PUBLICIDADE

Lula condecora Padre Julio Lancellotti com medalha da Ordem do Mérito do Ministério da Justiça

Por meio de decreto assinado em 28 de agosto, o presidente Lula concedeu a Ordem do Mérito do Ministério da Justiça e Segurança Pública (grau de Grã-Cruz) ao Padre Julio Lancellotti, de 74 anos- coordenador da Pastoral do Povo de Rua da Arquidiocese de São Paulo e pároco da Igreja São Miguel Arcanjo – por reconhecimento do trabalho que desenvolve em defesa dos direitos humanos e junto às pessoas em situação de rua.

A decisão atendeu à proposta do Ministério da Justiça (com apoio do Ministério dos Direitos Humanos) e foi publicada no Diário Oficial da União, em 29 de agosto.

“Um fiel seguidor dos princípios de Jesus, Padre Julio Lancellotti é uma referência no acolhimento e no cuidado de quem mais precisa, sobretudo das pessoas em situação de rua da capital. Tenho dito que não podemos tolerar a cultura do ódio no nosso país. Precisamos virar esta triste página da nossa história. Mais amor e solidariedade. Menos ódio e egoísmo. É disso que precisamos no Brasil e no mundo”, declarou Lula no X (ex-Twitter).

“Feliz que o presidente Lula acolheu nossa proposta. Agora vamos organizar a solenidade para homenagear o trabalho social do Padre Júlio Lancellotti“, disse o ministro da Justiça e Segurança Pública, Flávio Dino, no X (ex-Twitter). “Padre Júlio é um exemplo de brasileiro, preocupado com os direitos humanos e defensor das pessoas que mais precisam de atenção”.

A condecoração da Ordem do Mérito do Ministério da Justiça e Segurança Pública é concedida a pessoas (civis ou militares) que tenham prestado serviços notáveis a esse ministério ou relacionados aos temas dessa área.

A ordem foi criada em 2018, por Michel Temer e reformulada em junho de 2022 pelo Decreto nº 11.089, devido à unificação dos ministérios da Justica e da Segurança Pública no governo Bolsonaro. Entre os agraciados, estão a ex-procuradora-geral da República Raquel Dodge, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes e ex-presidente Michel Temer.

Num governo democrático e humanista, a escolha deste ano não poderia ser mais pertinente. Afinal, o trabalho desenvolvido pelo padre Júlio, na zona leste de São Paulo, tem fortes impactos positivos e o tornou conhecido em todo o país e, até, fora dele.

Papo com o Papa

Durante a pandemia, em 10 de outubro de 2020, recebeu ligação do Papa Francisco, que manifestou interesse e compaixão por sua proximidade à população em situação de rua nesse período

“O Papa disse que nos acompanha com carinho, sabe das dificuldades que vivemos e para que não desanimemos e tenhamos coragem, como Jesus, estando sempre junto dos pobres”, contou padre Julio na ocasião, em entrevista ao jornal O São Paulo, da Arquidiocese paulista.

O papa também pediu ao padre que transmitisse à população de rua que os ama muito, os abençoou, pedindo-lhes também suas orações por ele. “O Papa foi muito simples e próximo, como se conversássemos todos os dias”, destacou Lancelotti, muito emocionado e surpreso com o telefonema. “Levei um susto. Quanto ele disse que era o Papa Francisco, fiquei incrédulo no primeiro momento”.

O padre é pop

Todos os dias, padre Julio se comunica pelas redes sociais para incentivar o amor pelos pobres e desvalidos. Também denuncia casos de violência policial e de práticas de Aporofobiaojeriza aos pobres -, também reveladas por meio da chamada “arquitetura hostil”, que impede o uso do espaço público por essas pessoas.

Em fevereiro de 2021, também durante a pandemia, ele protestou contra decisão da prefeitura de colocar pedras embaixo de viaduto geralmente ocupado por pessoas em situação de rua.

Foto: Henrique Campos/reprodução Instagram

Além de usar picareta (dos funcionários da prefeitura) para quebrá-las, em ato simbólico e potente, no dia seguinte, realizou encontro cheio de amor e compaixão: na companhia de fiéis e seguidores, entregou flores para as pessoas que se abrigavam no local. Comoveu o Brasil.

