Luciano Candisani desvenda a imensidão e a riqueza das águas do Pantanal, em livro e exposição

Desde garoto, o fotógrafo Luciano Candisani é fascinado pela água, mais precisamente pelos ambientes aquáticos: mar, rios, lagos… E, como sempre viveu no litoral, foi no mar que começou a desvendar os mistérios da vida debaixo d’água e a fotografar. 

“Aos 15 anos, peguei a câmera por causa desse interesse forte pelo ambiente submarino”, conta. “E minha primeira viagem ao Pantanal, com meu pai, aconteceu nesse contexto. E ainda levei a máscara de mergulho porque queria conhecer a maior planície inundável do planeta debaixo d’água. Me encantei por aquele mar de água doce!”. 

E, nos últimos dez anos, Candisani voltou ao bioma, diversas vezes – entre uma viagem e outra para outros continentes. Queria desvendar sua paisagem, ciclos e a dinâmica da água. E, para realizar as expedições, logo escolheu os períodos de cheia, quando os rios transbordam e o Pantanal vira mar. Também quando as estradas estão submersas e os mosquitos são companheiros constantes.

“Em quase todos os locais em que trabalhei, no Pantanal, meus poucos companheiros de viagem e eu éramos os únicos seres humanos imersos num aguaceiro a perder de vista. Traz uma sensação muito boa estar diante desses grandes espaços naturais intocados, a cumprir seu papel natural de manutenção dos ciclos da vida”. Corixão, Pantanal dos Paiaguás, Mato Grosso do Sul

Foi esse cenário repleto de vida que conquistou o profissional, que é referência na fotografia documental.

A água molda a paisagem e controla a vida no Pantanal, que tanto pode ser imensidão líquida ou seca. De uma estação à outra, da estiagem às chuvas, seus campos ressequidos se transmutam em jardins submersos densos, coloridos e habitados por miríades de peixes. Depois voltam a secar, numa dinâmica perene que é a essência desse incomparável espaço natural”, conta Candisani na abertura do livro Terra d’Água, Pantanal -, que lança hoje, 28/9, pela Vento Leste Editora, juntamente com uma pequena e bela exposição no Estúdio 41, Itaim Bibi, em São Paulo.

“Persegui muito a chance de fazer essas fotografia dos jacarés na linha d’água. Acima da superfície aparece a imagem que comumente é vista, a dos olhos e focinho, que parecem flutuar. Debaixo, o quase invisível mundo subaquático que eu estava aos poucos tentando revelar com as minhas fotografias”, conta Candisani. Vazante do Castelo Pantanal da Nhecolândia, Mato Grosso do Sul

Vale destacara aqui que, no livro, todas as fotografias são apresentadas em página dupla, sem legendas ou qualquer outra interferência, para maximizar a experiência do leitor. As descrições das imagens, narradas por Candisani, estão reunidas em um encarte que, além de facilitar a leitura, oferece detalhes da imagem apreciada. Com mais um detalhe precioso: a maior parte dos textos foi extraída de suas notas de campo originais. Um deleite à parte!

“Ao compartilhar essas informações, ora com precisão científica, ora com impressões pessoais ou relatos de circunstâncias peculiares, quero catalisar o potencial intrínseco que toda imagem tem de contar histórias, de provocar reflexões e emoções”.

Desse encarte, extraí informações e reflexões para as legendas das imagens que mostro neste texto.

Na foto de destaque (no início deste post), um dourado abre a boca diante da lente de sua lente no Rio Olho d’Água, na RPPN Fazenda Cabeceira do Prata, em Jardim, Mato Grosso do Sul. No livro, ele conta desconhecer o motivo que levou o peixe a fazer isso. “Mas o momento me pareceu muito adequado para registrar a força desse grande predador dos nossos rios, de forma que tomei todas as minhas decisões de composição para reforçar a ideia”.

“Cenas como esta, na Lagoa do Bamburro, mostram a recuperação da população de jacarés, muito perseguidos nos anos 70 e 80 pelo valor de sua pele para a industria”.
Fazenda Pouso Alegre, Pantanal de Poconé, Mato Grosso do Sul

A seguir, os principais trechos da entrevista que fiz com ele sobre a obra e o momento crítico, de grande devastação, pelo qual passa o bioma e o país. 

