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Lobos de Chernobyl, na Ucrânia, desenvolvem resistência ao câncer e são esperança para a cura da doença em humanos

Lobos de Chernobyl, na Ucrânia, desenvolvem resistência ao câncer e são esperança para a cura da doença em humanos

Desde que o acidente catastrófico de 1986 aconteceu na Usina Nuclear de Chernobyl, próximo da cidade de Pripiat, no norte da Ucrânia soviética, os animais que vagueiam pelas ruas desertas são expostos diariamente à radiação, que é cancerígena. Os lobos são alguns deles, mas pesquisadores descobriram, recentemente, que eles não apresentam sinais da doença. 

É como se os lobos dessa região – chamados pelos cientistas de mutantes -, tivessem desenvolvido resistência ao cancro, juntamente devido à radiação, o que pode nos levar a ter esperança de que seja possível encontrar a cura do câncer em seres humanos.

Pra quem não lembra da tragédia de Chernobyl, vou recordar aqui rapidamente: há quase 38 anos, reator nuclear explodiu na usina, liberando radiação cancerígena e detritos irradiados no meio ambiente, resultando no pior acidente nuclear do mundo, que obrigou à evacuação de mais de 200 mil pessoas da região. 

Na época foi criada a Zona de Exclusão de Chernobyl (CEZ) – também chamada de Zona de Alienação da Central Nuclear de Chernobyl, que é um pequeno trecho das mil milhas quadradas de área afetada – para impedir que pessoas circulem numa extensão de 1.600 Km2 onde a radiação ainda representa risco. 

Mas foi impossível evitar que animais selvagens avançassem e vivessem pelos terrenos baldios da cidade “fantasma”. Florestas e fungos recolonizaram-se. 

Essas zonas de exclusão, na verdade, se transformaram em santuários de vida selvagem e têm de tudo: anfíbios, insetos, pássaros e megafauna como bisões euroasiáticos, javalis, cavalos de Przewalski e predadores de ponta como os lobos cinzentos.

Combinando a paixão pela conservação com soluções baseadas na natureza, desde 2014 a Dra. Cara Love, bióloga evolucionista, ecotoxicóloga e pós-doutoranda no Departamento de Ecologia e Biologia Evolutiva da Universidade de Princeton, nos EUA, e uma equipe de pesquisadores estudam como os lobos de Chernobyl sobrevivem e prosperam apesar de gerações de exposição e do acúmulo de partículas radioativas em seus corpos.

Em artigo publicado no site News Wise, Love conta que o cão doméstico (Canis lupus familiaris) adoece e reage ao câncer de forma mais semelhante aos humanos do que o rato de laboratório. E que isso torna o estudo com seu ‘primo selvagem’ – o lobo cinzento (Canislupus), que vive em Chernobyl – “uma excelente escolha para compreender como, um dia, poderemos vencer o câncer”.

Lobo cinzento / Foto: Guillaume Archambault/Unsplash

Shane Campbell-Staton, biólogo evolucionista de Princeton, que também integra a equipe de Love, acrescenta: “Os lobos cinzentos oferecem uma oportunidade realmente interessante para compreender os impactos da exposição crônica de baixas doses e multigeracional à radiação ionizante devido ao papel que desempenham nos seus ecossistemas”. 

E Love complementa: “A população de lobos nas zonas de exclusão é especialmente interessante, porque é sete vezes mais densa do que as populações de lobos noutras reservas de vida selvagem próximas”. O motivo, segundo ela, pode estar relacionado com a seleção natural de genes resistentes ou resilientes ao cancro nesses animais e com a falta de humanos na área abandonada.

Mutações protetoras

Assim, a investigação na CEZ, na Ucrânia, e na Reserva Radioecológica Estatal de Polesie, na Bielorrússia, está ajudando os biólogos a compreenderem como a natureza se adapta à exposição crônica à radiação.

Para avançar nas pesquisas, em 2014 Love e sua equipe colocaram coleiras de rádio nos lobos para monitorá-los e identificar “medidas em tempo real de onde eles estão e a quanta radiação estão expostos”. E, sempre que voltaram à região, coletam amostras de sangue dos animais para acompanhar respostas à radiação.

Nos primeiros resultados, descobriram que os lobos são expostos a mais de 11,28 milirrem de radiação todos os dias durante sua vida, ou seja: mais de 6 vezes o limite de segurança legal para um ser humano (milirrem é uma quantidade de radiação ionizante emitida por uma fonte específica).

Ao contrário dos lobos que vivem fora da CEZ, Love descobriu que os de Chernobyl têm sistemas imunitários alterados, semelhantes aos pacientes com câncer submetidos a tratamento de radiação. Identificou mais: regiões específicas do genoma do lobo parecem resilientes ao aumento do risco de cancro.

A maioria das pesquisas em humanos descobriu que mutações aumentam o risco de câncer (como o BRCA faz com o câncer de mama), mas o que Love espera identificar com seu estudo são mutações protetoras que aumentem as chances de sobreviver ao câncer

Pesquisa interrompida

Infelizmente, os pesquisadores não puderam mais regressar à CEZ devido a dois acontecimentos: a pandemia de covid-19 e a guerra na Ucrânia. Com um detalhe: desde que russos invadiram a Ucrânia, a radiação pode ter se intensificado e se tornado ainda mais perigosa, visto que foram colocadas minas terrestres nestes campos já irradiados. 

Quem quiser aprofundar os conhecimentos sobre esta pesquisa, recomendo a entrevista com Cara Love e Shane Campbell-Staton para a Nature News Wire. E vale navegar pelo site do projeto de Staton: Taking Back Chernobyl.

A seguir, dois vídeos que resumem a pesquisa:

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Foto (destaque): divulgação

Fontes: News Wire, Sky News

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