Lontra ‘albina’ é registrada no sul do Pantanal, às margens do rio Aquidauana, e encanta guia e fotógrafo

Lontra 'albina' é registrada no sul do Pantanal, às margens do rio Aquidauana, e encanta guia e fotógrafo

Há cerca de três anos, quando soube da existência de uma lontra de pelagem clara – muito diferente da comum, que é marrom – no rio Aquidauana, o guia de turismo Luiz Fabiano Aragão Vargas não sossegou. Queria muito encontrá-la durante os passeios que guia nesse rio e também propiciar um momento único aos turistas que se hospedam na pousada Aguapé, para a qual trabalha. 

Por vezes, ouvia um ou outro morador da comunidade local comentar sobre o aparecimento do animal. Em 2019, a lontra foi avistada por turistas, mas registrada com dificuldade. 

Em 11 de setembro, Fabiano finalmente realizou seu desejo. “Aqui, nenhum dia é igual ao outro, e a natureza pode surpreender”, disse, muito feliz. “Trabalho há 26 anos aqui e nunca tinha visto um animal tão especial. Um bicho maravilhoso! Foi uma experiência única!”. E não estava sozinho.

“Vê-la e registrá-la foi um grande prêmio!”

Lontra 'albina' é registrada no sul do Pantanal, às margens do rio Aquidauana, e encanta guia e fotógrafo
Foto: Adriano Kirihara

fotógrafo e documentarista Adriano Kirihara (de Presidente Prudente) realizava sua terceira expedição fotográfica na região, desta vez com três alunos, fotógrafos profissionais do oeste paulista: Claudete Longo, Flávia Pelloso e José Roberto Pireni. Fabiano guiava o grupo.

A programação incluía passeios em terra firme para registrar a fauna local, como o pica-pau da testa branca e o tiriba fogo, o biguatingua, o tamanduá-bandeira, o tamanduá-mirim, jacarés, entre outros. E também um passeio de barco, que aconteceu no segundo dia, mesmo com tempo fechado.

Durante o percurso, “que já durava cerca de duas horas”, como parecia que ia chover, Fabiano fez uma proposta que transformaria a experiência de todos e seu dia. E ele já tinha cutucado o grupo, antes de entrarem no barco, ao contar que, na região, havia uma lontra albina.

Na verdade, o certo é dizer que ela é uma lontra leucística“Todo mundo chama de albina, mas ela é leucística. Repare como seus olhos são escuros”, explica o fotógrafo -, mas, apesar de seu albinismo ser parcial, optei por chamá-la de ‘albina’ no título para facilitar a compreensão rápida e aguçar o interesse dos leitores. Explico o fenômeno mais adiante.

“Então, em vez de descer o rio, achei melhor subir porque, se viesse um temporal, seria mais fácil voltar. Além disso, eu sabia que a tal ‘lontra albina’ andava por ali, pensei que a gente podia ter a sorte de encontra-la…”, explicou Fabiano. Terá sido intuição?

O encontro emocionante foi às margens do rio Aquidauana e ganhou registros muito especiais devido à paciência e à persistência do guia, e também ao talento de todos. As fotos que ilustram este post são de Adriano, que, como seus alunos e Fabiano, nunca tinha visto esse animal raro.

Lontra 'albina' é registrada no sul do Pantanal, às margens do rio Aquidauana, e encanta guia e fotógrafo
Foto: Adriano Kirihara

O entusiasmo tomou conta de todos no barco, e o desejo de observar e registrar cada movimento levou-os a permanecer ali por quase duas horas, concentradíssimos, produzindo o menor barulho possível para não assustar o bicho, nem atrapalhar seu “almoço: ele devorava um peixe.

“Passávamos de barco pelo local, bem devagar, e ela apareceu com um peixe na boca. Precisávamos aproveitar aquele momento porque, pra comer ela precisa ficar fora da água. Ela estava muito ativa, por isso foi mais fácil de registrar. E ainda teve um momento em que ela subiu em cima de um tronco e olhou pra nós, mas logo entrou na água novamente. As lontras comuns parecem não se importar com a presença humana, mas ela parecia desconfiada”, conta Adriano.

