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Ivy Faria, filha de Romário que tem síndrome de down, escreve carta ao ministro da Educação e rebate sua infeliz declaração

Ivy Faria, filha de Romário que tem síndrome de down, escreve carta ao ministro da Educação e rebate sua infeliz declaração

Desde que assumiu o Ministério da Educação, em junho de 2020, Milton Ribeiro cria polêmica com seus pronunciamentos. As últimas aconteceram em 9 de agosto, quando deu entrevista para a TV Brasil. Ele declarou que “universidade deveria ser para poucos, nesse sentido de ser útil à sociedade”, que reitores optaram por “visão de mundo à esquerda, socialistas” e defendeu o retorno do ensino presencial nas escolas.

Mas não parou por aí. Ribeiro defendeu a criação de salas especiais para crianças com deficiência para que não atrapalhem os colegas, chamando a integração dessas crianças de inclusivismo.

“A criança com deficiência era colocada dentro de uma sala de alunos sem deficiência. Ela não aprendia. Ela atrapalhava, entre aspas, essa palavra falo com muito cuidado, ela atrapalhava o aprendizado dos outros porque a professora não tinha equipe, não tinha conhecimento para dar a ela atenção especial”.

Está mais do que provado por especialistas, no mundo todo, que a inclusão das crianças com deficiência é positiva para todos, não só para elas. E que o que atrapalha a vida em sociedade é o preconceito, a falta de empatia

E foi isso que Ivy Faria, 16 anos, filha caçula do ex-jogador e senador Romário, do Rio de Janeiro, escreveu em carta aberta dirigida ao ministro, que publicou em suas redes sociais.

Ela tem síndrome de down e disse ter ficado muito triste com a fala de Ribeiro. Contou que estuda em uma escola com crianças sem deficiência, e que não atrapalha ninguém. “Eu estudo para ter um futuro e ajudar o meu país. Eu não atrapalho ninguém. Frequento uma escola regular, onde há jovens com e sem deficiência, cada um aprende no seu tempo, ninguém é igual”. 

Para Ivy, a convivência das diferenças é muito positiva, “não é ruim, muito pelo contrário, desde a escola, meus coleguinhas aprendem uma lição que parece que o Sr. não teve a oportunidade de aprender: a diversidade faz parte da natureza humana e isso é uma riqueza. A fala do senhor revela muita falta de educação”. E completou:

“Como pode achar que a deficiência torna alguém incapaz de estudar? A deficiência não nos torna incapazes de nada, basta que tenhamos oportunidade”. Reproduzo a carta da adolescente, na íntegra, mais abaixo, neste post.

“Não podemos deixar ninguém pra trás”, declara Romário

A reação de Ivy foi precedida pelas declarações do pai nas redes sociais – com direito a resposta de Ribeiro – e no Senado (reproduzo, no final deste post, o vídeo de sua fala no plenário, que ele publicou no Twitter).

No Instagram, no Twitter e no Facebook, Romário declarou que “somente uma pessoa privada de inteligência, aqueles que chamamos de imbecil, podem soltar uma frase como essa. Elas existem aos montes, mas não esperamos que ocupem o lugar de ministro da Educação de um país”. E completou:

“A diversidade em sala de aula não atrapalha, porque ninguém que busque o conhecimento atrapalha. Pessoas com deficiência em sala de aula estão, com a sua presença, também contribuindo para uma importante lição, a de que somos diversos e que não podemos deixar ninguém pra trás”.

Ribeiro rebateu: “é muito deselegante quando um representante do parlamento se dirige desta maneira a um ministro de estado” e declarou que a frase havia sido “tirada do contexto”. 

O que ele defende, na tal entrevista, como expliquei acima, é a criação de espaços especiais, que isolem as pessoas diferentes, não promovam sua integração. E isto seria mais um grande retrocesso.

Vale lembrar que o governo Bolsonaro desativou a Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão, órgão vinculado ao Ministério da Educação, que trabalhava a inclusão da diversidade entre os critérios educacionais no Brasil. Exclusão é seu discurso.

Em setembro de 2020, Bolsonaro tentou instituir, por decreto, mudanças na política de educação para pessoas com deficiência, priorizando as chamadas “escolas especiais” em detrimento da inclusão destas pessoas na rede de ensino regular. Ou seja, a segregação.

Super criticado por entidades, especialistas, familiares e pessoas com deficiência, no início de dezembro o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), suspendeu o decreto. Em meados do mesmo mês, por 9 votos a 2, o STF manteve a decisão de Toffoli e encerrou o assunto.

