Jogadores de basquete boicotam jogos decisivos da NBA em apoio a protestos antirracistas contra mais uma violência policial

Deste o retorno da nova temporada de jogos da NBA – National Basketball Association (Associação Nacional de Basquetebol) os jogadores da equipe americana de basquete Milwaukee Bucks fazem manifestações de apoio à luta contra a discriminação racial, na esteira dos protestos contra a morte de George Floyd, no final de maio, em Minneapolis, Estados Unidos.

Exibem camisetas com a expressão Black Lives Matter (Vidas Negras Importam, em tradução livre) – movimento iniciado com o assassinato de Floyd – ou mensagens que pedem por justiça social nos uniformes e ajoelham durante o hino nacional.

Mas, ontem, eles radicalizaram: não entraram em quadra para enfrentar o Orlando Magic na quinta partida dos jogos decisivos da NBA. Deixaram os adversários – que chegaram a fazer o aquecimento físico – e árbitros esperando por eles. Pouco antes do horário marcado para o início da partida, os jogadores se retiraram da quadra, seguidos pelos árbitros.

O boicote foi uma forma de apoiar os novos protestos antirracistas, “reativados” com mais um episódio violento protagonizado pela polícia do estado de Wisconsin contra um homem negro, Jacob Blake, no último domingo.

Os policiais atendiam a uma discussão doméstica – uma briga entre duas mulheres -, quando abordaram o jovem de 29 anos, que havia tentando separa-las. Um deles foi atrás de Blake e atirou nele, ainda de costas, sem nada perguntar, quando tentava entrar em seu carro. Foram sete tiros! Detalhe: a violência se deu na frente de seus três filhos, que estavam dentro do veículo.

Em tempos de smartphones e redes sociais, é claro que a cena grotesca foi filmada por um morador e caiu nas redes sociais, se espalhando pelo mundo. Apesar de ser almejado tantas vezes, Blacke não morreu e, segundo a família, continua internado em estado estável.

“Há atenção, mas não ação suficiente!”

A atitude dos jogadores do time de Milwaukee também foi uma maneira de revelar seu descontentamento pela falta de efeito das sutis mobilizações da ‘bolha’ da NB, como as que comentei acima. E pode ter antecipado um movimento de protestos que seria efetivado com os jogadores de outros dois times: Toronto Raptors e Boston Celtics. Eles já haviam comentado que cogitavam não entrar em quadra hoje, 27/8, para disputar o primeiro jogo das “semifinais da Conferência Leste”.

Não demorou para que astros como LeBron James, do Los Angeles Lakers, e Donovan Mitchell, do Utah Jazz, se manifestassem em suas redes sociais, pedindo por justiça. Para os jogadores, a NBA não está dando a devida atenção aos movimentos antirracistas e até revelaram que sentir medo por serem negros.

Em entrevista à ESPN americana, por exemplo, o camaronês Pascal Siakam, do Toronto Raptors, revelou seu descontentamento: “É traumatizante. Me sinto preso aqui. Viemos para a ‘bolha’ com o objetivo de espalhar uma mensagem e isso não está acontecendo. A gente sente que não está fazendo nada de produtivo aqui dentro”.

Para a mesma emissora, Nick Nurse, técnico do Toronto Raptors, disse que “os jogadores estão profundamente desapontados com o fato de a mesma coisa (assassinato de George Floyd) acontecer novamente em um período de tempo relativamente curto (apenas três meses)”.

E acrescentou: “Eles querem ser parte da solução. Eles querem ajudar. Eles querem justiça. Eles querem que esse problema específico seja tratado de uma maneira muito melhor. Essa é a primeira coisa”. Para Nurse, o boicote ao jogo foi uma estratégia para “exigir um pouco mais de ação”. E completou: “Há atenção suficiente, mas não há ação suficiente”.

Atletas exigem punição dos policiais em comunicado oficial

Ainda no vestiário, os jogadores do Milwaukee Bucks se pronunciaram a respeito do protesto, logo após participarem de teleconferência com Josh Paul, procurador-geral de Wisconsin, e Mandela Barnes, vice-governador. Cercados pelos companheiros, George Hill e Sterling Brown leram o comunicado oficial do time.

Nele, exigem que os autores da violência contra Blake sejam punidos e lembram, aos cidadãos, que votem com responsabilidade nas eleições presidenciais. O texto está reproduzido abaixo, na íntegra:

“Os últimos quatro meses lançaram luz sobre as injustiças raciais em curso, que as comunidades afro-americanas enfrentam. Cidadãos de todo o país têm usado suas vozes e plataformas para se manifestar contra esses delitos.

