Jovens pesquisadores Yanomami registram 32 tipos de abelhas nativas em livro impresso e para download gratuito

Jovens pesquisadores Yanomami registram 32 tipos de abelhas nativas em livro impresso e para download gratuito

Por Evilene Paixão*

Jovens pesquisadores indígenas, orientados por velhos conhecedores de suas aldeias, registraram e catalogaram 32 diferentes tipos de abelhas nativas (ou abelhas sem ferrão) da Terra Yanomami, em Roraima.

O resultado foi reunido na publicação Puu naki thëã oni: o conhecimento yanomami sobre abelhas, organizada pelo antropólogo Bruce Albert e o geógrafo Estêvão Senra.

O livro foi lançado durante live transmitida pelo YouTube do Instituto Socioambiental – ISA (assista a conversa no final deste post) e está disponível na versão impressa (à venda no site do ISA, os recursos serão direcionados para a Hutukara Associação Yanomami – HAY) e para download gratuito.

“Nós nos ensinamos sobre as abelhas. Nós nos ensinamos sobre os locais onde as abelhas moram, onde fazem seus ninhos e as árvores que elas realmente usam. Escrevemos e traduzimos essas palavras”, narra Yasmin Yoinawa Yanomami, uma das pesquisadoras indígenas.

Assim como Yasmin, 75% da população Yanomami no Brasil tem menos de 30 anos. Como alerta o livro, atualmente a transmissão do conhecimento tradicional está ameaçada por diversas mudanças socioculturais que vêm ocorrendo de maneira acelerada nas últimas décadas, impulsionadas pela invasão desenfreada do território pelo garimpo ilegal.

“A proposta de formar jovens pesquisadores indígenas e produzir livros sobre os conhecimentos da floresta é, portanto, uma tentativa de contornar essa tendência e valorizar esse saber ameaçado”, explica Senra.

O conhecimento tradicional dos Yanomami sobre as abelhas transcende sua importância local e contribui também para a valorização desses animais ameaçados de extinção globalmente, como sublinha, na contracapa do livro, o ecólogo Jerônimo Kahn Villas-Bôas.

“Responsáveis pela polinização de mais de 80% das espécies silvestres e cultivadas, as abelhas viabilizam pelo menos um terço da alimentação humana. Mas estão desaparecendo pelas mãos da própria agricultura, baseada em monoculturas extensivas e no uso indiscriminado de agrotóxicos”, escreve Villas-Bôas.

“Ouvir o que as sociedades indígenas já observaram e processaram, é avançar no entendimento de um sistema diverso e resiliente, possivelmente o único capaz de evitar um colapso”, acrescenta.

Preservação da cultura

Jovens pesquisadores Yanomami registram 32 tipos de abelhas nativas em livro impresso e para download gratuito

Liderada pela HAY, com assessoria técnica do Instituto Sociambienal (ISA), a pesquisa se concentrou na aldeia Piau, região do Toototopi, Terra Indígena Yanomami, e foi dividida em quatro etapas entre abril de 2016 e março de 2018.

A partir dos nomes de abelhas listados pelos anciãos, os jovens pesquisadores percorreram a floresta com celulares para registrar as entradas dos ninhos.

Jovens pesquisadores Yanomami registram 32 tipos de abelhas nativas em livro impresso e para download gratuito

Em seguida, organizaram fichas descritivas ricamente ilustradas, adicionando características como aparência, comportamento e forma do ninho. Foram realizadas também rodas de discussão sobre cada uma das abelhas e seus atributos.

“Temos várias abelhas nativas de tipos diferentes na floresta Yanomami. O livro é um trabalho extremamente importante, não só para os jovens, mas para as futuras gerações. Para que saibam a importância das abelhas e mais sobre a nossa cultura”, diz Dário Kopenawa, vice-presidente da Hutukara.

Jovens pesquisadores Yanomami registram 32 tipos de abelhas nativas em livro impresso e para download gratuito

Conhecimento tradicional e científico

Para estabelecer uma ponte entre o conhecimento Yanomami e o científico não indígena, a Hutukara realizou uma parceria com o Laboratório de Bionomia, Biogeografia e Sistemática de Insetos (BIOSIS), da Universidade Federal da Bahia (UFBA), a cargo da pesquisadora e professora Favízia Freitas de Oliveira, para ajudar na identificação científica das espécies.

“Para nós foi uma excelente oportunidade de cooperação. Eles receberam os membros de nossa equipe e compartilharam as informações sobre as abelhas que eles exploravam, para que pudéssemos identificar, permitindo, inclusive, a coleta de espécimes de algumas das espécies para confirmação em lupa”, conta a pesquisadora.

FICHA TÉCNICA
Puu naki thëã oni: o conhecimento yanomami sobre abelhas
Organização: Bruce Albert e Estêvão Senra
Autores: Adir Hokotori Yanomami, Alcida Yanomami, Cesso Yaripino Yanomami, Edileia Yanomami, Edinho Hokotori Yanomami, Genivaldo Iwari Yanomami, Jairo Yoinawa Yanomami, Kenedy Yaripino Yanomami, Leonice Toxanayoma Yanomami, Marília Kumirayoma Yanomami, Romi Yaripino Yanomami, Vitória Tiririna Yanomami e Yasmin Yoinayoma Yanomami
Realização: Hutukara Associação Yanomami e Instituto Socioambiental (ISA)
Páginas: 142 / 1ª Edição — 2021 / Esta publicação foi produzida com o apoio da União Europeia.

Foto: montagem com capa e ilustração do livro

*O texto original foi publicado originalmente no site do Instituto Socioambiental em 15/10/2021 e reproduzido, aqui, no Conexão Planeta, por Mônica Nunes

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Instituto Socioambiental

O ISA é uma organização da sociedade civil brasileira (OSCIP desde 2001), fundada nos anos 90 com o intuito de oferecer soluções para questões sociais e ambientais em prol dos bens e direitos coletivos e difusos relativos ao meio ambiente, patrimônio cultural, aos direitos humanos e aos povos originais. Recentemente, lançou a campanha “Menos Preconceito, Mais Índio” e o primeiro documentário em realidade virtual numa aldeia indígena: “Fogo na Floresta”.

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