Lilian Prado: microcrédito para empoderar e tirar jovens e mulheres da pobreza no agreste pernambucano

Muito jovem, a pernambucana Lilian Prado ajudou a criar e está à frente até hoje da organização Acreditarbanco nos moldes do Grameen Bank idealizado pelo bengalês Muhammad Yunus – para impulsionar pequenos negócios por meio do microcrédito e tirar pessoas da pobreza. Criada em uma família de agricultores do agreste, Lilian viu sua realidade mudar quando conseguiu entrar em um programa de educação complementar de uma ONG local, no qual descobriu o empreendedorismo e sua capacidade de ajudar a mudar a realidade.

Junto com alguns amigos, começou a financiar pequenos projetos de jovens locais, conseguiu bolsa para a faculdade e estruturou a Acreditar. Nesta entrevista ao Mulheres Ativistas, do Conexão Planeta, conta como, ao abrirem o microcrédito também para o restante da comunidade, perceberam a predominância feminina nos projetos e criaram o programa As Marias, voltado a atender as necessidades especiais desse grupo, a partir da vulnerabilidade de gênero.

Por que criar um programa de microcrédito voltado especialmente para mulheres?

No início da Acreditar, nosso público era formado por jovens de 18 a 29 anos, só depois abrimos para outras pessoas da comunidade que trabalhassem na informalidade. Quando fizemos isso, a maior parte que entrou era mulher, o que percebemos aos poucos.

Quando as mulheres passaram a ser mais de 70% dos clientes, não pudemos mais aplicar a metodologia habitual, por conta das dificuldades que elas enfrentavam. Vimos que a questão de gênero era importante e resolvemos escutá-las. Fizemos, em 2015, uma pesquisa com 205 mulheres que atendíamos.

Que tipo de dificuldades vocês descobriram?

O maior obstáculo de gênero eram os maridos, que não apoiavam ou não deixavam que elas empreendessem. Como são eles que decidem tudo, não queriam que elas pegassem dinheiro emprestado. Diziam que não iriam entender e não dariam conta. ‘Botavam’ elas pra baixo e elas perdiam a confiança. No mínimo, limitavam o tamanho do empreendimento. Mas, se o negócio se estruturasse e desse certo, eles queriam tomar conta do dinheiro. Às vezes, tinham que esconder o dinheiro para os maridos não pegarem. Em alguns casos, precisávamos encontrar com elas às escondidas ou elas vinham até aqui, também sem ninguém saber.

Descobrimos que a maior parte tinha Maria no nome, por isso criamos o programa As Marias para trabalhar com negócio e empoderamento das mulheres e a igualdade de gênero.

O que o programa ‘As Marias’ tem de diferente?

Adotamos uma metodologia com abordagem de gênero, mantendo nosso objetivo de sermos corresponsáveis pelo legado ao território, que é gerar benefícios para a população não incluída. O primeiro resultado da pesquisa foi a elaboração de um guia, que funciona como uma ferramenta de gestão para mulheres, no qual explicamos a Lei Maria da Penha e listamos uma série de órgãos aos quais elas podem ligar e recorrer em caso de necessidade.

Nas reuniões, costumamos mostrar a elas duas fotos, uma mulher fazendo tudo sozinha dentro de casa, com o marido só olhando, e outra empreendendo, dividindo as tarefas domésticas, e perguntamos o quanto cada imagem reflete a realidade dela.

Além do guia, apresentamos um vídeo e damos orientação sobre as questões de gênero, educação financeira e autoestima, que é muito baixa nessas mulheres. Começamos também a promover um café da manhã para que elas se encontrem e troquem experiências. Tudo muito rápido, porque elas não têm tempo para nada demorado. Precisam cuidar da casa, dos filhos etc. Mesmo assim, não conseguimos atingir todas nos cursos e nas trocas de experiência, mas aplicamos a metodologia direta do programa de microcrédito para todas.

Você acredita que é possível mudar essa realidade?

Eu mesma não pensava em me casar. Não queria ter dono. Mas me casei e meu marido nunca foi impedimento pra nada, porque eu já tinha me empoderado. A violência contra a mulher existe porque a sociedade se cala, se omite. Tenho 36 anos e sou de Glória de Goitá, no agreste de Pernambuco, a 75 km de Recife.

