Jovem picado por naja é indiciado por tráfico de animais, junto com outros dez acusados, entre eles, mãe e padastro

Jovem picado por naja é indiciado por tráfico de animais, junto com outros dez acusados, entre eles, mãe e padastro

O estudante de medicina veterinária Pedro Henrique Santos Krambeck Lehmkuhl, de 22 anos, picado por uma serpente naja que ele criava no mês passado, foi indiciado pela Polícia do Distrito Federal por tráfico de animais silvestres, associação criminosa, maus-tratos e exercício ilegal da medicina veterinária.

Além dele, foram indiciados ainda a mãe e o padrasto do estudante, pelos mesmos crimes, com exceção do exercício ilegal da veterinária, e também, fraude processual e corrupção de menores, e outros oito pessoas.

Pedro e um amigo chegaram a ser presos temporariamente, mas foram soltos depois de apresentação de habeas corpus por seus advogados. O estudante já tinha sido multado em R$ 60 mil pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). A mãe e o padrasto dele também terão de pagar R$ 8,5 mil cada um, por terem dificultado a ação de resgate da naja. Segundo informações da polícia, os familiares não ajudaram nas investigações.

Segundo a apuração da polícia, Pedro já comercializava cobras desde 2017, ano em que começou a realizar a reprodução das serpentes e vender filhotes, que chegavam a custar até R$ 500 reais.

Na casa da família foram encontrados mais de 20 répteis. Por esta razão, Pedro terá que responder ao crime de tráfico de animais correspondente ao número de animais em sua posse: 23.

O estudante acusado de tráfico, em fotos nas redes sociais, em que compartilhava várias postagens sobre serpentes

A serpente que picou o estudante do Distrito Federal, era uma Naja kaouthia. Ela é originária do sudeste asiático e por sorte, o Instituto Butantan, de São Paulo, tinha o soro antiofídico, mas em estoque limitado. Há informações de que a família teria importado doses extras dos Estados Unidos.

Sete das serpentes apreendidas durante a investigação e que estavam sendo cuidadas pela equipe do Zoológico de Brasília foram levadas esta semana para o Instituto Butantan. Todas eram exóticas, ou seja, não são nativas do Brasil. Entre elas havia uma víbora-verde-voguel, espécie peçonhenta*, assim como a Naja kaouthia, que foi entregue de forma espontanêa (não estava entre as criadas pelo estudante traficante).

Um dos motivos é que, de acordo com uma instrução normativa do Ibama, para ficarem de posse de de uma espécie peçonhenta, instituições precisam ter o antiveneno específico para ela e que seja o suficiente para o tratamento de, no mínimo, três acidentados.

Além disso, o Zoológico de Brasília emitiu uma nota afirmando que dá prioridade as espécies do Cerrado.

“Nós abandonamos o conceito de apenas exibir animais que as pessoas querem ver. Nosso objetivo aqui é muito maior. Temos que priorizar os animais que dependem dos nossos esforços para que não desapareçam para sempre da natureza, por meio da reprodução em cativeiro, da pesquisa científica e da educação ambiental perante a sociedade”, explicou Filipe Reis, superintendente substituto de conservação e pesquisa do local.

Jovem picado por naja é indiciado por tráfico de animais, junto com outros dez acusados, entre eles, mãe e padastro

A víbora-verde-de-vogel é uma espécie originária da Ásia e bastante perigosa por não ter soro antiofídico para a sua peçonha no Brasil

Vale lembrar que qualquer pessoa pode denunciar suspeitas de criação ilegal de animais silvestres por meio da Linha Verde do Ibama pelo telefone 0800-618080.

*Peçonhento é o animal que tem um aparelho inoculador de veneno, como serpentes, aranhas e escorpiões, ou seja, quando ele pica o veneno é injetado na presa. Venenoso é o ser que tem veneno, mas não inocula, como os sapos e cogumelos.

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Fotos: divulgação Zoológico de Brasília/Ivan Mattos (serpentes) e reprodução internet (Pedro)

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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