‘Interdependence’: filme reúne 11 curtas-metragens e alerta para as mudanças climáticas e a destruição do meio ambiente

“Construir uma ponte entre arte e sociedade, colocando a arte contemporânea a serviço de propósitos humanitários“. Este é o propósito da suíça (de ascendência armênia) Adelina Von Fürstenberg, curadora de arte internacional, com sua fundação ART for The World (ATW), criada em 1996 e associada ao Departamento de Informações Públicas das Nações Unidas (PNUDI). Ela já produziu 45 curtas-metragens sobre questões da atualidade como meio ambiente e mudanças climáticas e é premiadíssima. Agora, nos brinda com Interdependence – em parceria com a SescTV – que trata do conceito de interdependência, de que tudo está interligado (somos natureza) e qualquer ação traz consequências para todos, e da urgência de reduzir (ou eliminar) os impactos ambientais provocados pelo consumo crescente.

O lançamento do filme (1h30m) será realizado hoje, 15/2, no CineSesc, às 20h. Sua estreia na SescTV está marcada para 27/3, às 22h, via TV por assinatura ou on-line, no site da emissora. Acompanhe pelas redes sociais: Twitter, Facebook e Instagram.

A obra reúne 11 curtas-metragens produzidos por diretores independentes dos cinco continentes, reconhecidos por seu engajamento com temas relacionados ao meio ambiente, que se inspiraram na Agenda 2020 da ONU para o Desenvolvimento Sustentável.

Assim, o objetivo de Adelina, com esta seleção, é ajudar a aumentar a conscientização sobre a realidade do meio ambiente e as ameaças avassaladoras das mudanças climáticas, provocando reflexões e emoções e apresentando, também, algumas possibilidades de esperança para nós e as futuras gerações. E creio que cumpre sua missão: impossível ficar impávido diante de algumas cenas e de não tentar vislumbrar saídas. A trilha sonora penetrante é de Michael Galasso.

“Classificados” com base nos quatro elementos naturais essenciais para a vida no planeta – água, terra, ar e fogo – e apresentados de forma desordenada, os curtas traduzem a vida real (de 7 a 11 minutos), transitando entre ficção científica, drama, comédia e videoarte (assista ao teaser no final deste post).

As histórias

Entre os diretores selecionados por Adelina está a brasileira Daniela Thomas, com Tuã Ingugu (Olhos d’Água), produzido pela Syndrome Films com coprodução do Sesc, apresentado na 43a. Mostra Internacional de Cinema, em São Paulo, em 2019. Foi filmado no Xingu, na aldeia Caramujo da etnia Kalapalo e é o primeiro curta que compõe a obra (a imagem que ilustra este post, no destaque, é um fotograma do filme).

Em Tuã Ingugu, o cacique Faremá fala sobre a água é tão antiga quanto os homens, é fonte de toda a vida, que dela que vem o alimento, a bebida, o banho e a alegria e, por isso, sujá-la e envenená-la, traz consequências. Daniela revela cenas lindas do cotidiano da aldeia, no qual a água é protagonista. Lá estão as brincadeiras das crianças, a luta dos meninos e homens (Huka Huka) e o alimento produzido pelas mulheres, tudo permeado pelo líquido sagrado. Deu muita saudade do Xingu, que visitei em 2018.

Os demais participantes, sem respeitar a sequência do filme, são:

A SUNNY DAY, de Faouzi Bensaïdi (Marrocos) – Acompanhando a rotina do personagem, vemos os devastadores efeitos das mudanças climáticas na vida dos seres humanos e na natureza. No zoológico, por exemplo, os bichos são apreciados em filmes 3D. Um dia ensolarado propõe um passeio perturbador e hilário a um futuro que é, ao mesmo tempo, distante e próximo, fantástico e absurdo. Sufocante.

LAC, de Mahamat-Saleh Haroun (Chade) – Com o passar do tempo, pescadoras em Bol, na capital da província de Sahel, vêem seu trabalho ameaçado porque o Lago Tchad está secando e a quantidade de peixes, diminuindo. Até que a filha de uma delas sugere que todas recolham as sacolas plásticas do lago e das ruas para que possam tecer cordas e vender no mercado. A seu modo, essas mulheres lutam contra a poluição e adaptam-se aos novos tempos. Esperançoso.

EXTRACTION: THE RAFT OF THE MEDUSA, de Salomé Lamas (Portugal) – A emergência ambiental, aqui, é retratada por momentos de euforia, ilusão e lembranças vividos por ocupantes de uma balsa a deriva, que seguem esperançosos, orando para serem resgatados. Seus gritos roucos são uma tentativa de chamar a atenção e sua última chance de sobrevivência. Vanguarda tecnológica.

KINGDOM, de Bettina Oberli (Suíça) – A diretora sugere que o último ser humano que habitantes a Terra é uma mulher que, para sobreviver em um planeta pós-apocalíptico, com sol escaldante, e tendo como única fonte de água um pequeno pedaço de geleira. Para protegê-la, usa panos. Durante o dia, tem a companhia de lobos e coelhos, à noite encontra paz e consolo em suas memórias (foto abaixo). Perturbador e singelo. A atriz que interpreta a sobrevivente é Emily Beecham, melhor atriz de Cannes (2019).

