Bosi até abril deste ano, quando faleceu – vai acontecer esta semana, em 18 de novembro. Entre os candidatos está o escritor indígena Daniel Munduruku.

Seu nome de batismo é Daniel Monteiro Costa. Ele é da etnia Munduruku e nasceu em uma aldeia de Jacareacanga, no Pará, que sofre com a invasão de garimpeiros. Foi educado por padres salesianos, em uma congregação católica missionária, que o incentivaram a estudar. Mudou-se para cidades grandes, em buscar de aprimorar os estudos e se fixou em Lorena, no interior de São Paulo, onde vive com a família.

Na ABL, o escritor indígena concorre com o neurocirurgião Paulo Niemeyer e o poeta e crítico Joaquim Branco. Para comover os membros da academia sobre a candidatura de Munduruku (Niemeyer é apontado como favorito), ainda mais neste cenário político do país, em que os povos originários lutam diariamente por sua sobrevivência, mais de cem escritores assinaram uma carta para apoiar o escritor indígena.

Formado em filosofia, doutor em educação e pós-doutor em linguística, Munduruku é autor de mais de 50 livros infanto-juvenis, alguns deles traduzidos para outras línguas como alemão, coreano, inglês e espanhol. Vale lembrar que, em 2006, ele foi condecorado com a medalha da Ordem do Mérito Cultural.

Caso vença, Munduruku será o primeiro indígena a se tornar imortal da ABL (veja a campanha em seu site).

Entre os signatários da carta estão Aílton KrenakAlice Ruiz, Chico Buarque, Eva Furnari, Itamar Vieira Jr., José Roberto Torero, Marcelo Rubens Paiva, Milton Hatoum, Pedro Bandeira, Ruth Rocha, Tarso de Melo, Viviana Bosi (filha de Alfredo Bosi) e Xico Sá.

Visibilidade e militância

Daniel Munduruku diz que a ideia da candidatura à ABL não é dele, mas não rejeitou a ideia. “A importância da candidatura, mais que individual, é coletiva. Estou buscando dar mais visibilidade aos povos indígenas. A Academia é uma instituição muito importante para que essa visibilidade aconteça. Esse desejo que nasceu em mim de concorrer a uma vaga é também mais uma possibilidade de militância dentro da cultura brasileira. É um desejo que as pessoas conheçam mais nossa cultura, escrita, mas também que os povos indígenas não sejam mais vistos como seres do passado, mas do agora, contemporâneos. E, quem sabe, sejam vistos também como os guardiões de um futuro possível para o Brasil, declarou Munduruku ao jornal O Globo.

“A ABL é uma instituição que tem credibilidade junto à sociedade brasileira. Tem que ser, também, o retrato dessa mesma sociedade. Ela conseguirá ser um bom espelho na medida em que for capaz de se abrir para acolher a diferença“, disse, em entrevista ao UOL.

Além do livro infantil Redondeza (em parceria com Roberta Asse), “os dois livros mais recentes lançados por Munduruku estão entre os finalistas do Prêmio Jabuti – A origem dos Filhos do Estrondo do Trovão” (em parceria com Rosinha) “e Crônicas indígenas para rir e refletir na escola – reconhecimento que vem se unir a outros 2 Jabutis, que ele recebeu em 2004 e 2017, ao Prêmio ABL de literatura Infanto-Juvenil, em 2008, ao Prêmio FNLIJ, em 2004 e 2005, à Ordem do Mérito Cultural, do extinto MinC, em 2006 e 2013, e ao Prêmio Vida e Obra, da Fundação Bunge, em 2018″, destaca a carta enviada à ABL.

“Munduruku é um intelectual indígena e foi dos primeiros a escrever histórias inspiradas na mitologia e no modo de vida dos indígenas brasileiros para o público infantil, expandindo a cultura dos povos originários a todas as crianças brasileiras” (leia a carta, na íntegra, no final deste post).

“Daniel já é eterno”

Para Milton Hatoum, Munduruku “é um escritor e um educador de grande valor, recorre a mitos de diferentes povos indígenas para escrever suas belas narrativas infanto-juvenis, que fascinam e atraem leitores de todas as idades”. Em entrevista ao Estadão, ele ainda destacou: “Aprecio a obra do Daniel e sua luta política contra esse projeto destruidor das terras e dos povos indígenas”.