Por vezes, o som produzido pelas máquinas fotográficas de Adriano e de seus alunos e pelo motor do barco, chamava a atenção da lontra, mas ela logo voltava à refeição. “Respeitamos o tempo dela, sem forçar, procurando fazer o menor barulho possível. Fizemos um percurso de 100 metros, mais ou menos, indo e voltando e parando. É um animal rápido e pequeno, não deve ter mais do que 30 cm”. 

A sessão terminou assim que a lontra terminou de comer o peixe e mergulhou. Um presente! “Foi muito legal! Todo animal silvestre é bacana de ver, é uma emoção. Mas esse animal é raro. A gente vê ima vez na vida. Foi um grande prêmio pra a expedição e para nós, fotógrafos”, salienta Adriano, que acrescenta:

“Eu tõ sempre no meio do mato para fazer algum trabalho. Esta é a terceira vez que venho ao Pantanal para registrar o estado das vazantes – que, em um ano, reduziram drasticamente. E é a primeira vez, desde que a pandemia começou, em que realizo uma expedição. Já tinha ouvido falar muito dessa lontra. A gente até pensava que ela sumiu porque teria sido predada por um jacaré. Agora, poder ver esse animal diferente, assim, solto na natureza, totalmente silvestre, é um prêmio! Ver essa espécie rara no zoológico não é a mesma coisa, com certeza”.

Adriano se refere à lontra macho, albina (não leucistica!), que vive Parque Zoobotânico Arruda Câmara, a Bica, desde 2013. Ela tinha cerca de dois anos de idade quando foi encontrada pelo Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas), do Ibama da Paraíba, que a encaminhou para lá pois seu estado de saúde era bastante delicado.

O animal mais incrível que já vi!”

Lontra 'albina' é registrada no sul do Pantanal, às margens do rio Aquidauana, e encanta guia e fotógrafo
Foto: Adriano Kirihara

Fabiano compartilha o entusiasmo e a felicidade de Adriano. “Pra mim, o animal mais incrível que vi, nestes 26 anos em que trabalho como guia nesta região, foi a lontra albina. E olha que já vi de tudo! Ela se tornou muito especial, muito marcante. Quando olhei aquele bicho branco comendo, nossa, foi especial demais! Pra mim, que vivo e trabalho na natureza, foi uma cena única. Sem palavras para um animal desse”.

Emocionado, o guia lembra de uma turista que lhe disse, um dia, que ele trabalhava realizando o sonho das pessoas. “Me sinto assim. Abençoado por fazer o que gosto e proporcionar esses momentos pra quem vem aqui conhecer a natureza. Agora, então, mais abençoado ainda por avistar a lontra albina”.

“Com a pandemia, ficamos quatro meses isolados. Aos poucos, foram reaparecendo os turistas, mas muitos brasileiros. Foi ruim, mas também, bom. O brasileiro está descobrindo o país por causa da pandemia. Em breve, os estrangeiros devem voltar. E eu convido: quem tiver oportunidade, venha pra cá ver este bicho especial! Só vendo o bichinho ao vivo para perceber a grandeza dele!”, finaliza.

Consanguinidade ou alterações ambientais

Foto: Adriano Kirihara

Segundo a pesquisadora Caroline Leutchemberger, do Projeto Ariranhas, “apesar de raros, casos de leucismo já foram reportados em várias outras espécies, desde peixes até aves e mamíferos. Em lontras, no entanto, há poucos registros documentados desse tipo de mutação na América Latina. Existe um indivíduo albino na Paraíba e três com leucismo no México”.

Isso, até agora. com o surgimento e registro desta lontra leucística, na região do rio Aquidauana, no Mato Grosso do Sul. “O caso registrado em Aquidauana é de leucismo, pois, como é possível observar pelas fotos, a deficiência não parece afetar a pigmentação dos olhos”.