QURUT, de Shahrbanoo Sadat (Afeganistão) – Amanhece no Afeganistão. Em uma vila distante, uma mulher ordenha cabras com a ajuda do filho. Retira o leite para fazer o Qurut, uma das refeições mais populares no Afeganistão. A iguaria tem se tornado cada vez mais rara porque as mudanças climáticas alteraram as chuvas e a fertilidade do solo, e as pastagens estão secando. Em meio à tragédia apresenta em sépia, com fundo musical e legendas divertidas, o diretor oferece a receita do Qurut. Original.

MEGHA’S DIVORCE, de Nila Madhab Panda (Índia) – Um homem – Akaash – vai morar na casa de seu pai, depois que a esposa e filho foram para o campo para se protegerem da poluição extrema do ar na cidade de Delhi. O casal volta a se encontrar no tribunal, por causa da ação de divórcio movida pela mulher, Megha. A produção mostra como as mudanças climáticas e a poluição do ar, antes linguagem de cientistas e ambientalistas, tem afetado a nossa vida cotidiana e os relacionamentos. Drama e comédia.

HUNGRY SEAGULL, de Leon Wang (China) – Em uma ilha não muito longe do continente, um casal de gaivotas se esforça na tentativa de alimentar seus filhotes, mas peixes, moluscos e insetos aquáticos estão sumindo da região devido à pesca excessiva e à poluição dos mares. As aves chegam a buscar em aterros algum alimento para seus filhotes. Triste, desesperador.

OLMO, de Silvio Soldini (Itália) – Um senhor de oitenta anos tenta explicar para seu neto de oito sobre o derretimento das geleiras, o efeito estufa e a importância das árvores para amenizar a quantidade de dióxido de carbono presente na atmosfera. E leva o menino – escondido de sua filha, a mãe dele – para conhecer uma árvore especial de sua infância. Uma declaração de amor à natureza.

KA MUA KA MURI – WAKING BACKWARDS INTO THE FUTURE, de Karin Williams (Nova Zelândia) – O personagem principal é um garoto que, ao longo do tempo, observa e mostra o potencial do homem para a destruição do meio ambiente e sua auto-destruição. Ele narra costumes desde a época dos povos originários da Polinésia até o impacto do turismo e do consumo. A história perpassa a construção do aeroporto local, construído durante a segunda guerra mundial. Papo reto.

LAST DANCE, de Ása Hjörleifsdóttir (Islândia) – Um casal parte para o inóspito litoral da Islândia, lugar onde a natureza nativa que predomina é impactante, principalmente para quem perdeu a conexão com o meio ambiente. A ilha, de certa forma, consegue provocar emoções esquecidas, mas a natureza chora, lembrando que, assim como em um relacionamento, ela precisa de amor e respeito para sobreviver. Realista e visceral.

ATW no mundo e no Brasil

Interdependence recebeu apoio financeiro das Nações Unidas em Genebra, da Organização Meteorológica Mundial (OMM) e da cidade de Milão (IT). E o patrocínio se estendeu a inúmeras empresas internacionais que se mostram preocupadas em alertar o mundo sobre as mudanças climáticas.

A estreia aconteceu em outubro do ano passado, no Festival Internacional de Cinema de Roma. E, desde então, o filme já participou de mais de 20 festivais de cinema em todo o mundo. E sua distribuição comercial será feita pela EBU (European Broadcasting União) e por emissoras de serviço público em toda Europa.

Nesta produção, a organização não-governamental ART for The World ainda contra com a parceria da Direção Suíça de Desenvolvimento e Cooperação do Ministério das Relações Exteriores que, junto com os demais parceiros, participa ativamente da promoção e da distribuição em seus próprios circuitos ao redor do mundo.

Mas, como seu objetivo é disseminar conhecimento, Adelina também desenvolveu um programa educacional mundial para distribuir o filme nas universidades, redes de ONGs, museus, instituições culturais, escolas e mídias sociais, que ainda apoia oficinas, bate-papos e atividades educacionais.

Tolerância, solidariedade e educação

A missão da ART for The World é “criar, por meio da linguagem universal da arte, um diálogo significativo e duradouro entre pessoas e culturas, a fim de incentivar a tolerância e a solidariedade e promover a educação como um direito humano“.

Por isso, a ONG trabalha com a comunidade artística e com instituições que defendem e promovem os princípios dos direitos humanos como as Nações Unidas (ONU); a Organização Mundial da Saúde (OMS); o Alto Comissário para os Refugiados (ACNUR) e o Parlamento Europeu.

Em geral, a organização apresenta seus projetos em locais fora do circuito tradicional de arte contemporânea, como monumentos antigos, mosteiros, edifícios públicos, escolas, parques e outros espaços abertos. E, além de exposições, organiza palestras, conferências, publica livros e produz filmes.

A ONG mantém sedes em Genebra, Suíça e Itália, além de uma grande rede de colaboradores e instituições parceiras em vários continentes, como o Sesc São Paulo no Brasil, desde 2008, para a produção de filmes e a realização de atividades educacionais atreladas às obras de Adelina. 

A primeira produção conjunta foi em 2008, com o lançamento do filme Histórias de Direitos Humanos. Além do Sesc São Paulo, esta iniciativa teve a parceria do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos em realização conjunta com a European Commission, do Ministère Français des Affaires Étrangèrés et Européennes. Em 2010, o Sesc São Paulo também foi parceiro da ART for The World na realização do filme Além das Fronteiras e Diferenças sobre a interação entre diferentes religiões, culturas e nações. 

Agora, assista ao teaser de Interdependence:

Fotos: Divulgação

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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