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‘Índio do buraco’ será sepultado na Terra Indígena Tanaru, em Rondônia, onde viveu sozinho desde o massacre de seu povo em 1995, diz MPF

Atualizado em 30/1/2023
Uma câmera instalada pela Funai – Fundação Nacional dos Povos Indígenas, do lado de fora da palhoça onde o “índio do buraco” morou e foi enterrado, registram a presença de fazendeiros Terra Indígena Tanaru, muito cobiçada na região. “As imagens mostram dois homens circulando o exterior da casa e olhando para o interior, pela porta. Um está de chapéu e o outro de boné, facão na cintura e por vezes aparece com o celular na mão”, divulgou o Ministério dos Povos Indígenas, em seu Instagram. O MPF (Ministério Público Federal) publicou nota informando que notificou os fazendeiros e os alertou a não entrarem mais nessa terra.

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Por Josi Gonçalves*

O corpo do último indígena Tanaru, encontrado morto na semana passada por uma equipe da Funai (Fundação Nacional do Índio), foi enviado em 28 de agosto, de Porto Velho para Brasília, para perícia minuciosa de legistas do Instituto Nacional de Criminalística (INC) da Polícia Federal.

E, segundo o Ministério Público Federal, assim que todos os exames forem concluídos, o corpo do “índio do buraco”como era conhecido o único sobrevivente da Terra Indígena (TI) Tanaru, localizada em Chupinguaia, a cerca de 533 quilômetros de Porto Velho – voltará para Rondônia e deverá ser sepultado na área em que viveu sozinho e no isolamento desde 1995. A data do retorno ainda não foi confirmada pela Funai.

O grupo de peritos do INC tentará detectar a causa da morte do indígena, assim como fará exames toxicológicos e de antropologia forense, que podem trazer respostas sobre a etnia do indígena. 

A equipe é a mesma que trabalhou nos laudos das vítimas dos desastres ambientais de Brumadinho e Mariana, em Minas Gerais, e do indigenista brasileiro Bruno Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips, assassinados em junho, na TI Vale do Javari, no Amazonas.

A reportagem da Amazônia Real apurou com um indigenista de Rondônia, que pediu para permanecer anônimo, que o “índio do buraco” era monitorado periodicamente, a cada três meses, pela Frente de Proteção Etnoambiental Guaporé (FPE-Guaporé), ligada à Coordenação-Geral de Índios Isolados e de Recente Contato (CGIIRC) da Funai.

Tal vigilância pretendia verificar as movimentações do indígena Tanaru e possíveis invasões no território. Durante essas incursões de vigilância câmeras foram instaladas para detectar a presença e ações do indígena e registrar imagens dele. Cada câmera era recolhida ao final de cada atividade.

O espaçamento de tempo entre uma visita e outra tinha como objetivo evitar o trânsito de não-indígenas dentro do território para não contaminá-lo com doenças. Segundo o indigenista, o “índio do buraco” parecia estar bem no último monitoramento, realizado em maio.

Porém, na mais recente ação de acompanhamento, na semana passada, ele foi encontrado morto. É por esse motivo que se estima que a morte tenha acontecido há mais de um mês. A perícia deve precisar a data com exatidão.

O futuro da Terra Indígena Tanaru

O indígena Tanaru vivia em 8.070 hectares do território, localizado no perímetro aproximado de 50 quilômetros entre os municípios de Chupinguaia, Corumbiara, Parecis e Pimenteiras do Oeste. Na região há muitas fazendas de produção agropecuária. Por não ser demarcado, o território está sob ameaça de invasões e ataques.

Ele foi visto, pela primeira vez, em 1996 pela equipe do sertanista Altair José Algayer, o mesmo que encontrou o indígena isolado morto na rede na semana passada.

“Ele foi encontrado na rede e coberto de penas de arara. Ele estava esperando a morte, não tinha sinais de violência”, contou o indigenista Marcelo dos Santos, que trabalhou no monitoramento do território com Algayer (como publicamos aqui).  

Ele era chamado do “índio do buraco” porque escavava (foto abaixo) dentro da maloca, feita de palha (foto que ilustra este post).

Um dos buracos feitos pelo último indígena Tanaru e encontrados pela Funai / Foto: Survival Internacional/Divulgação

Em 1998, a TI Tanaru foi classificada como de restrição de uso, o que foi reforçado pela portaria 1.040/2015. Assim, o ingresso, a locomoção e a permanência de pessoas estranhas no território fica restrito aos quadros da Funai. A portaria é válida até 2025, portanto, daqui a três anos, esse regulamento, que torna ilegal a exploração e a entrada de invasores nesse território, expira. 

À reportagem, Santos informou que “a ideia da Funai é transformar o local em centro de formação para atividades voltadas à proteção de índios isolados”. Segundo ele, o MPF de Vilhena, Cone Sul de Rondônia, vai solicitar um levantamento arqueológico da área para definir as estratégias que deverão ser adotadas em relação ao futuro da terra Tanaru.

Segundo a Funai, ao longo de 26 anos, 53 habitações do indígena Tanaru foram encontradas e todas seguiam o mesmo padrão arquitetônico: uma única porta de entrada/saída e sempre com um buraco no interior da casa.

Em entrevista ao programa Globo Amazônia, o sertanista Algayer disse que acreditava “que o buraco tenha valor místico para o indígena”, e que ele se alimentava de “animais como porco-do-mato, jabuti e pássaros, caçados com flecha ou capturados em armadilhas, e também de mel”.

