Kākāpō: papagaio raro, que não voa, é eleito ‘Ave do Ano’ na Nova Zelândia

Esta é a segunda vez que a espécie de papagaio Kākāpō, vence o concurso Bird of The Year (Ave do Ano), desde que o prêmio foi instituído na Nova Zelândia, em 2005. A primeira vitória deste papagaio raro – em risco de extinção – foi há doze anos. Agora, é a única ave a ganhar o título por duas vezes.

Kākāpō é considerado o papagaio mais pesado (foto abaixo) e de vida mais longa do mundo. É incapaz de voar devido a seu peso – que pode ir de 900 gramas a 4 quilos – e tem o hábito de se esconder durante o dia: gosta da noite. Daí seu nome, em maori, que significa papagaio da noite.

Ele é muito fofinho e parece feito de musgo, mesmo!
Foto de Scotti Latimer para Kãkãpõ Recovery

A mobilidade restrita da espécie (não pode voar para fugir) e alguns hábitos os tornam vulneráveis às ameaças: demoram para se reproduzir e nidificam no chão. Por outro lado, têm como principal defesa as penas, em geral, muito verdes, que lhe dão a aparência de musgo. Isso facilita sua camuflagem na natureza, como em um arbusto, por exemplo.

A espécie quase foi extinta e ainda continua em perigo. Segundo pesquisadores, a colonização humana, a caça e a introdução de predadores como arminhos, ratos e gatos foram os responsáveis. Os esforços de conservação foram iniciados em 1894, mas, em meados do século 20, o Kãkãpõ já estava à beira da extinção.

Foto de Jake Osborne para Departamento de Conservação de Nova Zelândia

Na década de 90, havia apenas 50 indivíduos. Há registros que falam em 18! Mas, graças ao trabalho intensivo do Departamento de Conservação – Te Papa Atawhai – DOC (agência governamental encarregada de cuidar das espécies nativas; vale navegar em seu Flickr) e da conscientização da população, hoje, 213 indivíduos, um recorde!

Entre as medidas para sua proteção está a transferência para ilhas de reprodução, livres de predadores: Anchor e Whenua Hou. E também a meta de se livrar dos predadores até 2050. Tarefa nada fácil, mas imprescindível para a conservação dessa espécie tão amada no continente.

Recuperação da espécie e uma doença terrível

Para o Dr. Andrew, Digby conselheiro científico de recuperação do setor do DOC dedicado ao Kãkãpõ, o recorde de indivíduos da atualidade é um marco importante na longa jornada em direção à recuperação da espécie. “Isso se deve a décadas de trabalho”.

Entre os anos 2018 e 2019 foi registrada a maior reprodução da espécie, com também o recorde de 71 filhotes que sobreviveram até a idade juvenil – superando de longe o recorde anterior: 32.

Hoje, o projeto também prevê que recém-nascidos sejam criados em laboratório, até que possam ser reintroduzidos na natureza, sempre acoplados a um transmissor.

Mas Digby destaca que, em meio aos esforços de reprodução, surgiram alguns grandes desafios. Um deles, foi uma onda de aspergiloseinfecção fúngica que pode ser extremamente mortal para as aves – varreu a população de Whenua Hou, na Ilha do Bacalhau.

Mas, graças à ação rápida de uma equipe diversificada – com membros do DOC, do Zoológico de Auckland, do Massey Wildbase, do Hospital de Vida Selvagem de Dunedin e do Zoológico de Wellington –, a maior parte das 21 aves afetadas sobreviveu.

Sirocco, um Kãkãpõ famoso

Sirocco em foto de Sabine Bernert para o Departamento de Conservação de Nova Zelândia

Sirocco foi um dos Kãkãpõ acometidos pela aspergilose, pouco depois de nascer. Primeiro, ficou aos cuidados da mãe. Mas recebeu cuidados humanos e gostou, passando a apresentar um comportamento incomum. Parecia muito bem na companhia dos pesquisadores, mas não dos Kãkãpõ.

Ele se recuperou e foi liberado para sobreviver na floresta. Livre para vagar pela ilha, rapidamente revelou que o chamado da natureza não era tão forte. “Ele estava mais interessado em nós do que em sua própria espécie”, conta o DOC em seu site.

Seu interesse pelas pessoas o transformou num embaixador da espécie, perfeito para viajar e conhecer pessoas como nenhum outro Kãkãpõ. E foi assim que a espécie se tornou mais conhecida.

Em 2005 – ano em que a competição ‘Bird of the Year’ foi lançada -, com 19 anos (os Kākāpō podem viver até 60 anos, de acordo com pesquisadores), foi escolhido para fazer uma turnê pela Nova Zelândia e chamar a atenção para o sofrimento de sua espécie com a doença e com a ação dos predadores (o governo estabeleceu uma meta para acabar com eles até 2050).

Visitou a Ilha Ulva (um santuário de pássaros na Ilha Stewart) e o Zoológico de Auckland. Mas, foi um episódio vivido no ano passado que o tornou famoso no mundo todo porque foi inesperado, divertido e viralizou nas redes sociais. Por consequência, sua missão de divulgador da espécie para sua conservação ficou ainda mais forte.

A BBC realizou um documentário sobre os Kãkãpõ para a série Last Chance to See, que rodou o mundo para mostrar espécies em perigo de extinção. Nela, o ator britânico Stephen Fry se juntou a Douglas Adams (autor de O Mochileiro das Galáxias) e ao zoólogo Mark Carwardine. Fry ficou encantado com a espécie. E com Sirocco.

Durante as filmagens, Sirocco se mostrou extremamente afável à presença deles, e muito interessado em Carwardine, enquanto este o fotografava. Em dado momento, enquanto o zoólogo estava deitado no chão para conseguir registrar os melhores ângulos da ave, o papagaio subiu em sua cabeça e tentou acasalar com ele.

O “incidente” foi gravado e viralizou na internet: teve mais de 18 milhões de visualizações. Assista ao vídeo no final deste post.

O papel da competição na conservação

Com a competição Ave do Ano, a consciência ambiental dos neozelandeses, também em relação ao desaparecimento da espécie, aumentou.

Os organizadores do concurso sentiram essa transformação porque acompanham a espécie há 15 anos, quando foi realizada a primeira eleição e garantem:

“O prêmio Ave do Ano é definitivamente parte de uma mudança no pensamento sobre as necessidades do meio ambiente e das espécies nativas da Nova Zelândia”, disseram eles ao jornal britânico The Guardian.

Kãkãpõ em imagens

A foto de destaque deste post é de autoria de Brodie Philp, biólogo que trabalha como guarda-parque no programa Kakapo Recovery do Departamento de Conservação- Te Papa Atawhai, e mostra Kuia-1-B-19, que vive no Parque Nacional de Fiordland, onde está Sirocco também.

A seguir, assista a três vídeos: da BBC, que mostra o momento em que o Kãkãpõ Sirocco subiu na cabeça do zoólogo Mark Carwardine; do Departamento de Conservação, que mostra o retorno de Sirocco após dois anos de sumiço e também ao vídeo produzido pelo jornal britânico The Guardian sobre a espécie.

A paixão de Sirocco pelo zoólogo

Sirocco voltou!

Kãkãpõ pelo The Guardian

Foto (destaque): Brodie Philip/Kãkãpõ Recovery

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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