Maior navio de transporte de animais vivos do mundo chega ao Brasil e começa a embarcar mais de 30 mil bois; ONGs denunciam ao MPF

Maior navio de transporte de animais vivos do mundo chega ao Brasil e começa a embarcar mais de 30 mil bois; ONGs denunciam ao MPF

navio jordaniano Mawashi Express, considerado o maior do mundo no transporte de animais vivos, atracou no Porto da Vila do Conde, em Barcarena, no Pará, em 24 de fevereiro. 

Ele tem capacidade para carregar 46.265 toneladas ou mais de 30 mil bovinos e, ontem, 3/3, sua tripulação começou a embarcar a ‘mercadoria’ que veio buscar no Brasil. 

A megaoperação deve terminar na próxima terça-feira, quando deve ser revelado o destino da ‘mercadoria’, que ainda é desconhecido. 

Você consegue imaginar 30 mil animais confinados em espaços minúsculos, amontoados e obrigados a viver entre fezes e urina por cerca de três semanas? E tem mais violência nesta atividade: nos países de destino, eles são manejados de forma brutal e abatidos enquanto ainda estão conscientes e sentem dor. 

Foto: Mercy for Animals

“A exploração que envolve o manejo e abate cruento desses animais não pode ser adequada em uma normatividade simplesmente econômica”, explica Fernando Schell Pereira, diretor geral da Princípio Animal e doutorando em ética animal.

“Acima de tudo, a população precisa se conscientizar da imoralidade e ilegalidade da prática. A defesa discursiva sobre a responsabilidade do embarque e permanente bem-estar desses animais é imoral, pois se trata de apoiar-se numa prática institucionalizada e intrinsecamente cruel de utilização dos animais”, ressalta.

Não é a primeira vez que esse navio vem ao Brasil. Ele já esteve aqui por duas vezes, a última em 2017.

Denúncia ao MPF

Assim que o Mawashi Express chegou ao Pará, a organização de proteção animal Mercy for Animal (MFA) – junto com o Fórum Animal de Proteção e Defesa Animal (Fórum Animal) e Princípio Animal – denunciou sua presença ao Ministério Público Federal (MPF), solicitando sua fiscalização para que sejam avaliadas as condições de transporte, o bem-estar dos animais e os riscos ambientais da operação.

longa viagem somada ao período de intenso calor em que está sendo realizada a operação, impede seu bem-estar, agravando as condições a que serão submetidos esses animais. 

Além disso, o Mawashi Express – que navega sob a bandeira do Panamá –  é uma embarcação muito antiga: foi construído em 1973 e convertido para o transporte de animais em 1982. A longevidade da embarcação é um alerta para possíveis riscos ambientais já que ela pode naufragar. 

Para embasar sua preocupação neste sentido, as ONGs citam o caso do navio Haidar, que, em 2015, naufragou no Porto de Vila do Conde com cinco mil bois a bordo, provocando um dos maiores desastres ambientais da história do Pará. 

Bois afogados e vazamento de óleo no Porto de Vila Conde, no Pará, em 2015 / Foto: Fórum Permanente de Proteção e Defesa Animal no Pará

A representação também inclui o acompanhamento do embarque, além de requerer a apresentação de planos de viagem e contingência por parte dos responsáveis pela exportação.

“O Brasil está na contramão dos países mais desenvolvidos que avançaram em políticas públicas e comerciais para proibir ou estão em vias de proibição da prática, entendendo que a sociedade não aceita mais argumentos que em nada justificam o sofrimento intrínseco da exportação de animais vivos”, destaca Vania Plaza Nunes, médica veterinária e diretora técnica do Fórum Animal

Cristina Mendonça, diretora executiva da Mercy For Animals no Brasil, lembra que, em 2021, o organização lançou a campanha Exportação Vergonha para que o Congresso Nacional proíba a exportação de animais vivos destinados ao abate”. 

“Com essa mobilização e o apoio da sociedade, estamos dando importantes passos na construção de um mundo mais justo e compassivo para os animais e todos os seres”. 

Se você faz parte desse movimento, assine a petição online dessa campanha! 

Exportação de animais vivos no Brasil 

Foto: Mercy for Animals

No mundo, 11 milhões de bois são exportados vivos para abate anualmente: 18% deles embarcam na Oceania e na América do Sul.

No Brasil, o transporte marítimo de animais vivos começou em 2002 e, desde então, a cada ano, centenas de milhares de bois são transportados pelo mar até o Norte da África e o Oriente Médio, onde são mortos para servirem de alimento.

Somos o segundo maior exportador nessa atividade, perdendo apenas para a Austrália. Em 2019, o Brasil foi o que mais exportou bois vivos para o Oriente Médio e o segundo para o Norte da África.

Só podemos nos vergonhar por participar e ter destaque nesse ranking.

Hoje, apenas três Estados concentram quase 95% das exportações. Os animais são embarcados no porto Vila do Conde, no Pará (66,4%), no Rio Grande, no Rio Grande do Sul (20%) e São Sebastião, em São Paulo (8,3%).

Esses dados são de 2012 a 2020 e constam do Relatório Investigativo de Exportacao de Animais Vivos o Brasil, lançado pela Mercy for Animals em 2021.

Fotos e informações: Mercy for Animals

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Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.