Luiz Rocha, cientista brasileiro, recebe prêmio internacional por pesquisas em recifes de corais em águas profundas

Luiz Rocha, cientista brasileiro, recebe prêmio internacional por pesquisas em recifes de corais em águas superprofundas

Desde 1976, o Rolex Awards for Enterprise, prêmio internacional de apoio a pesquisadores e exploradores de origens geográficas diversas – um dos maiores no mundo! -, incentiva projetos originais e inovadores que contribuem não só para ampliar o conhecimento sobre a natureza, mas também preservar habitats e espécies nativas, desenvolvendo soluções para os grandes desafios da atualidade – como as mudanças climáticas – e promovendo o saber e o bem-estar da humanidade.

Em 45 anos, o prêmio teve 34 mil inscritos (a maioria dos Estados Unidos, da Índia, Nigéria, Brasil e Egito), de 191 países – sendo que o mais jovem de 19 anos e o mais velho de 87 – e foram laureados 150 pioneiros. Este ano, um dos contemplados é o cientista brasileiro Luiz Rocha, que dedica sua carreira a explorar e proteger recifes de corais nos oceanos pelo mundo.

O especialista em ictiologia (estudo de peixes) é reconhecido como um dos poucos pesquisadores renomados capazes de mergulhar e guiar expedições em águas superprofundas, que podem chegar até 150 metros.

Luiz Rocha, cientista brasileiro, recebe prêmio internacional por pesquisas em recifes de corais em águas superprofundas
Foto: Rolex Awards/Divulgação

Há 20 anos, Luiz iniciou o treinamento em mergulho técnico, que exige equipamento pra lá de especial – à base de gases mistos, que recicla a respiração do mergulhador depois de excluir o dióxido de carbono -, além de extremo rigor na execução. Esse tipo de mergulho exige muito do corpo, por isso, só é possível fazer um por dia.

Pra se ter ideia do que representa essa habilidade, basta saber que a Grande Barreira de Corais, na Austrália, ou a Costa dos Coraisárea de proteção ambiental (APA) localizada entre os municípios de Tamandaré (PE) e Maceió (AL) -, muito famosas no mundo, são consideradas rasas.

Existem muitos outros recifes que ficam entre 30 e 150 metros de profundidade e é por estes que Luiz tem especial interesse. Cultivou os atributos necessários ao passar mais de 6 mil horas submerso em mais de 70 expedições científicas no mundo todo, liderando metade delas. 

“A questão com esses recifes e que quase ninguém consegue estudá-los porque a grande maioria dos cientistas – 99,9%, eu diria – faz um único curso de mergulho que é básico, então não podem mergulhar há mais de 30 ou 35 metros”, explica Luiz (veja a ilustração abaixo).

E o pesquisador acrescenta: “Para estudar águas em profundidade, você tem três opções: usar um submarino, um veículo remoto ou fazer mergulho técnico, que é minha especialidade. Se eu estudasse corais ou esponjas, algum bicho que não se mexe muito, o submarino seria interessante. Mas, como estudo peixes, não tem como usar esse tipo de veículo porque eles se assustam com o motor ou com as luzes e se escondem. Não é a ferramenta certa pra usar”. 

Luiz Rocha, cientista brasileiro, recebe prêmio internacional por pesquisas em recifes de corais em águas superprofundas

Novo estudo nas Ilhas Maldivas

O talento especial de Luiz Rocha para atuar nas profundezas tem tornado possível o desenvolvimento de pesquisas inéditas como a de seu novo projeto, em parceria com o governo das Ilhas Maldivas (Oceano Índico), cuja receita depende da pesca e do turismo de corais.

Mesmo com toda exploração moderna, mergulhar numa zona crepuscular como em Maldivas é arriscado, técnica e fisicamente difícil, e requer um alto grau de disciplina, determinação e habilidade. O que Luiz tem de sobra.

Corais são berços de rica diversidade: cerca de 25% de toda vida marinha passa por eles em algum momento de seu desenvolvimento e, por isso, o cientista espera encontrar espécies nunca vistas ou descritas.

Luiz Rocha, cientista brasileiro, recebe prêmio internacional por pesquisas em recifes de corais em águas superprofundas
Foto: Rolex Awards/Divulgação

No Oceano Índico, por exemplo, é possível descobrir até dez novas espécies por hora de exploração em recifes profundos. E Luiz acredita que, nas Maldivas, exista ainda mais recifes a explorar. Por isso, sua expectativa é de descrever novas espécies de peixes e de outros animais, que vivem a mais de cem metros de profundidade.

“Como são pouquíssimos os recifes estudados em grandes profundidades, pouquíssimos são protegidos. A gente não sabe quais são as espécies existentes, onde estão, e, assim, é difícil proteger”, destaca.

Expedição em Fernando de Noronha, um exemplo

“Uma expedição interessante foi a que eu e minha equipe fizemos em Fernando de Noronha, em 2019, antes da pandemia, para estudar os recifes profundos. E não somente encontramos espécies novas como também novos registros para a ilha. O mais interessante é que o Parque Nacional Marinho vai até 50 metros de profundidade! Ou seja, tudo que é mais profundo – que é o que eu estudo, entre 100 e 150 metros – está fora do parque, portanto, vulnerável para pesca”, explica.

“O que estou bem animado pra fazer, com o apoio do prêmio da Rolex, é principalmente abrir os olhos do público para a existência desses recifes. Quanto mais nós, pesquisadores, mostrarmos e descrevermos as espécies que estão nesses recifes, maiores são as chances de protegê-los”.

E continua: “Quero protegê-los (recifes de coral) porque são derivados únicos de um processo evolutivo de milhões e milhões de anos. Para mim, são como arte”.

