Lhama belga tem anticorpos no sangue que podem ajudar na cura da Covid-19, causada pelo novo coronavírus

Winter é o nome da lhama cor de chocolate, que vive em uma fazenda administrada pela Universidade de Ghent, na Bélgica. Ela tem quatro anos e, ainda com poucos meses, foi escolhida pelos pesquisadores para participar de uma série de estudos sobre os vírus SARS e MERS. Seus anticorpos se mostraram capazes de combater tais infecções.

Os pesquisadores estavam escrevendo sobre suas descobertas quando o novo coronavírus virou notícia em janeiro. Imediatamente especularam que os anticorpos da lhama poderiam neutralizar o Sars-Cov-2, nome oficial vírus que causa a Covid-19, e levar à cura da doença. Envolveram Winter nas novas pesquisas, confirmaram suas suspeitas – pelo menos nas culturas celulares, os anticorpos no sangue da lhama foram eficazes contra o novo vírus – e publicaram os resultados, no final de abril, na revista científica Cell. .

O estudo revelou que, além de ter anticorpos maiores como os nossos, as lhamas têm outros, pequenos, que podem infiltrar-se nos espaços das proteínas virais que são minúsculas demais para os anticorpos humanos, e isso ajuda a evitar a ameaça.

A esperança é que os anticorpos das lhamas ajudem a proteger os seres humanos que não foram infectados. Ou seja, poderá ser injetado em alguém que ainda não teve a doença e protegê-lo do vírus, como um profissional de saúde, por exemplo.

A pesquisa ainda está em fase inicial e pode demorar para ser concluída. Agora, os pesquisadores estão trabalhando para realizar ensaios clínicos, e, para que um remédio se torne realidade, o anticorpo precisa ser testado em humanos, o que não deve acontecer tão cedo.

Pequeno anticorpo é a chave para neutralizar o coronavírus

Os anticorpos de lhama são um elemento importante na luta contra doenças. Há, pelo menos, dez anos, os cientistas estudam lhamas em pesquisas de anticorpos, como aconteceu no caso do HIV e também do influenza, o que os levou a descobrir terapias promissoras para combater os dois vírus. Veja porquê.

Os seres humanos produzem apenas um tipo de anticorpo, composto de dois tipos de cadeias de proteínas – pesadas e leves – que juntas formam uma forma Y. As proteínas da cadeia pesada abrangem todo o Y, enquanto as proteínas da cadeia leve tocam apenas os braços do Y.

Por sua vez, as lhamas produzem dois tipos de anticorpos: um é semelhante em tamanho e constituição aos anticorpos humanos, mas o outro é muito menor, com apenas cerca de 25% do tamanho de anticorpos humanos. O anticorpo da lhama ainda forma um Y – como o humano -, mas seus braços são muito mais curtos porque não possui proteínas da cadeia leve.

Esse anticorpo mais diminuto pode acessar bolsas e fendas menores nas proteínas spike (que permitem que vírus como o novo coronavírus invadam as células hospedeiras e nos infectem), como os anticorpos humanos não conseguem. Isso é pode torná-lo mais eficaz na neutralização de vírus.

O Dr. Xavier Saelens, virologista molecular da Universidade de Ghent e autor do novo estudo, salienta que os anticorpos dos lamas também são facilmente manipulados porque podem ser ligados ou fundidos com outros anticorpos, incluindo os anticorpos humanos, e permanecem estáveis, apesar dessas manipulações.

E uma curiosidade: esse pequeno anticorpo não é privilégio das lhamas. É uma característica genética que compartilham com todos os camelídeos, a família de mamíferos que inclui alpacas, guanacos e dromedários. Mais: também é encontrado em tubarões, que não se configuram como um bom modelo de experimentos visto que não são tão fofos como as lhamas.

Fãs das lhamas

Por tudo isso, os cientistas tornaram-se fãs das lhamas, que desenvolveram uma reputação de cura. E seus poderes calmantes vão muito além do microscópico de um laboratório. As lhamas tornaram-se aliadas das pesquisas também em várias faculdades dos EUA.

O cientista George Caldwell cria lhamas em Sonora, Califórnia, e leva suas assistentes de confiança para as universidades da Califórnia, de Berkeley, na UC Davis, em Stanford, entre outras, e escolas secundárias do norte da Califórnia, onde a tranquilidade da espécie é contagiante. Elas ajudam os alunos a superarem a ansiedade. “Quando você está perto de uma lhama, fica muito calmo e em paz”, disse um sênior de Berkeley em um evento do campus em 2019, ao The Guardian.

E, assim, Winter – que aparece nos centro das duas fotos acima -, com seus grandes cílios, pernas finas e orelhas levemente tortas, continua tranquilamente passeando pela fazenda da Universidade de Ghent, sem saber que alguns cientistas desejam que ela se transforme em uma figura importante na história da luta contra o novo coronavírus.

Fotos: Tim Coppens/Universidade de Ghent

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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