Livro revela histórias dos povos da floresta conduzidas pelas águas do Rio Negro

Qual é a primeira imagem que lhe vem à mente quando você ouve a palavra Amazônia? A da floresta, certamente, devido às suas lendárias e gigantes árvores que dominam grande parte do território brasileiro. Mas somente quem já visitou a região, conheceu seus povos, se embrenhou pelas matas e navegou por seus rios vê mais água do que plantas e sabe que a Amazônia é água!

São suas águas – claras, transparentes, barrentas ou negras – que governam a vida por lá. Histórias, lembranças, culturas e tradições dos povos da floresta estão ligadas à sua fluidez, ditada pelos rios. Em especial o Rio Negro, com “seu “caldo quente, denso, único, que intriga quem ocupa a floresta há milhares de anos”, como conta a jornalista Laís Duarte.

Laís e o fotógrafo e documentarista Adriano Gambarini – parceiro de anos! – fizeram uma longa viagem para a região, em 2019, que pode ser traduzida como uma expedição biológica e antropologia. E, agora, apresentam uma seleção muito especial do que colheram – em imagens poéticas e relatos cheios de emoção – no livro Histórias das Águas – Rio Negro, editado e comercializado pela Gamba Books.

“Fomos a convite do IPÊ – Instituto de Pesquisas Tecnológicas, que desenvolve um trabalho muito lindo para geração de renda das comunidades ribeirinhas, que envolve a capacitação para melhoria dos sistemas agroflorestais, como também a produção de doces e geleias e o turismo base comunitária“, diz Gambarini, que acrescenta:

“Já tínhamos viajado para a Amazônia em projetos independentes, e lançado livros sobre outros temas, juntos. Então, esta foi uma grande oportunidade de desenvolvermos um trabalho especial nessa floresta e lançarmos mais um projeto”.

Ao redor do rio, civilizações nasceram

E, assim, Gambarini e Laís navegaram pelo baixo Rio Negro em busca de narrativas e memórias, de identidade e de tradição. Visitaram comunidades ribeirinhasEsperança, São Sebastião e a Reserva de Desenvolvimento Sustentável Puranga Conquistae indígenas, da etnia Baré, escondidas na floresta.

Aprenderam que é a água que define tudo nos meandros da Amazônia: que “traz e leva histórias, que passam de geração em geração, misturando culturas e lendas típicas do universo amazônico. Une e separa matas e cidades, gente e animais, sendo os rios – aqui, o Negro – seus condutores”.

As águas quentes e escuras do Negro “não se misturam com as águas barrentas do rio Solimões, no encontro das águas famoso no mundo todo. Correm paralelamente, dançam lado a lado, como que para manter sua raridade. Ao redor do rio, civilizações nasceram”, relata Laís.

Os dois autores destacam que somente quem testemunha as histórias dessa gente, quem as encontra e as ouve, vê nelas a transformação pelas quais passam os povos, que aprendem e compartilham lições e ensinamentos que sobrevivem na mata e são transmitidos em função das águas. “São tradições seculares e locais, as melhores formas de preservar a cultura e o meio ambiente, que ali andam de mãos dadas”.

Sei bem do que falam. Fiz uma viagem de barco pelo rio Negro, de Manaus a São Gabriel da Cachoeira, durante 21 dias, em 2018. E, até hoje, as narrativas compartilhadas, a hospitalidade dos povos e as águas caudalosas do Negro estão em mim.

Fotos inesquecíveis e palavras inspiradoras

O sétimo livro de Gambarini e Laís revela narrativas guardadas por milênios no coração da Amazônia e é uma homenagem aos ribeirinhos e aos povos indígenas que desenharam sua história, suas línguas e lendas ao mesmo tempo em que preservavam a floresta, porque sabiamente se entendem parte dela.

Mas é também um “pedido de proteção ao rio que mata a sede da floresta, que dá origem ao Amazonas, que alimenta o corpo e a alma do povo das águas”.

Em fotos inesquecíveis (veja mais no final deste post) e palavras inspiradoras – além de um projeto impecável – são apresentados ao leitor o “trançar do artesanato à beira da água, a vida das mulheres, guardiãs das tradições. Das menores flores à enormes castanheiras e samaúmas, planta, bicho e gente”.

São mais de 100 fotos e dezenas de entrevistas que eternizam a cultura da etnia Baré, as lições dos ribeirinhos, as técnicas para pescar e plantar respeitando a floresta, as lendas repetidas de geração em geração, o correr do rio e o trabalho de pesquisadores do IPÊ, que dedicam a vida a proteger a maior biodiversidade do planeta.

Laís pinçou do livro duas lindas frases de autoria de um pescador e de um líder do povo Baré que entrevistou, com as quais escolhi terminar este post. A sabedoria popular nunca falha e traz alento.

“Água é para todos. Se não for a água ninguém vive.
A coisa mais importante do mundo é a agua do rio.
Se falta água, todo mundo reclama. Se estou na beira do rio,
eu posso não ter o que comer, mas estou vivo” 
Praxedes Palheta dos Santos, pescador

“Imagine uma árvore sem raiz.
Um povo sem cultura é um povo sem raiz”
Joarlison Garrido, liderança Baré

Agora, mergulhe nas águas quentes e escuras do Rio Negro com mais estas onze imagens selecionadas por Gambarini:

Fotos: Adriano Gambarini

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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