Foto: Victor Angelo Caldini/reprodução Instagram

Vale lembrar que, em dezembro de 2022, o Congresso derrubou veto de Bolsonaro à Lei Padre Júlio Lancellotti (Lei 14.489), de autoria do senador Fabiano Contarato (PT/ES), que “altera a Lei nº 10.257, de 10 de julho de 2001 (Estatuto da Cidade), para vedar o emprego de técnicas construtivas hostis em espaços livres de uso público”.

A lei – promulgada naquela ocasião pelo Congresso – foi regulamentada por Lula, portanto, é crime utilizar materiais, equipamentos e estruturas para afastar pessoas dos espaços públicos, especialmente as que vivem em situação de rua. “É a lei que proíbe as intervenções hostis na arquitetura. Contamos com todos porque precisamos humanizar a vida”, declarou Lancelotti em vídeo com o Ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha, divulgado nas redes sociais.

Outro movimento importante nessa luta é o lançamento do livro infantil Aporofobia – você não conhece a palavra, mas conhece o sentimento, de Blandina Franco (Companhia das Letras), com colaboração de Lancelotti, que conscientiza crianças sobre o combate a este preconceito.

“Esse livro vai fazendo uma educação para os direitos humanos e pra gente superar, dentro das desigualdade, esse sintoma tão horrível da pobrefobia. A gente espera que, com esse material e com todas as providências que o governo federal está tomando, articulando os estados e municípios, a população em situação de rua não seja marcada para a morte, mas para a vida”, disse ele no mesmo vídeo com Padilha.

Outra conquista importante para a população que vive nessa situação no Brasil: em julho, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), deu prazo de 120 dias para que o governo federal apresente um plano nacional de proteção.

A decisão – que proíbe o recolhimento forçado de itens pessoais e a remoção compulsória de pessoas das ruas – foi motivada por ação protocolada pelos partidos PSOL e Rede e também pelo MTST – Movimento dos Trabalhadores Sem Teto. Para embasa-la, o ministro citou o trabalho do Padre Julio, que assim se manifestou:

“O Estado, em todos os níveis, sabe dar que resposta? Fazer albergue. Sabe dar que resposta? Higienismo. Retirar as pessoas e agredir. Então é preciso ter discernimento para encontrar respostas para uma população que é tão diversa”.

Ameaças

Reconhecido e amado pelo lindo trabalho que desenvolve, Padre Julio também é constantemente atacado e ameaçado.

Em 2020, durante campanha eleitoral para a prefeitura de São Paulo, o deputado federal cassado, Arthur do Val, empreendeu campanha de difamação contra Lancellotti. Entre outras acusações, nas redes sociais, ele disse que o padre era “cafetão da miséria”.

Em 26 de agosto último, portanto três dias antes da condecoração por Lula, Lancelotti recebeu bilhete com ameaças, deixado na porta da Paróquia São Miguel Arcanjo. “Seu dia de reinado aqui vai acabar”, “defensor dos direitos dos bandidos” e “petista vagabundo” são algumas das frases da carta agressiva, que foi escrita por um homem de 72 anos.

Bilhete ameaçador recebido por Padre Julio / Foto: reprodução Instagram

O autor foi identificado devido às imagens da câmera de segurança instalada na entrada da igreja. Preso, declarou à polícia que conhecia o padre, confessou o crime, mas alegou que não tinha intenção de lhe fazer mal. O caso foi registrado como injúria e ameaça e, agora, o religioso tem prazo de seis meses para representar criminalmente contra o autor.

Esta é apenas uma das dezenas de ameaças que o pároco recebe periodicamente. Em março de 2018, por exemplo, advogados e entidades de direitos humanos entraram com representação no Ministério Público (MP) de São Paulo pedindo abertura de investigação sobre ameaças de morte que ele vinha recebendo nas redes sociais.

Os ataques eram principalmente de moradores e comerciantes da região da Mooca, onde está localizada a igreja que ele coordena e ele atua, auxiliando a comunidade carente.

Reconhecimento

Por seu trabalho magnânimo, Padre Julio já foi reconhecido pela Unesco, é Doutor Honoris Causa da PUC/SP, recebeu o Prêmio Alceu Amoroso Lima da Universidade Cândido Mendes/RJ e, em 2021, a mais alta honraria da Assembleia Legislativa de São Paulo por sua atuação em defesa dos direitos humanos: o Colar de Honra ao Mérito.