Aqui, os amigos ainda falam que tenho sorte porque meu marido me deixa trabalhar, viajar. Digo que ele não deixa nada, porque nunca precisei de sua permissão. Tenho uma filha de cinco anos e ensino a ela, desde cedo, que não precisará enfrentar tudo o que eu passei, mas o mundo ainda é desafiador. As mulheres são as formiguinhas da sociedade.

Como chegou até aqui?

Tive uma infância difícil, como a maior parte dos brasileiros, sem oportunidades, sem perspectiva de futuro. Meu avô expulsou minha mãe de casa quando ela engravidou muito nova e meu pai a abandonou e nunca nos ajudou. Morava com minha mãe e duas irmãs e trabalhávamos na enxada para poder comer.

Cresci em um ambiente de muitas mulheres que sofreram violência, casaram cedo, e não queria isso para mim. Sempre pensei que precisava estudar para sair daquela situação, mas era uma realidade muito distante de pessoas como eu. Mas me apegava a isso e sonhava que a escola iria me salvar. Por isso, andava quilômetros todos os dias para ir até a escola rural. Queria tentar algo diferente.

Como várias crianças da área rural, eu quase não falava, era esperta, mas tímida. A professora chegou a perguntar para minha mãe se eu tinha algum problema. Por volta do ano 2000, uma ONG local chamada Serviço de Tecnologia Alternativa (Serta), ofereceu cursos de complementação escolar na minha cidade. Aqui não tinha nada, vi que era minha chance, já que considerava a faculdade impossível.

Foi difícil concorrer a uma vaga, porque ainda não “falava”. Cerca de 300 jovens se inscreveram e só havia 30 vagas. Então pensei que, se não falasse, não conseguiria me fazer existir e não teria outra chance. Fui aprovada e isso foi um divisor de águas na minha vida.

O que mudou com seu ingresso no Serta?

Aprendi a valorizar minha cultura, o lugar em que vivo, enquanto a tendência, aqui, era os jovens detestarem o lugar onde nasceram. Tinha 16 anos e aprendi que temos que fazer o lugar onde estamos ser bom. Lá, éramos incentivados a falar, queriam ouvir nossa opinião. Também descobri o que é informática, o que é empreendedorismo. Até então, como a maior parte dos jovens da cidade, pensava em ir embora para São Paulo aos 18 anos, pois aqui não havia trabalho. Comecei a pensar que empreendedorismo poderia ser uma solução, que poderia usá-lo para melhorar o ambiente do lugar.

Na época, não tinha dinheiro para nada, tudo era a pé, o Serta fica a uns cinco quilômetros da cidade. Passava as manhãs lá e as tardes na escola. Foi no Serta que aprendi a falar, inclusive no microfone, o que era muito difícil, além de dar opinião, ser uma pessoa crítica.

Era mais difícil para as meninas, pois a tendência é homens assumirem a liderança. Na formação do Serta, porém, não faziam diferença entre meninas e meninos. Parei de ceder a vez, decidi que não iria mais abrir mão de nada por ser mulher. Desde então, passei sempre a lutar pela liderança. Com isso, conquistei muitas coisas. A faculdade passou a ser alguma coisa possível, consegui uma bolsa e cursei administração de empresas em Vitória de Santo Antão, uma das maiores cidades da região.

Como o microcrédito entrou na sua vida?

Percebi, a partir do que aprendi no Serta, que queria ficar na minha cidade. Mas como? Precisava de trabalho. Um dos professores do Serta, o senhor Moura, que é filósofo, nos contou sobre um banco que emprestava dinheiro para pequenos projetos e que as pessoas devolviam para que eles pudessem emprestar para outros. Eu e meus colegas começamos a achar que aquilo poderia ser uma solução.

Em meados de 2001, eu e alguns amigos descobrimos que sabíamos fazer muitas coisas, um menino fez uma horta, uma menina passou a fazer artesanato, e começaram a vender. Mas vimos que precisávamos de recursos. Resolvemos ir ao banco, mas foi frustrante. Disseram que não tínhamos experiência nem garantias, que vínhamos de famílias pobres e não conhecíamos nada.

