Inumeráveis: projeto artístico e poético se dedica à memória das vítimas do coronavírus no Brasil

Quando a pandemia do coronavírus chegou ao Brasil, não imaginávamos a força de sua letalidade. E muita gente ainda não entende a gravidade da situação que vivemos. A cada dia, a COVID-19 avança ainda mais veloz: contamina, debilita, tira a capacidade de respirar e pode matar. Os números crescem todos os dias e já nos acostumamos a isso. De 17 de março a 10 de maio, o Brasil registrou 166.162 casos, com 11.343 óbitos. E os últimos dados oficiais indicam que, em 24 horas, mais de 700 pessoas foram vencidas pelo vírus. E todas são traduzidas em números.

Desconfortáveis com a naturalização da morte neste cenário de pandemia, o artista e poeta Edson Pavoni e o empreendedor social Rogério Oliveira compartilharam suas angústias. “Nos sentíamos frustrados ao ver esses números cruéis aumentando, todos os dias, e queríamos criar um projeto para ajudar a transformá-los porque, depois de um tempo, deixam de fazer sentido e nos tornamos insensíveis a eles”, conta Edson.

Os dois saíram dessa conversa comprometidos a dar uma forma às suas inquietações, que, no dia seguinte, o artista traduziu em uma frase: “as histórias penetram os corações num lugar que os números não alcançam”. E, assim, surgiu o memorial Inumeráveis: uma obra artística e, por enquanto, apenas digital, criada para tirar as vítimas fatais por coronavírus do anonimato, contar suas histórias e destacar uma característica marcante de sua personalidade, sempre lembrada por todos que a amavam.

Quem não se comove ao saber que uma jovem, de tão alegre e sociável que era, se transformava na “melhor amiga de infância em cinco minutos” de todos que a conheciam? Ou que um senhor tinha o maior orgulho de “seu fusca 1972” e, com ele, “buscava os netinhos na escola”? Ou de um baiano que todos chamavam de Belo porque, na vila onde morava, “era o mais bonito”?

Arte e poesia

A ideia de memorial pautou o projeto desde que ele foi imaginado e Edson conta sobre a influência da arte em sua concepção. “Devido à minha bagagem profissional, esta é uma obra artística e poética. Queremos incutir o sentimento de transformação nas pessoas por meio de uma linguagem mais lírica e poética. Queremos falar da construção do futuro a partir dos nossos sentimentos, da nossa união, do quanto a gente compreende a profundidade deste momento histórico”.

Lançado oficialmente em 30 de abril – com o site e também em perfis nas redes sociais: Facebook, Twitter e Instagram -, o Inumeráveis tem poesia, mas também tem prosa, como diz a frase que o define: “Não há quem goste de ser número, gente merece existir em prosa”.

Além dos talentos de seus idealizadores, o projeto conta com um núcleo de voluntários formado por jornalistas, escritores e desenvolvedores: Rogério Zé, Alana Rizzo, Guilherme Bullejos, Gabriela Veiga, Giovana Madalosso, Rayane Urani e Jonathan Querubina. E ainda está formando uma rede de colaboradores que ajudam o núcleo a transformar em relatos amorosos as histórias descobertas por eles ou registradas por parentes e amigos das vítimas no site, por meio de um formulário.

“É um esforço poético, artístico e também jornalístico. E todos nós entendemos que escrever essas histórias é parte de um processo de cura da sociedade. Tanto as entrevistas como as informações deixadas no site são transformadas em textos-tributo e publicadas no memorial”.

No site, os nomes dos homenageados e a frase que resume sua existência aparecem numa lista contínua. Ao clicar em cada nome (abaixo), somos transportados para uma página onde conhecemos um pouco mais a respeito de seu jeito, realizações ou filosofia de vida. E, também, o autor do texto e de que forma obteve as informações.

Nas redes sociais, cada homenageado ganha um post delicado (como mostram as imagens que ilustram este trecho do texto e abaixo) com a frase principal que o define, seu nome, idade, a indicação da cidade onde morreu “vítima do coronavírus” e, no final, uma espécie de slogan do projeto: “Não é um número”.

Um memorial para respirar

Com a pandemia, os rituais de despedida foram limitados ao extremo. Não é possível velar os mortos porque os caixões são fechados e lacrados, por segurança, e encaminhados rapidamente ao cemitério para o enterro. Sem cerimônias, mas com muita dor e sofrimento.

“Por causa de tanta dor, não sabemos o passivo psicológico que está sendo criado agora. A gente não tem ideia de como vai ser e o quanto isso vai afetar nossa vida no futuro. Po isso, tive a ideia de construir um memorial arquitetônico, num espaço ao ar livre, que proporcione a conexão das pessoas com este momento, de um jeito poético também, como uma instalação”, explica Edson.

“Imagino um espaço público muito aberto e arejado porque esse vírus ataca nossa capacidade de respirar. A ideia é que todos os nomes sejam escritos num monumento que será o tempo todo atravessado pelo ar, pelo vento, modificando-os. Também imagino que esse lugar deve ser muito arborizado para que as pessoas que o visitem se sintam respirando muito bem”. E ele completa:

“Que seja um lugar de memória, de luto, de celebração da vida, mas também de celebração da travessia que nós, como humanidade, estamos fazendo: antes e depois da pandemia”.

Alinhado com o espírito do tempo em que vivemos, nesta pandemia, em que a colaboração entre as pessoas aflora em todos os movimentos pelo bem comum, o Inumeráveis também trabalha em rede e explica essa opção em seu site: “Neste momento tão duro, queremos sublinhar a força da empatia e da cooperação entre as pessoas. Vivos ou mortos, nunca seremos números“.

Pra finalizar, abaixo destaco alguns dos textos que me tocaram quando conheci o projeto no Instagram, logo que foi lançado. Ainda não foi possível ler todas as homenagens, confesso, mas é difícil acompanhar a velocidade com que os colaboradores do Inumeraveis têm trabalhado. Isso representa não só que o trabalho é extenso – porque as vidas devastadas pelo coronavírus são muitas -, mas, também, que o projeto tem conquistado muitos corações por sua sensibilidade e pela proposta amorosa.

Foto: Pablo Hermoso/Unsplash

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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