“Daniel trouxe um outro olhar, uma nova maneira de ver a vida, um modo milenar de sobrevivência, de contemplação da natureza e do mundo que nosso ‘beletrismo’ (que cultiva as belas-letras) não conhecia”, salientou o escritor Pedro Bandeira ao mesmo jornal.

“Com essa pureza de olhar, oxigenou nossa literatura. Para mim, Daniel Munduruku não precisa da imortalidade, porque já é eterno. Qualquer ambiente ou grupo só tem a ganhar com sua presença”, conclui Bandeira.

A seguir, leia a carta na íntegra.

Carta em apoio à candidatura do escritor Daniel Munduruku para ABL

Expressamos nosso apoio à candidatura do escritor Daniel Munduruku à cadeira número 12 da Academia Brasileira de Letras. 

Daniel Munduruku é um escritor reconhecido por seus pares e pela crítica literária em razão da qualidade de seu trabalho. É autor de mais de 50 livros para crianças e jovens, alguns deles traduzidos para alemão, coreano, inglês e espanhol. Seus dois livros mais recentes estão entre os finalistas do Prêmio Jabuti, reconhecimento que vem se unir a outros 2 Jabutis, que ele recebeu em 2004 e 2017, ao Prêmio ABL de literatura Infanto-Juvenil, em 2008, ao Prêmio FNLIJ, em 2004 e 2005, à Ordem do Mérito Cultural, do extinto MinC, em 2006 e 2013, e ao Prêmio Vida e Obra, da Fundação Bunge, em 2018.

Daniel Munduruku é um intelectual indígena, foi dos primeiros a escrever histórias inspiradas na mitologia e no modo de vida dos indígenas brasileiros para o público infantil, expandindo a cultura dos povos originários a todas as crianças brasileiras.

A Academia Brasileira de Letras, desde sua fundação pelo escritor Machado de Assis, se propôs a ser uma casa da cultura. Casa que abriga não apenas escritores e poetas, mas também historiadores, sociólogos, juristas, gramáticos, linguistas, economistas, filósofos, jornalistas, artistas e pessoas com outras ligações com o estudo da cultura brasileira e sua produção. Há, portanto, representantes da diversidade de áreas e correntes de nosso pensamento, o que, infelizmente, não se repete na diversidade de nossas etnias.

Num momento de destruição intencional da cultura brasileira em todas as suas formas de manifestação, é importante poder contar com instituições da sociedade civil que nos sirvam de luz e resistência. É isso o que esperamos da ABL, o abrigo da cultura brasileira e um de seus guardiões.

Por esses motivos, defendemos que ao escolher Daniel Munduruku entre seus membros, a Casa de Machado de Assis estará se tornando mais rica e forte para levar à frente sua missão. Uma casa que preserva e estimula o talento e o valor da arte e da cultura brasileiras, sem se ater a vínculos de poder e influências.

Em 2022, Munduruku na política?

Em entrevista à Jotabê Medeiros (agência Amazônia Real), Daniel Munduruku revelou que tem “outro plano de voo para as próximas estações” e que “não será menos ambicioso e controverso”: ele deve se candidatar a deputado federal nas eleições de 2022.

“Me coloquei isso como uma missão. O que me motivou foi constatar que todo o trabalho que empreendi até agora, boa parte dele, emperrou por causa das políticas públicas”, explica. “Quero ajudar a visibilizar melhor as culturas indígenas”. 

Munduruku acredita que, hoje, a representatividade dos indígenas na política poderia ser muito maior e que isso não aconteceu devido aos últimos governos. “Já deveríamos ter tido um presidente indígena na Funai. Por que não tivemos?”, questiona.

Ah, seria magnífico Daniel Munduruku entrar na política! Para ele, seu povo e todos os povos originários.

Há dois anos, os indígenas têm aumentado sua participação na política, como divulgamos em 2020: aqui e aqui. Em outubro, foi Joenia Wapichana foi eleita a primeira deputada federal indígena, dando maior visibilidade a esses povos no Congresso, onde Juruna atuou mais de 35 anos antes.

Leia também:
Presidente da Funai torna-se réu por atraso na demarcação da Terra Indígena Munduruku em Santarém, no Pará
Por unanimidade, STF determina proteção dos povos Yanomami e Munduruku e a retirada urgente de invasores de suas terras

Com informações da Folha (coluna de Mônica Bergamo), G1, UOL, Amazônia Real e site do escritor

Foto: Divulgação

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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