Retornamos ao Serta e decidimos que, já que não havia um banco que nos cabia, iríamos fazer o nosso. Nosso banco ideal deveria priorizar a agricultura orgânica, ensinar educação financeira, entre outros princípios. Começamos o Fundo Rotativo com R$ 10 mil doados por um financiador do Serta, que não queria que devolvêssemos o dinheiro. Além disso, resolvemos pegar R$ 5 por mês, da bolsa de R$ 70 que tínhamos na instituição – com a qual ajudávamos nossas famílias – para fomentar mais negócios. Fizemos também rifas e camisetas para vender. Essas ações resultaram em mais R$ 8 mil. Com esses recursos, investíamos em jovens empreendedores.

Em 2003, o Serta ganhou o Prêmio Itaú Unicef pela formação complementar à escola. A Fundação Itaú conheceu, então, nosso Fundo Rotativo e decidiu apoiar a formalização da iniciativa. Em 2005, começamos a estudar para decidir qual modelo jurídico teríamos e, em 2006, fizemos a assembleia de fundação.

Com a chegada de um novo professor ao Serta, em 2005, conhecemos a experiência do Grameen Bank e ganhamos o livro O Banqueiro dos Pobres. Descobrimos que o que fazíamos era microcrédito. Passamos a ter um referencial para explicar isso para as pessoas. Até então, achavam que era um absurdo emprestar para jovens pobres. Foi assim que nasceu oficialmente a Acreditar.

Como a organização foi estruturada?

No início, éramos cerca de 15 jovens, com núcleos de gestão e captação de recursos. Mas a maioria abandonou o projeto com o tempo e, hoje, sou a mais antiga do grupo. Somos cinco mulheres. A bolsa que consegui na faculdade já foi por conta desse projeto. Queria aprender a lógica de gerar emprego e renda aqui. Os professores me ajudaram muito a tornar o que aprendi em alguma coisa prática, a criar formulários, administrar.

No começo era um trabalho voluntário, não havia recursos, a família cobrava. Até que, em 2009, concorri ao Prêmio Claudia e participei do programa Brasileiros, da TV Globo. O povo daqui assistiu, ficou orgulhoso e começou a dar força. Conseguimos mais de dez prêmios locais e nacionais ao longo do tempo.

Quais resultados a Acreditar conseguiu até agora?

Nosso último relatório mostra que financiamos mais de 12 mil negócios, dos quais 74% são de mulheres. Jovens entre 18 e 32 anos são 32% (nesse caso, eles podem chegar apenas com um sonho e nós ajudamos a concretizar). Foram mais de R$ 12 milhões em financiamentos. Indiretamente, atingimos cerca de 36 mil pessoas.

As atividades principais são comércio (mais de 60% no último ano), no qual vendem de tudo, principalmente roupas – as mulheres vão a Caruaru comprar e vendem aqui -, mas também cosméticos, entre outros. Também há negócios voltados a agropecuária, em geral agricultura agroecológica, com hortas e galinhas; serviço (salão de beleza, depilação); e indústria, que é bem artesanal, como bolo, pirulito, coisas para festas.

A pandemia afetou os projetos?

Nosso público é vulnerável, e muitos negócios estão fechados. Por meio do As Marias, estamos apoiando as mulheres com cestas básicas desde março, com alimentação e produtos de higiene, em cinco cidades. Hoje, temos aproximadamente 300 negócios ativos. Todos foram muito impactados pela Covid-19, mas 100 estão totalmente paralisados e terão que recomeçar do zero. Temos feito atendimentos por telefone, tentado ajudar com a sobrevivência dos negócios, com a venda à distância. Mas eles não têm como devolver os empréstimos por enquanto.

Como vê o futuro pós-pandemia?

Precisamos fomentar a economia mais inclusiva, com modelo econômico local, que gere trabalho e riqueza localmente para as pessoas viverem com dignidade. Fazemos microcrédito com esse olhar. Ao mesmo tempo, é um trabalho que precisa de muita ajuda, agora mais do que nunca. Precisamos de um mundo mais equânime.

Maura Campanili

Jornalista e geógrafa, foi repórter e editora de cidades e meio ambiente na Agência Estado e na revista Terra da Gente. Trabalhou em ONGs como a SOS Mata Atlântica, Instituto Socioambiental e Rede de ONGs da Mata Atlântica. É autora e editora de livros e publicações socioambientais e autora do blog ‘Paulistanasp’ no qual fala de temas que lhe são caros: meio ambiente, a metrópole paulistana, literatura e feminismo.

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