As declarações recentes de Ribeiro dão a entender de que ele continua firme e forte em defesa desse projeto do governo, que revela uma visão tacanha, preconceituosa e atrasada da diversidade.

Romário aprova emenda importante no Senado

Ivy Faria, filha de Romário que tem síndrome de down, escreve carta ao ministro da Educação e rebate sua infeliz declaração
Foto: Reprodução Instagram

Desde que Ivy nasceu, Romário abraçou a causa dos direitos das pessoas com deficiência e luta por eles no Congresso Nacional.

Ontem, mesmo, 17/8, ele conseguiu aprovar emenda de sua autoria ao Projeto de Lei 2.201/2021, que garante a prioridade de matrícula para crianças e adolescentes com deficiência ou doenças raras no ensino público ou subsidiado pelo Estado: em creches, pré-escolas e instituições de ensino fundamental ou médio.

“Por mais que a Constituição imponha ao Estado o dever de garantir educação básica obrigatória e gratuita dos 4 aos 16 anos de idade, bem como educação infantil, em creche e pré-escola, às crianças de até 5 anos de idade, temos ciência de que, na prática, é comum, em todo o território nacional, a organização de filas de espera por vagas na pré-escola e na rede pública de ensino, porque o Estado ainda não consegue suprir a demanda dos brasileiros por educação”, destacou Romário no plenário.

“A concorrência acirrada por matrículas pode deixar crianças e adolescentes com deficiência fora da escola e da creche, agravando-lhe o isolamento social e atrasando o desenvolvimento de suas potencialidades. Trata-se do círculo vicioso de reprodução das dificuldades e de impedimentos mencionado pela autora da proposição, uma dinâmica que precisa ser interrompida, se realmente desejamos nos transformar em uma sociedade inclusiva e acessível”, concluiu.

O substitutivo foi aprovado por unanimidade: 75 votos a favor e nenhum contra. Agora, segue para análise da Câmara dos Deputados. Veja o que disse Romário no plenário, ontem, e, a seguir, conheça a carta de Ivy, na íntegra.

“A diversidade faz parte da natureza humana e isso é uma riqueza”

A íntegra da carta aberta de Ivy para Milton Ribeiro:

“Seu ministro da Educação, aqui é a Ivy, eu estou muito triste com Sr.. Sabe, eu tenho síndrome de Down, sou uma pessoa com deficiência, e sou estudante. Eu estudo para ter um futuro e ajudar o meu país. Eu não atrapalho ninguém. Frequento uma escola regular, onde há jovens com e sem deficiência, cada um aprende no seu tempo, ninguém é igual. 

A minha presença e a de outras pessoas com deficiência não é ruim, muito pelo contrário, desde a escola, meus coleguinhas aprendem uma lição que parece que o Sr. não teve a oportunidade de aprender: a diversidade faz parte da natureza humana e isso é uma riqueza. A fala do senhor revela muita falta de educação. Como pode achar que a deficiência torna alguém incapaz de estudar? A deficiência não nos torna incapaz de nada, basta que tenhamos oportunidade”.

“Seu ministro da Educação, aqui é a Ivy, eu estou muito triste com Sr. Sabe, eu tenho síndrome de Down, sou uma pessoa com deficiência, e sou estudante. Eu estudo para ter um futuro e ajudar o meu país. Eu não atrapalho ninguém. Frequento uma escola regular, onde há jovens com e sem deficiência, cada um aprende no seu tempo, ninguém é igual.

A minha presença e a de outras pessoas com deficiência não é ruim, muito pelo contrário, desde a escola, meus coleguinhas aprendem uma lição que parece que o Sr. não teve a oportunidade de aprender, que a diversidade faz parte da natureza humana e isso é uma riqueza.

A fala do senhor revela muita falta de educação, como pode achar que a deficiência torna alguém incapaz de estudar? A deficiência não nos torna incapaz de nada, basta que tenhamos oportunidade. Tem advogado cego, tem relações públicas com síndrome de Down, e tem mais um monte de gente com deficiência formado na universidade e trabalhando pro Brasil.

E pra dar aquele orgulho e mostrar com muito talento a nossa força de vontade de superar tantas barreiras, vem aí as Paralimpíadas com dezenas de atletas dando muito orgulho e nos enchendo de motivação. Seu Ministro, uma criança com deficiência em sala de aula contribui mais com a educação deste país do que o senhor neste ministério”.

Foto: Reprodução/Instagram

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