No final desse papo, indico mais detalhes sobre a publicação – que reúne 75 imagens deslumbrantes (dá pra ver uma pequena mostra neste post) e o lançamento, que acontecerá em outras duas cidades, em outubro. E ainda reproduzo um vídeo lindo sobre a trajetória do fotógrafo nestes dez anos de Pantanal. É muito emocionante o momento em que ele mostra as cinzas que cobrem a terra e vê-lo caminhar pelas áreas devastadas pelo fogo.  

“As raias são abundantes no Pantanal, embora seu impressionante poder de camuflagem junto ao fundo torne raro avistá-las. Esta estava em uma área muito rasa e, para fotografá-la, deitei na água, com pouco mais de 30 centímetros de profundidade”. E Candisani continua: “Os pantaneiros temem muito pisar no ferrão venenoso desses peixes ao andar em áreas inundadas”.
Nhecolândia, Mato Grosso do Sul

Candisani, qual foi o maior desafio desse trabalho? O que mais te motivou?

Eu queria mostrar a diversidade de vida na água do Pantanal, mas lagos e rios têm pouca visibilidade. Você mergulha e não enxerga nada por causa da turbidez.

Na maior parte dessa grande planície inundável, não se consegue fotografar embaixo d’água, então, meu desafio foi buscar os lugares onde se encontram as águas claras, exatamente para poder trazer a riqueza desse ambiente aquático para a fotografia.

Muitas vezes a gente fala que o Brasil tem 1/5 da água doce do mundo, que o Pantanal é a maior planície inundável, que a Amazônia é uma floresta de água, mas falta uma compreensão maior desses ambientes, falta uma identidade visual para cada um. 

Como é essa água, como é essa vida que está ali? Foi essa curiosidade que me motivou a fazer esse trabalho.

Você conhece o Pantanal inteiro? As regiões que escolheu ficam no norte ou no sul do bioma? 

Andei pelo Pantanal todo, nos últimos dez anos, mas este trabalho se concentrou principalmente em duas áreas. O Pantanal é subdividido em sub-regiões, de acordo com a fisionomia, o clima… Pode variar de autor para autor, mas, em geral são 10 a 11 sub-regiões. 

Numa delas eu trabalhei muito, foi onde fiz a maior parte das imagens: chama-se Nhecolândia, Pantanal da Nhecolândia, e fica na região do Rio Negro. A outra região em que trabalhei bastante foi na Serra do Amolar, no Pantanal do Paiaguás. Ambas no sul do Pantanal.

Nelas encontrei as condições mais favoráveis para a abordagem subaquática. Tenho fotos de todos os lugares por onde passei, mas me concentrei basicamente nesses dois pontos, que são áreas imensas. 

“Piraputangas nas primeiras horas do dia em um trecho inicial do Rio Olho d’Água. Mergulhei incontáveis vezes neste curso de aguas cristalinas, da nascente à foz, e nunca deixei de me surpreender com a beleza da suas paisagens subaquáticas e com a pujança da fauna”.
RPPN Rio da Prata, Jardim, Mato Grosso do Sul
“O cardume de mato-grossos, esses peixinhos vermelhos, estava empenhado em comer os
ovos que uma piranha havia depositado junto às raízes do aguapé. Ela tentava afugentá-los
sem sucesso. Toda vez que investia sobre seus pequenos algozes, era despistada pela
divisão rápida do cardume em várias frentes de ataque.
Lagoa Marginal do Rio Formoso, Bonito, Mato Grosso do Sul

Em 2012, você lançou um livro sobre o Pantanal, com uma pequena tiragem. Qual a diferença entre as duas obras?

Sim, a tiragem de Pantanal, na linha d’água foi bem pequena e, apesar do meu fascínio pela água (que também está no título), o objetivo com esse trabalho era mostrar o Pantanal como um todo, numa abordagem tradicional: fauna, vegetação, a cultura pantaneira… Mas não é esse o Pantanal que me comove, me encanta e me motiva. O que eu acho essencial mostrar é o Pantanal da água, que é o que faço com este livro.

Agora, a água é o fio condutor. De longe ou de perto, as fotografias deste ensaio jamais prescindem da água: ela está presente em todas as imagens, assim como em tudo o que tem vida.