Sensação de perda

André Karipuna, cacique do povo Karipuna, de Porto Velho, disse que, mesmo não pertencendo à mesma etnia do “índio do buraco”, a sensação é de perda.

Cacique André Karipuna / Foto: Alexandre Cruz Noronha/Amazônia Real

“É muito triste. É meu povo também. É um parente nosso que se foi e deveria ter tido mais proteção. Mas, infelizmente, todos nós sofremos muitas pressões”.

Outra liderança, Adriano Karipuna, ativista indígena ambiental, atribui ao presidente Jair Bolsonaro o encolhimento e extinção dos povos indígenas. “O atual presidente cumpriu com todas as ameaças de campanha e sucateou os órgãos ambientais administrativa e financeiramente. Propositalmente. Nossos territórios ficaram desprotegidos”.

O líder indígena Karipuna considera que, se o povo Tanaru tivesse tido proteção do Estado, não teria desaparecido. Adriano informa que, assim como o “índio do buraco”, seu povo também já esteve na iminência de ser extinto. Meio século atrás havia só cinco Karipuna em Porto Velho.

“Meu povo é um povo de resistência, quase fomos extintos na década de 1970 por causa de sarampo, coqueluche, catapora. Meus parentes também foram mortos, assassinados em 1912 em nome da economia, do desenvolvimento (Construção da Estrada de Ferro Madeira Mamoré – EFMM). O Estado brasileiro deve muito para a população indígena”, cobrou.

Ainda segundo ele, o povo Karipuna conseguiu se manter viva em Rondônia graças a medidas como o distanciamento social da civilização. Destino diferente do povo Tanaru. 

Com a morte do último habitante da TI Tanaru, lideranças dos povos indígenas de Rondônia manifestam preocupação com o destino da área que o “índio do buraco” habitava.

O futuro da terra: memorial ou ocupação?

Almir Narayamoga Suruí, liderança da TI Sete de Setembro, em Cacoal, Rondônia, é reconhecido internacionalmente por lutar contra as ameaças envolvendo posseiros, madeireiros, mineradores e outros interessados nas terras dos Suruís.

Almir Suruí, liderança do povo Paitér Suruí / Foto: Cine Amazônia/Divulgação

Ele afirma que teme a invasão da TI Tanaru e pensa que a área deve ser transformada em um memorial de resistência dos povos indígenas. “Seria muito importante para os indígenas e para o Brasil também, reconhecer toda a resistência dos povos indígenas à frente dos desafios e problemas que são enfrentados. Vamos lutar para isso!”.

O líder Suruí também reforça que é preciso defender os povos indígenas isolados que ainda vivem no Estado. “Temos que proteger e preservar as regiões onde eles estão habitando, definindo esses territórios para eles. É isso que temos que fazer, para isso (extinção de um povo indígena) não acontecer mais uma vez no Brasil”.

Adriano Karipuna idealiza um futuro diferente para a Terra Tanaru. “Muitos povos indígenas estão em busca da retomada de seus territórios. Cabe a eles decidir se querem ir para essa terra”, declarou.

Escritora e educadora, Márcia Mura, do povo Mura, disse que se encheu de tristeza com a morte do indígena isolado e sentiu um pesar muito grande.

“Fiquei imaginando a solidão e a dor que ele deve ter sentido esse tempo todo, fugindo, se escondendo, sabendo que poderia morrer a qualquer momento, morto por invasores, por latifundiários, por assassinos. Saber que era o último de seu povo, é extremamente terrível isso”.

Márcia também defende que a TI Tanaru deve ser preservada. “Acredito que esse território, que ele defendeu até o último dia de sua vida, tem que se manter como território indígena. Tem que garantir esse território para os povos indígenas. Não se pode deixar que os fazendeiros e latifundiários ocupem essa área!”.

(a seguir, trecho incluido por Conexão Planeta)

Vídeo da Funai e o massacre de Corumbiara

Em 2018, uma equipe de proteção da Funai gravou cenas do ‘índio do buraco’ na mata, que a ONG Survival International publicou ontem, em seu Instagram (reproduzimos abaixo) para contar sobre sua morte, sua história e pedir a adesão de seus seguidores à Declaração Global pelos Indígenas Isolados: basta assinar uma petição online.

O indígena isolado resistiu a qualquer contato depois de sucessivos massacres que dizimaram seu povo. Em 2009, no documentário Corumbiara, o cineasta e documentarista Vicent Carelli contou a história desses ataques aos indígenas que viviam na terra Tanaru, com base nas denúncias denúncias do indigenista Marcelo Santos.

Este foi o primeiro filme da trilogia de Carelli, da qual fazem parte Martíriolançado em festivais de cinema em 2016 e no circuito comercial em 2017 (publicamos artigo do sociólogo e jornalista Felipe Milanez a seu respeito, aqui),Adeus, Capitãolançado este ano no Festival É Tudo Verdade.

Depois do vídeo da Funai, assista ao documentário Corumbiara (na íntegra):

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Foto (destaque): maloca do ‘índio do buraco’ fotografada por J.Pessoa, da Funai

*Este texto foi originalmente publicado pela agência Amazônia Real em 29/8/2022 e adaptado/editado por Mônica Nunes para publicação aqui, no Conexão Planeta.

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