Nos últimos dias, em nosso estado natal de Wisconsin, vimos o vídeo horrendo de Jacob Blake sendo baleado nas costas sete vezes por um policial em Kenosha, e o tiroteio adicional de manifestantes. Apesar do apelo esmagador por mudança, não houve nenhuma ação, então nosso foco hoje não pode estar no basquete.

Quando entramos em quadra e representamos Milwaukee e Wisconsin, espera-se que joguemos em alto nível, demos o máximo de esforço e responsabilizemos uns aos outros. Seguimos esse padrão e, neste momento, exigimos o mesmo de nossos legisladores e agentes da lei.

Estamos pedindo justiça para Jacob Blake e exigindo que os oficiais sejam responsabilizados e punidos. Para que isso ocorra, é imperativo que o Legislativo do Estado de Wisconsin se reúna após meses de inação e tome medidas significativas para tratar de questões de responsabilidade policial, brutalidade e reforma da justiça criminal.

Incentivamos todos os cidadãos a se educarem, a tomarem medidas pacíficas e responsáveis ​​e a se lembrarem de votar em 3 de novembro”.

Jogadores de beisebol também aderem ao boicote

Jason Heyward, do Chicago Cubs, com camiseta do movimento Black Lives Matter

Seguindo o movimento das equipes da NBA, times e jogadores da Liga de Beisebol (Major League Baseball – MLB) também decidiram não entrar em campo ontem. O primeiro foi o Milwaukee Brewers, que boicotou o jogo contra o Cincinnati Reds.

Em seguida, o Seattle Mariners aderiu ao protesto e anunciou que também não entraria em campo contra o San Diego Padres. As equipes do Los Angeles Dodgers e San Francisco Giants se uniram para boicotar a partida que os reuniria. As demais partidas da programação foram realizadas, algumas antecedidas por protestos.

Os jogadores do Milwaukee Brewers se reuniram com os do Reds antes da partida para tomarem a decisão juntos. Ryan Braun, destacou que, depois da morte de Floyd, “nós estamos vestindo camisas que dizem ‘justiça, igualdade, agora’. Nós fizemos nossos posicionamentos. Mas em algum ponto, ações falam mais alto que palavras e nós sentimos que, hoje, tivemos uma oportunidade única, um momento para que nós usássemos nossa plataforma para colocar de verdade estas palavras e este posicionamento em ação”.

Os Dodgers também aderiram ao boicote. Mookie Betts disse que não jogaria hoje e seus companheiros o apoiaram. “Tenho que ouvir meu coração, meus pensamentos e mudanças precisam ser feitas. Eu preciso da minha plataforma para, pelo menos, fazer as coisas começarem a acontecer”, explicou.

Para o técnico do Giants, Gabe Kapler, que defende a decisão dos times, “algumas coisas são maiores que o esporte e eu não acho que deveríamos precisar de atletas boicotando jogos decisivos, como no caso da NBA, para nos lembrar que vidas negras importam e que a brutalidade da polícia é inaceitável e que o racismo sistêmico precisa ser eliminado”.

O jogador afro-americano Dee Gordon, um dos mais importantes da MLB, apoiou a decisão dos Mariners de não jogar.

“Há sérios problemas neste país. Para mim e para muitos dos meus colegas de equipe, as injustiças, a violência, as mortes e o racismo sistêmico são profundamente pessoais. Isto impacta não apenas na minha comunidade, mas diretamente na minha família e amigos. Nosso time votou de forma unânime por não jogar nesta noite. Em vez de nos assistirem, nós esperamos que as pessoas foquem em coisas mais importantes que os esportes e que estão acontecendo”.

A MLB divulgou comunicado oficial no qual destacou: “Dada a dor nas comunidades de Wisconsin e demais lugares depois dos tiros em Jacob Blake, nós respeitamos a decisão de vários jogadores de não jogar esta noite. A Major League Baseball segue unida por mudanças em nossa sociedade e nós seremos aliados na luta pelo fim do racismo e da injustiça”. 

E o sindicato dos jogadores da MLB, também se manifestou a favor da mobilização, em nota: “Neste momento crítico, os jogadores foram profundamente afetados pelos recentes eventos em Wisconsin e por eventos similares em outras partes do país. Estamos orgulhosos de apoiar o posicionamento que os jogadores tomaram, e seguimos comprometidos em apoiar seus esforços por mudanças efetivas na MLB e demais comunidades”.

Tomara que essa mobilização inspire outros atletas e cidadãos. E que o apelo dos jogadores de basquete seja ouvido: as eleições presidenciais serão em 3 de novembro. Esta é uma ótima oportunidade para começar a transformar o cenário de injustiças, de desigualdade e de violência contra os negros e outras minorias, que domina os Estados Unidos. Estas eleições serão decisivas para o país e também influenciarão diversas partes do mundo, como o Brasil.

Foto: Reprodução de vídeo

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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