Lindo filme de animação produzido por líderes Suruí alerta sobre os perigos da Covid-19 e homenageia as vítimas

Rondônia é um estado muito castigado pelo desmatamento, pelas invasões de garimpeiros e madeireiros e pelas queimadas, registrando alguns dos maiores índices de devastação do país. E, este ano, a situação da população se agravou com o avanço da pandemia do novo coronavírus.

Com a doença se espalhando e o aumento da presença de invasores, os indígenas do estado também estão se organizando para enfrentar o problema. Também por meio da cultura.

Assim, ontem, 3/9, a Associação Metareilá do Povo Indígena Suruí e a Kanindé – Associação de Defesa Etnoambiental lançaram o curta de animação Pela Vida Inteira, para alertar para os perigos da doença e homenagear as vítimas indígenas da Covid-19.

Produzido de forma colaborativa, o filme é narrado pelo escritor e professor Daniel Munduruku e oferece uma mensagem de força, alerta e prevenção para as aldeias.

Na história, um pai indígena narra para sua filha, em um futuro próximo, como a pandemia da Covid-19 devastou os povos originários e como eles lutaram para combatê-la, resistir e sobreviver, num momento em que ainda era imprescindível lutar contra o governo e o desenvolvimento econômico, que destruíam a floresta.

Assista ao curta Pela Vida Inteira, que tem menos de 5 minutos, no final deste post.

Faltam testes, profissionais de saúde e equipamentos

Até o início de setembro, segundo a Kanindé, apenas uma das 26 Terras Indígenas do estado de Rondônia – Uru-Eu-Wau-Wau – não registrava casos de coronavírus. Nas demais, de acordo com dados do Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) de Porto Velho, já eram mais de 600 contaminados.

O Comitê de Memória e Vida Indígena divulgou ontem, 3/9, que já morreram 27 indígenas, sendo 11 somente no território dos Cinta Larga. Entre os Karitiana, foram duas mortes; os povos Mura, Oro e Puruburá também registraram falecimentos por Covid.

A situação é bastante crítica também entre os Paiter Suruí, da Terra Indígena Sete de Setembro, onde três mortes ocorreram, além de um grande número de indígenas contaminados, que enfrentam sintomas graves da Covid-19, de acordo com o ISA – Instituto Socioambiental.

“Metade das aldeias está contaminada. Está todo mundo assustado. Ninguém sabe o que fazer, como agir. Nosso medo é que contamine as demais, além da piora das pessoas que estão internadas”, conta Txai Suruí, liderança da juventude dos Suruí.

Segundo ele, a TI registra 172 casos, um aumento de 240% nos últimos 15 dias. Os enterros seguem recomendações sanitárias e acontecem sem rituais tradicionais. “Além de tudo, a gente não consegue enterrar nossos mortos na tradição”, diz a jovem liderança.

O ISA conta que “na Terra Indígena Uru-Eu-Wau-Wau, a única que ainda não tem casos de Covid-19, a situação tampouco é alentadora. As invasões explodiram com a redução de fiscalização que ocorreu na pandemia. E incêndios criminosos foram registrados no interior da terra indígena nas últimas semanas”.

Não há testes para Covid-19, profissionais de saúde, nem equipamentos denuncia Ivaneide Bandeira, coordenadora da Associação Kanindé, como principais falhas do governo para enfrentar esta crise de saúde na região:

“Rondônia precisa imediatamente que todas as terras tenham os testes, que os indígenas sejam testados, que tenham profissionais de saúde e equipamentos dentro das aldeias. O território Uru-Eu-Wau-Wau precisa imediatamente que os invasores sejam retirados. Estamos muito desesperados com a situação aqui no estado”.

Segundo o ISA, não se sabe a origem deste dado, mas mais de 5,8 mil casos da doença foram contabilizados nos municípios do entorno da TI Uru-Eu-Wau-Wau, e os alertas do sistema de monitoramento Sirad, do ISA, registram 186 hectares de desmatamento dentro dessa terra – que também abriga grupos isolados -, só este ano.

O povo Paiter Suruí também lançou campanha de financiamento coletivo para tentar viabilizar a compra de alimentos e materiais de higiene para suas aldeias. Quem quiser contribuir de outras formas pode entrar em contato com os organizadores pelos números (69) 99264-0738, (69) 99935-1002 e (69) 99342-0757.

Agora, pra desanuviar, assista à linda animação Pela Vida Inteira. Assista e compartilhe!

Com informações do Instituto Socioambiental

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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