Joaquin Phoenix critica racismo no cinema, em discurso na cerimônia de entrega do prêmio Bafta, que ganhou como melhor ator

Entre os atores do cinema, Joaquin Phoenix é um dos mais engajados. Luta contra as mudanças climáticasfoi preso junto com Martin Sheen, em protesto em Los Angeles, Califórnia -, aderiu à campanha do PETA pelo veganismo e contra o especismo*, e não perde uma oportunidade para falar de temas sensíveis da atualidade, especialmente em cerimônias de entrega de prêmios cinematográficos.

No início de janeiro, ele, Russel Crowe e Cate Blanche foram alguns dos atores que usaram o palco de entrega do 77º Golden Globe Awards (Globo de Ouro) , em Los Angeles, para pedir mais ações sobre a crise climática. Nessa noite, ele comentou sobre o jantar vegano oferecido, parabenizando a organização por reconhecer o vínculo entre agricultura animal e crise climática. Ontem, na cerimônia de entrega do British Academy Film Awards, o Bafta, (concedido pela Academia Britânica de Artes do Cinema e Televisão), ele fez mais um protesto.

Venceu o prêmio de melhor ator e, em seu discurso, falou do racismo no cinema, indicando que a edição deste ano do prêmio continuava endossando essa situação, se colocando como parte do problema – a falta de diversidade -, e considerando-se um privilegiado que não fez o bastante para mudar esse cenário.

“Sinto-me muito honrado e privilegiado por estar aqui esta noite. Os Bafta sempre me apoiaram em minha careira, e estou profundamente agradecido. Mas também devo dizer que me sinto em conflito, porque muitos dos meus colegas atores que também merecem o prêmio não têm o mesmo privilégio. Acho que lançamos uma mensagem muito clara às pessoas negras: que ‘vocês não são bem-vindos aqui’. Essa é a mensagem que estamos enviando às pessoas que tanto contribuíram para o nosso meio e a nossa indústria, fazendo coisas das quais nos beneficiamos”.

O ator destacou que ninguém certamente quer “caridade” ou um tratamento preferencial, “embora seja isso o que nos damos a nós mesmos todo ano. Acho que as pessoas só querem ser reconhecidas, admiradas e respeitadas por seu trabalho”. E continuou: “Esta não é uma crítica hipócrita, tenho vergonha de dizer que sou parte do problema, eu não fiz tudo que poderia para garantir que a estrutura fosse mais inclusiva. Mas acho que se trata de algo a mais do que ter equipes multiculturais. Acho que temos que fazer um trabalho mais duro para entender o racismo sistêmico. Acho que as pessoas que criaram, perpetuaram e se beneficiaram de um sistema opressor têm a obrigação de desmantelá-lo. De modo que tudo depende de nós. Obrigado”.

Phoenix se distanciou do “púlpito”, onde havia colocado o prêmio para discursar, deixando-o lá, o que chamou a atenção de quem assistia à sua declaração de impacto. Seria uma forma de protesto contra a organização do prêmio? Alguém, então, chamou-lhe a atenção, dizendo que a saída era pelo outro lado (ele saiu pelo fundo do palco) e que havia esquecido o prêmio, e ele voltou pra pegá-lo.

Os discursos de agradecimento do intérprete de Coringa – trabalho que lhe rendeu indicações para todos os prêmios do cinema deste ano – têm sido eventos à parte. E, por sua visibilidade – do ator e das cerimônias – podem ser propulsores de reflexões mais profundas por parte de seus colegas e de seu público. O racismo estrutural, tema de seu discurso no Bafta, está em todo lugar, não dá mais pra negar. Muito se fez e se faz a respeito, é verdade, mas, como bem destacou Phoenix, não tem sido suficiente. Lembrar, falar, escrever, exigir, não tolerar é urgente, até não seja mais necessário.

Agora, é aguardar o Oscar, daqui seis dias, que também deve ser marcado por discursos engajados. Quem sabe Joaquin Phoenix ganha mais um prêmio e uma oportunidade para falar. Se não subir ao palco desta vez, há pelo menos mais uma chance de ouvirmos falar da crise climática no planeta: com Leonardo di Caprio, que também concorre ao Oscar.
____________________

*especismo: visão de mundo em que seres humanos consideram as demais espécies inferiores, podendo explorá-las, escravizá-las e matá-las.

Foto: Reprodução

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

Deixe uma resposta