Mas antes da Ordem, o recente reconhecimento mais recente foi recebido por ele no ano passado, um momento muito delicado e turbulento do Brasil, às vésperas das eleições: o Prêmio Juca Pato – Intelectual do Ano, concedido pela União Brasileira de Escritores (UBE).

Padre Julio recebe preFoto: divulgação UBE

Lancelotti concorreu com a jornalista Eliane Brum (indicada em 2020, também), o escritor Laurentino Gomes, o biógrafo Fernando Morais e a autora e tradutora Marina Colasanti.

Em 2020, o vencedor do prêmio foi o pensador e líder indígena Ailton Krenak. Em 2021, foi a cartunista Laerte Coutinho.

“O Juca Pato é muito mais que um prêmio literário”, explica o escritor Ricardo Ramos Filho, presidente da UBE. “Reconhece a trajetória de pessoas que atuam na defesa dos valores democráticos e republicanos. É o que o Padre Julio tem defendido a vida toda, com muito amor e carinho, e, também, em seu livro lançado no ano passado”.

Com o título Tinha uma pedra no meio do caminho, a obra relata sua trajetória de 36 anos ao lado das pessoas que vivem em situação de rua na cidade de São Paulo. 

Na cerimônia de entrega do prêmio, em 11 de dezembro, realizada na Igreja São Miguel Arcanjo, Ricardo Ramos Filho, presidente da UBE, declarou:

“Ao receber o prêmio Intelectual do Ano, Padre Julio mostra a força do pensamento que é verdadeiramente humano. Com a votação expressiva, tida – e é sempre bom respeitar os votos, nada mais democrático -, nos traz a esperança de um mundo melhor, de uma nação mais fraterna, mesma esperança de vida de uma outra eleição recente. O Brasil tende a se recuperar de um tempo muito difícil, o amor vingará com todos os significados que a palavra vingar possa ter. O amor irá vingar! Viva o Juca Pato! Viva o Padre Julio Lanceltotti!”.

Trajetória 

Julio Renato Lancellotti nasceu em 1948 na capital paulista. Iniciou sua educação formal no Educandário Espírito Santo, no Tatuapé, e, em 1980, fez a fundamentação da Pastoral do Menor da Arquidiocese de São Paulo com Dom Luciano Pedro Mendes de Almeida.

É pedagogo e, em 1986, foi designado para a Paróquia de São Miguel Arcanjo, no bairro da Mooca, onde intensificou seu trabalho com moradores de rua e menores abandonados. 

Participou da campanha contra maus tratos ocorridos na Fundação Estadual para o Bem Estar do Menor (FEBEM) e, em 1990, denunciou maus tratos e torturas aos menores por meio da Pastoral do Menor, ano em que fundou a Comunidade Povo da Rua São Martinho de Lima, abrigo para pessoas em situação de rua, que oferecia cozinha, lavanderia e uma pequena marcenaria destinada a realização de cursos profissionalizantes. 

Um ano depois, fundou as Casa Vida I e II para acolher crianças portadoras do vírus HIV

Como vigário episcopal do Povo da Rua da Arquidiocese de São Paulo, está à frente de vários projetos de atendimento à população carente, atuando junto a menores infratores, detentos em liberdade assistida, pacientes com HIV/Aids e populações de baixa renda e em situação de rua.

Leia também:
O rapper Emicida, o jornalista Chico Pinheiro e o sheik Rodrigo Jaloul se unem ao Padre Julio Lancellotti contra a aporofobia
(maio 2022)
Padre Júlio Lancellotti chora diante de morador de rua com hipotermia: “Se tá assim aqui dentro, imagina lá fora!”. A solidariedade nunca foi tão urgente
(maio 2022)

Comentários
guest

1 Comentário
Oldest
Newest Most Voted
Inline Feedbacks
View all comments
KARINA FLORENTINO
KARINA FLORENTINO
7 meses atrás

Existem pessoas neste país e neste tempo que nem parece que sabem onde estão. Padre Júlio consegue transcender com carinho, amor e força toda mentira e raiva que tentam imprimir… Obrigada, Padre! Também a todos, todas que colaboram nessa luta

Notícias Relacionadas
Sobre o autor
PUBLICIDADE
Receba notícias por e-mail

Digite seu endereço eletrônico abaixo para receber notificações das novas publicações do Conexão Planeta.

  • PUBLICIDADE

    Mais lidas

    PUBLICIDADE