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Inovafito Brasil: plataforma leva plantas nativas à farmácia, conectando pesquisadores, investidores e agentes

InovaFito Brasil: plataforma leva plantas nativas à farmácia, conectando pesquisadores, investidores e agentes

Por Marion Frank*

No país de maior biodiversidade do planeta, quem procura, na farmácia, medicamentos produzidos a partir das nossas plantas volta para casa quase sempre com similar sintético e estrangeiro. Caso corriqueiro: o ácido acetilsalicílico (aspirina), pois não há fitoterápico semelhante regulamentado pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

Exceções honrosas no enredo nacional são o guaco (Mikania glomerata), que trata bronquite, e a espinheira-santa (Monteverdia ilicifolia), que alivia problemas de estômago, substituindo remédios à base de omeprazol.

Mas há um novo capítulo desta história em construção, a plataforma InovafitoBrasil. Lançada em caráter experimental há cerca de um ano, ela detalha, em roteiro online, as etapas de pesquisa e desenvolvimento de um fitoterápico nacional, municiando o pesquisador a respeito de tudo o que precisa fazer da ideia até o mercado. Não por acaso, já vem sendo considerada um divisor de águas para o estudo da biodiversidade brasileira.

“A InovafitoBrasil diminui os riscos tecnológicos da pesquisa, racionaliza os investimentos de cada etapa e facilita o entendimento entre instituições científicas e investidores”, ressalta Cristina Ropke, diretora de inovação da Centroflora e uma das responsáveis pela gênese da plataforma.

“Era preciso estimular a pesquisa clínica da nossa biodiversidade”, diz, apontando para a ausência de trabalhos inovadores, daí a intenção de construir um banco de projetos. 

“O mulungu (Erythrina sp.), calmante, e o chambá (Justicia pectoralis), expectorante, são exemplos de uso tradicional sem registro da Anvisa pela falta de dados, deficiência que o nosso roteiro pretende corrigir”, diz ela.

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Sementes de mulungu
Foto: Costa PPR, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

Sistema da Nasa para avaliar projetos

Para colocar a ideia em prática, Ropke encontrou o parceiro ideal em Eduardo Pagani, então filiado ao Laboratório Nacional de Biociências (LnBio), do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM). Afinal, foi dele a iniciativa de montar a plataforma segundo o conceito de maturidade tecnológica, o TRL (Technology Readiness Level, no original em inglês), criado pela Nasa, a agência espacial norte-americana.

Trata-se de um sistema de medidas e parâmetros que avalia o projeto de pesquisa do fitoterápico do ponto de vista tecnológico ao longo de nove fases – a nona é a mais avançada. 

“O TRL foi criado para padronizar essa avaliação e pode ser aplicado a vários setores de tecnologia”, conta Pagani. Montada sobre perguntas, em que cada questão corresponde a tarefas que o pesquisador realiza para seguir adiante, a plataforma deixa claro na resposta em que nível de maturidade tecnológica o trabalho se encontra.

Outra parceria: Maria Behrens, chefe do departamento de produtos naturais da Farmanguinhos, instituto de tecnologia em fármacos da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), que participou na montagem da estrutura da plataforma. Foram dois anos de discussões conceituais, envolvendo outros especialistas e a própria Anvisa (que revisou a plataforma e deu ok).

“Um dos nossos maiores desafios foi definir quais etapas de pesquisa e desenvolvimento deveriam constar dos primeiros níveis de TRL”, lembra Behrens. “São provas que indicam, por exemplo, o que ainda pode melhorar sobre a proposta apresentada.”

Para se ter ideia do rigor aplicado, ainda nas primeiras fases a InovafitoBrasil exige a chamada “experimentação exploratória”, com resultados (químicos) de bancada que proporcionam “um mínimo de validação ao projeto em vista, antes de propor a prova de conceito clínica”, acentua Ropke.

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Folhas de espinheira-santa
Foto cedida pela Centroflora

Porque um dos obstáculos mais frequentes em pesquisa de fitoterápico é que o ativo proposto não se encontra bem caracterizado, obrigando que o estudo seja refeito e explodindo os gastos de produção. “O InovafitoBrasil corrige o problema do financiamento de pesquisas avançadas em projetos imaturos, algo que assisti com tristeza em mais de 20 anos atuando no setor”, admite Pagani.