A especialista explica que a lontra neotropical ou Lontra longicaudis é uma espécie da subfamília Lutrinae (das lontras), que ocorre desde o Uruguai até o México, com ampla distribuição no Brasil. “A espécie é solitária, podendo ser observada em pares durante o período reprodutivo, ou, então, mães e filhotes durante o período de cuidado parental”.

Semi-aquáticas, utilizam o rio para se alimentar e as margens para se reufugiar e marcar território. “Sua dieta, apesar de preferencialmente piscívora, pode incluir uma variedade de presas como crustáceos e outros vertebrados (aves, répteis, anfíbios e mamíferos)”. E, em geral, lontras têm pelagem densa, de cor marrom, mas o pescoço costuma ser um pouco mais claro que o dorso.

E como ocorre o leucismo? “É um padrão de coloração atípico que ocorre devido a uma mutação genética que afeta a produção de melanina. Diferente do albinismo, que é causado pela deficiência completa de melanina, que acaba afetando a pigmentação da pele, olhos, pelo, etc, o leucismo é caracterizado pela deficiência parcial de melanina“.

O causa provável do leucismo pode estar relacionada à consanguinidade ou a alterações ambientais, como, por exemplo, a contaminação dos rios ou à perturbação humana.

A pesquisadora destacou também que não há registros científicos de que o leucismo e o albinismo provoquem alterações comportamentais nos animais. “No entanto, podem ser mais sucetíveis aos predadores” – talvez por isso tanto Adriano como Fabiano identificaram um comportamento atípico na lontra -, “ou ainda terem oportunidade reprodutivas reduzidas”.

Vazantes, jacarés amontoados e linha no bico

Vazante, em Aquidauana, em abril de 2021 / Foto: Adriano Kirihara

Adriano Kirihara fotografa natureza e comunidades para livros didáticos. Viaja para várias partes do Brasil – esta semana, estava no sertão, mais precisamente em Petrolina, Canudos, para registrar a paisagem, mas também as pessoas e seu modo de vida. E ia ao Pantanal com muita frequência, antes da pandemia. 

Este ano, começou a voltar à região sul do bioma – “fácil de ir porque é muito próxima de casa” – para iniciar o acompanhamento das vazantes, desta vez para seu arquivo pessoal.

O primeiro registro foi feito em abril – “não tinha ninguém na pousada em que geralmente fico” -, o segundo em agosto e, o terceiro, em setembro, quando avistou a lontra leucística durante expedição fotográfica que organizara. “Agora, o movimento está começando a voltar ao normal, com a presença de muitos brasileiros”.

A imagem acima e a sequência abaixo revelam a tragédia da seca na região de Aquidauana, a mesma que tem tornado o Pantanal Sul mais uma vez vulnerável ao fogo. Uma tristeza de ver. 

Vazante, em Aquidauana, acima, em agosto, e abaixo, em setembro de 2021 / Foto: Adriano Kirihara

“Não estava tão cheia quando fotografei a primeira vez, mas agora, em setembro, havia um fiozinho de água em alguns trechos, secou tudo!!! Também vi mini poças de água”. 

“E, numa represa, muitos jacarés se amontoavam. Antes, eles tinham um espaço muito maior, amplo, para ficar, mas, agora, se concentram onde tem água”.

Foto: Adriano Kirihara

Como contei neste texto, Adriano e seus alunos fotografaram algumas espécies de aves como o pica-pau de testa branca e o tiriba fogo, muito aguardadas por turistas, principalmente os apaixonados por observação.

Pica pau da testa branca / Foto: Adriano Kirihara
Tiriba fogo / Foto: Adriano Kirihara

Pelo caminho, encontraram uma linda biguatinga, “com uma linhada no bico. Infelizmente, como não pode comer assim, então, está condenada”, lamentou Adriano. E é uma ave tão majestosa…

Biguatinga com linha de pesca no bico / Foto: Adriano Kirihara

Quem trabalha com natureza – como Fabiano, guiando turistas, ou como Adriano, fotografando e organizando workshops -, encontra, cada vez com maior frequência, esses disparates ambientais. Paisagens onde a conservação é realidade, mas também – e principalmente – cenários de destruição, impactantes como os das vazantes ou sutis como o da biguatinga.

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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