Mas há uma outra grande diferença, que talvez seja a maior provocação contida nesse trabalho: o grande peso que eu dei para as nascentes

“Nesta fotografia, praticamente tudo está coberto pela água. Os belos padrões são formados pela disposição e pelo movimento das plantas aquáticas, algumas presas ao fundo e outras flutuantes. A parte mais escura é uma área com cerca de três metros, onde as plantas não se fixam”.
Na Vazante do Castelo, Fazenda Barra Mansa, Pantanal da Nhecolândia, Mato Grosso do Sul

Como a gente sabe, as nascentes estão localizadas fora do Pantanal, mas sem elas o Pantanal não existe! As nascentes dos principais rios dessa planície estão nos planaltos ao redor, na Chapada dos Guimarães etc, estão fora do que se chama de Pantanal geograficamente falando, tecnicamente falando. 

Mas, do ponto de vista funcional, não existe Pantanal sem as nascentes. E as principais ameaças que hoje pairam sobre o bioma como um todo, vêm exatamente desses planaltos ao redor, da destruição das nascentes.

E qual é a provocação? Eu abro o livro falando das nascentes e as encaro como parte do Pantanal. O Pantanal na minha visão, inclui e deve incluir as nascentes ao redor. Sem elas, não existe o bioma! 

A foto da capa é de uma nascente! É uma água cristalina, que chama para esse debate, e apresenta um lugar que é um bom exemplo de conservação.

Onde você fez a foto da capa?

No Rio Olho d’Água, no planalto da Bodoquena. É uma das nascentes que formam rios que terminam inundando o Pantanal. Veja: o Rio Olho d’Água sai no Rio da Prata que, por sua vez, sai no Rio Miranda que, por sua vez, sai no Rio Paraguai, o principal rio do Pantanal.

No livro, as nascentes que alimentam o Pantanal são representadas por nascentes que fotografei na Serra da Bodoquena, mas existem muitas outras, a maior parte em estado precário de conservação

Interessante a sua visão porque traz uma nova abordagem para o Pantanal…

Sim, é uma provocação, mesmo porque, algumas pessoas podem dizer “mas isso não é o Pantanal!”. E é justamente essa visão que tem nos levado a compartimentalizar a natureza e destruir um pedaço achando que não vai afetar o outro. 

Está tudo interligado, o Pantanal, os planaltos ao redor… Essas divisões, na verdade, são ficções que a gente cria para poder compreender melhor onde estamos, mas a natureza não entende assim.  

Hoje, a verdade é que o Pantanal está num período complicado, muito crítico mesmo, como os dados do Mapbiomas revelaram, recentemente. O Mato Grosso do Sul perdeu 57% da superfície de água – muito em função da destruição das nascentes, que estão fora do bioma. E também devido ao desmatamento da Amazônia, que traz menos chuvas para o Centro Oeste.

“Chuva sobre a Vazante do Mangabal. Em primeiro plano, as plantas aquáticas, que so aparecem quando o nivel da agua sobre sobre os campos ressequidos. A foto foi feita a partir de uma voadeira de alumínio durante uma das maiores cheias já registradas no Pantanal, em 2011”. Pantanal da Nhecolândia, Mato Grosso do Sul

E como é, pra você, apresentar essas belezas do Pantanal num momento tão devastador para o bioma? 

É uma tristeza tudo o que está acontecendo, não só pelas imagens chocantes dos animais queimados ou sofrendo com a falta de água. Isso é terrível, mas, acima disso, vejo um cenário amplo, que é muito assustador porque as queimadas são uma consequência desse cenário amplo de mudanças no ambiente.

E volto à questão das nascentes. Tem menos chuva, e é fácil de entender o motivo: você tem uma grande planície que depende de ciclos de inundação; tem cada vez menos água chegando, porque as nascentes provêm menos água, os rios chegam com menos água, e ela enche menos. Por consequência, não tem mais aquela área toda, alagável, umedecida, digamos assim, durante o período de cheia. Ela está seca, não fica mais debaixo d’água como antes, na seca ela seca mais, e aí o cenário é um combustível perfeito para os incêndios

E, pra completar esse cenário, você tem um ambiente político que favorece o uso indiscriminado do fogo, a flexibilização da fiscalização e tudo que a gente sabe que este governo tem feito. Então, essa combinação de fatores acaba com qualquer esperança. Circular, hoje, pelo Pantanal é encontrar as imagens da seca e do fogo e, dentro desse cenário, o prognóstico não é muito bom. 

Você fez o livro também para inspirar as pessoas a proteger o meio ambiente, para que elas se emocionem e reflitam...

Eu poderia dizer que fiz essas imagens para mover as pessoas. Mas eu fiz essas imagens para compartilhar o meu encantamento. Eu sempre optei por esse recorte: usar a fotografia para contar histórias que eu acho extremamente relevantes, pra se entender o funcionamento das coisas e, assim, ajudar na formação de uma identidade visual.