Ele ainda conta que conversou com os pesquisadores do Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha, “com os quais fizemos a parceria quando estivemos lá”, para sugerir a expansão do parque de forma a incluir “uma parte dos recifes profundos identificados dentro dele, para que também sejam protegidos”.

E destaca: “Sem o estudo que a gente fez, isso não seria possível porque não teríamos ideia do que tem lá”.

(veja algumas das espécies descobertas nessa expedição e fotografadas por Luiz Rocha e o artigo científico publicado na revista científica Neotropical Ichthyology)

A expedição nas Maldivas, que contará com o apoio do prêmio Rolex, deve durar dois anos e terá três etapas, tendo, como base, as expedições realizadas nos recifes de Fernando de Noronha (descrita acima por Luiz) e das Filipinas.

“No planeta inteiro, o impacto das mudanças climáticas tem destruído os recifes de coral próximos da superfície. O governo das Maldivas está ansioso para aprender a proteger esse precioso trunfo nacional e descobrir se os corais mais profundos podem servir de refúgio para os da superfície e sua vida marinha”, destaca o site do prêmio Rolex.

Amor pelo oceano, desde menino

Luiz Rocha, cientista brasileiro, recebe prêmio internacional por pesquisas em recifes de corais em águas superprofundas
Foto: Rolex Awards/Divulgação

“Decidi ser biólogo quando tinha cinco ou seis anos de idade. Sempre senti atração de ir para o oceano e admirar a vida marinha”, conta Luiz, que logo expressou esse amor por intermédio de aquários. Tinha verdadeiro fascínio por eles e era capaz de ficar horas admirando os peixes nas “lojas de animais” que visitava com a mãe, ainda pequenino. A curiosidade pelo ambiente marinho o movia e o acompanha até hoje, numa outra escala.

O pesquisador começou a mergulhar na adolescência e se apaixonou de vez pelo mar e pela vida que há nele. Formou-se em Biologia e concluiu o mestrado em Ciências Aquáticas e da Pesca na Universidade da Flórida, nos Estados Unidos. E rapidamente tornou-se referência mundial em ictiologia, o estudo dos peixes.

Hoje, se divide entre o mar e a academia. Leciona na Academia de Ciências da Califórnia, onde é considerado Herói da Ciência e lidera quatro ou cinco expedições de mergulho, anualmente.

É autor de mais de 150 artigos científicos nos quais avalia as condições de preservação de mais de 500 espécies de peixes para a União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), que detém a lista vermelha de espécies em risco de extinção, em níveis diversos. Também se apresentou em mais de 200 conferências internacionais.

Em 2019, Luiz Rocha conquistou o prêmio Margaret M. Stewart Achievement Award, da The American Society of Ichthyologists and Herpetologists.

Mais quatro guardiões do futuro

Fotos: Rolex Awards/Divulgação

O prêmio Rolex Awards foi criado há 45 anos para marcar o aniversário de número 50 do primeiro relógio de pulso impermeável do mundo, o Oyster. Este ano, além do brasileiro Luiz Rocha, contemplou mais quatro pesquisadores: um americano, uma chadiense, um nepalês e uma britânica.

Felix Brooks-Church

No mundo todo, a má nutrição responde por 15 mil óbitos infantis diários, que são evitáveis. Mas este empreendedor social americano tem uma solução: trata-se de um sistema engenhoso que aprimora moinhos de farinha e garante que cada mãe e cada criança de sociedades desfavorecidas tenham uma refeição com todos os nutrientes essenciais, por dia.

“Seu projeto está levando esperança e um novo fôlego para crianças na Tanzânia, e servindo de modelo para o resto do mundo”, destaca o site do Rolex Awards.

Hindou Oumarou Ibrahim

A realidade das mudanças climáticas é muito conhecida pelo povo do Chade, na África. “O maior lago do país, que leva o nome da nação, e mantém mais de 30 milhões de pessoas, quase desapareceu em apenas duas gerações’, conta o site.

Para esta cientista, que luta contra a crise climática e defende os direitos indígenas, a tragédia também oferece a oportunidade de reunir seu povo para resolver a crise. Para tanto, Hindou usa conhecimentos tradicionais dos povos indígenas para mapear recursos naturais e prevenir conflitos no Sahel.

Rinzin Phunjok Lama

Este jovem ecologista do Nepal promove iniciativas locais para a conservação da biodiversidade na região montanhosa de Humla no Himalaia (onde fica a Trans-Himalaia), um dos lugares mais selvagens e isolados do mundo.

A região está sendo “alistada como uma das conservadoras da linha de frente para resgatar populações cada vez menores de animais selvagens: de leopardos das neves a iaques selvagens”, revela o site. Para Lama, somente o compromisso das comunidades locais, aliado a conhecimentos diversos, podem realmente fazer a diferença.

Gina Moseley

Esta pesquisadora britânica do clima cruzará uma das últimas fronteiras de exploração quando liderar a primeira expedição internacional que às cavernas árticas mais ao norte do planeta, inexploradas, em busca de pistas sobre o passado climático da Terra.

Com essa expedição, ela visa ter novos insights sobre mudanças do clima, expondo o risco para as populações das regiões polares, que agora aquecem duas vezes mais rápido do que em outros lugares e ameaçam afogar cidades costeiras em todo o mundo.

Para desafios quase impossíveis, ideias brilhantes

Os projetos selecionados revelam a preocupação de todos os laureados com a crise climática e ‘nos guiam em direção a um futuro sustentável“. Os cinco contemplados deste ano estão enfrentando alguns dos “desafios mais intratáveis ​​do planeta com ideias brilhantes e trabalho árduo“.

Agora, assista à declaração de Luiz Rocha (em inglês) para o vídeo de divulgação de seu trabalho produzido para o prêmio Rolex:

Fotos: Rolex Awards/Diivulgação

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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