De fato, são inúmeros os requisitos – e de dificuldade extrema, na maioria –, ao pesquisador brasileiro que pouco entende do desenvolvimento de um fitoterápico segundo o que é hoje exigido, ao redor do mundo, a respeito de segurança e eficácia. 

Em ciência, não dá para pular casas, supondo o tabuleiro de um jogo, para ser rápido e otimizar gastos. Há uma sequência de testes a cumprir de modo a ter o ativo (ou seja, o extrato vegetal) validado e ser apresentado em prova de conceito, citando uma etapa do longo processo.

Banco de dados de 3.700 plantas nativas

No Brasil, assim como em países da Europa, também é permitido o registro de medicamento fitoterápico de uso tradicional, ou seja, em que o emprego pela população é comprovado há décadas. De fato, a própria OMS (Organização Mundial de Saúde) recomenda aos países de rica biodiversidade que invistam na produção desse tipo de remédio, pois privilegia a relação de custo e benefício aos de menor poder aquisitivo.

É o caso do bálsamo da copaíba (Copaifera sp.), cujos registros na cura de feridas remontam ao final do século 16. Quem garante e dá prova é Maria das Graças Lins Brandão, presidente do Instituto Cayapiá, dedicado à defesa e conservação das plantas nativas usadas pelos brasileiros.

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Árvore de copaíba
Foto: Jonathan Wilkins, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons

Um dos trabalhos mais reluzentes do instituto é o Dataplamt, base de dados bibliográficos que reúne informações sobre 3.700 plantas nativas de uso medicinal, a partir de fontes (livros, sobretudo) que documentam a história natural do Brasil colônia até 1950.

Assim, quem ali pesquisa encontra depoimentos de Auguste Saint-Hilaire, o naturalista francês que viajou por estes trópicos no século 19 e se encantou com as espécies vegetais, boa parte delas já extinta, caso da jabuticaba-branca (Plinia aureana), que trata diabetes, e da ipecacuanha (Psychotria ipecacuanha), vomitiva e expectorante, por exemplo.

Sim, o Dataplamt faz foco em manter vivo o passado da nossa biodiversidade, pois, a partir dos anos 1950, “a fitoterapia brasileira virou uma bagunça, com a invasão da indústria farmacêutica, o desmatamento e o êxodo rural”, registra Brandão.

Ela começou a montar o banco de dados 20 anos atrás, pesquisando a natureza ao longo da Estrada Real, que unia Ouro Preto ao Rio de Janeiro e São Paulo em tempos coloniais. 

Professora aposentada de Farmácia da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), Brandão conhece bem a falta de informação dos estudantes sobre o uso ancestral das plantas brasileiras e a consequente dificuldade em delimitar uma pesquisa fitoterápica.

“O Dataplamt tem também essa função, dar um norte aos estudos das nossas plantas”, afirma Brandão, a quem a criação do InovafitoBrasil é bem-vinda: “Ele orienta todos.”

Para Cristina Ropke, o Dataplamt facilita a vida do pesquisador ao reunir histórias e dados espalhados Brasil afora sobre a planta em estudo. “Ele é essencial para montar o dossiê que vai a registro na Anvisa”.

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Flor de chambá
Foto: Barry Hammel em VisualHunt.com

Hoje, existem 83 projetos cadastrados no InovafitoBrasil, que aproveitam o roteiro em diferentes níveis. Quanto ao investidor, ele também se serve da plataforma para localizar a pesquisa que mais se adapta à área de interesse, por exemplo. Resultado: a plataforma já é usada como referência em projetos fitoterápicos pela Finep – Financiadora de Estudos e Projetos, do Ministério de Ciência e Tecnologia.

Em junho, o InovafitoBrasil ganhará versão em inglês e, em novembro, organizará uma cúpula do setor no Rio de Janeiro. 

“Será o momento perfeito para reunir todos os que trabalham com biodiversidade no país, aproximando pesquisadores de possíveis parceiros”, comemora Isabela Allende, da Biominas Brasil, que cuida da gestão da plataforma.

“O grande desafio é mudar a mentalidade reinante, pois ainda há desconfiança em tornar a pesquisa pública e temor em investir no que é inédito”. A meta é ambiciosa: chegar ao fim do ano com 500 projetos inscritos na plataforma. “E fazê-los avançar”, promete ela.

* Este texto foi originalmente publicado no site Mongabay Brasil em 23/5/2024
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Montagem (destaque) com fotos de Centroflora, Barry Hammel (VisualHunt.com) e Costa PPR

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