Em termos de conservação, eu acredito que as imagens da destruição comparadas com as imagens desses lugares antes de serem destruídos – que são as que eu faço -, contam toda a história. Mas se as pessoas vão se sensibilizar, eu não sei. Quando vejo essas duas realidades, é muito impactante pra mim.

Mas tem uma coisa que eu sinto, que é uma impressão que eu sempre tive: de que a gente conquista avanços na conservação, procura, com o nosso trabalho, reforçar essa ideia junto ao público e consegue, mas a velocidade da destruição é absurdamente mais rápida que a da conservação. 

Veja… eu fiquei dez anos produzindo um livro sobre esse ambiente subaquático, que é impressionante, e, no momento em que o trabalho se conclui, as águas já perderam 57% do seu poder, da sua abrangência no Pantanal. 

Esse trabalho reforça essa impressão: a velocidade da destruição em relação à velocidade da conservação. São muito diferentes. A conservação vai de veleiro e a destruição vai numa lancha de dois motores. 

Tudo isso é muito revoltante, mas confio que trabalhos como o seu podem trazer consciência. Agora, conte como o livro está organizado. Você disse que as nascentes ocupam a primeira parte… 

O livro está dividido em capítulos baseados nas fisionomias criadas pela água. Começa com a água de nascente, dando sequência à capa. Depois vem a água de rio e de corixo, a água de baía (de salina), a água de vazante e, por fim, a água ameaçada

Neste capítulo, estão as imagens da destruição da água ou próximo dela, incluindo as queimadas. O fogo veio com tudo e só parou na água. Incluí imagens da água ao lado das cinzas. Esta última viagem, no ano passado, foi muito difícil. 

“O rio Touro Morto, afluente do Rio Miranda, normalmente tem águas claras e abundância de peixes durante o outono. Eu estava lá em busca dessa boa condição para imagens subaquáticas quando essa nuvem espetacular cresceu sobre o barco e logo desapareceu”.
Pantanal do Miranda, Mato Grosso do Sul

E qual a sua expectativa com o livro?

A expectativa é sempre que a mensagem chegue ao maior número de pessoas. Meu trabalho só se completa nos olhos dos outros. Então, quanto mais pessoas virem meu trabalho e ele for capaz de gerar discussões, criar uma imagem dessas águas do Pantanal, creio que terei sido bem sucedido.

Se, ao ver as imagens apresentadas pelo noticiário ao lado da beleza da água que mostro no livro, a ficha não cair, não sei o que pode fazer isso acontecer. 

Assim como os animais, o homem pantaneiro também tem sua vida controlada pela dinâmica
das águas. Percebi a oportunidade de fazer essa imagem sobre essa ideia ao notar, sem quer,
a silhueta da nossa canoa dentro d’água, enquanto mergulhava em busca de peixes”.
Vazante do Mangabal, Pantanal da Nhecolândia, Mato Grosso do Sul

Exposição, lançamentos e como adquirir o livro

Por enquanto, a exposição Terra d’Água Pantanal acontecerá apenas em São Paulo, no Estúdio 41, na Rua Pedroso Alvarenga, 1254, cj 41, Itaim-Bibi. Vai até 6 de novembro e oferece com um ciclo de conversas, que serão realizadas em 5, 14 e 16 de outubro. Acompanhe pelo Instagram da galeria.

Além do lançamento do livro em São Paulo (no endereço acima, em 28/9, das 15h às 20h), outros dois serão realizados em:
Belo Horizonte, em 1/10, na Livraria da Rua, quando Candisani recebe os fotógrafos Erico Hiller e Cristiano Xavier para um bate-papo; e
Corumbá (MS), em 7/10, no Instituto Homem Pantaneiro.

O novo livro de Candisani custa 160 reais e pode ser adquirido pelo site da Vento Leste (informações também pelo Instagram). E, como se trata de uma publicação que recebeu incentivo, parte de sua tiragem será distribuída para instituições públicas e bibliotecas.

A obra também tem uma Edição de Colecionador, que será doada para o Documenta Pantanal (que apoia a publicação) e toda renda revertida para entidades engajadas no combate aos incêndios na região.

Agora, assista ao belo vídeo – dirigido por Léo Lima – no qual ele conta detalhes de seu fascínio pelo Pantanal, de suas expedições e da última viagem ao bioma, no ano passado, depois dos incêndios. E acompanhe Luciano Candisani no Instagram.

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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