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Indígenas Guarani fazem ato pela demarcação de suas terras após estreia da ópera ‘O Guarani’, no Theatro Municipal de SP

Quem assistiu a versão descolonial do pensador e líder indígena Ailton Krenak para a ópera O Guarani, de Carlos Gomes, na ultima sexta-feira, 12/5, no Theatro Municipal de São Paulo (sobre a qual contamos aqui), teve motivos de sobra para se emocionar. Também depois do fim do espetáculo.

Os atores e cantores indígenas da etnia Guarani que participaram da encenação ocuparam as escadarias do icônico teatro e fizeram uma bela e pacífica manifestação musical pela demarcação de 12 terras Guarani localizadas no sul e sudeste do país (na segunda fileira, no canto direito, está Davi Wera Popygua Ju, que representou o indígena Guarani na ópera e é um dos líderes do povo que vive na região do Pico do Jaraguá).

Aproveitaram a oportunidade e a presença do público e de todos os participantes da ópera – do elenco à produção, passando pelos diretores e pessoal dos bastidores – para dar maior visibilidade à sua reivindicação (eles lançaram uma campanha para o governo, como contamos mais adiante) e pedir ajuda e engajamento.

No sopé da escada, quatro indígenas seguravam uma faixa branca na qual estava escrito: “Não está tudo bem! O povo Guarani sofre sem demarcação. Por favor nos ajude!”.

O manifesto nas escadas deu continuidade à uma das últimas cenas apresentadas pelos indígenas na ópera, durante a qual eles estenderam uma faixa que dizia: “Demarquem Yvyrupa” (explico o significado a seguir).

“Demarquem Yvyrupa” diz a faixa estendida pelo povo Guarani em cena da ópera que recebeu nova concepção de Ailton Krenak / Foto: Richard Wera Mirim

Ameaças e conflitos

Por conta de conflitos com invasores, o povo Guarani se dispersou e vive em diferentes regiões do sul e do sudeste do país.

Um desses grupos – Guarani Mbya – está concentrado na região do Pico do Jaraguá, na periferia de São Paulo. São de lá os indigenas que participam da nova montagem de O Guarani, ópera de Carlos Gomes (1870) inspirada no romance de José de Alencar (1857), entre eles o protagonista da história.

Há décadas eles lutam para evitar a invasão de suas terras e o avanço da especulação imobiliária. Quando Jorge Doria tornou-se prefeito da capital, a situação piorou muito, e assim prosseguiu sob o comando de seu substituto Bruno Covas.

Em 2019, no primeiro ano do governo Bolsonaro, Davi Popygua fez declaração comovente no Festival Lollapalooza, em São Paulo, durante o qual protestou contra o genocídio indígena e pela demarcação de terras no país (no link indicado acima, assista ao seu discurso).

Em fevereiro de 2020, os Guarani Mbya resistiram à invasão de uma construtora ao lado de sua aldeia, área que reivindicavam para a criação de um parque ecológico (a construtora chegou a derrubar 500 árvores no local).

Em março, mantinham-se em vigília no terreno para evitar a invasão dos funcionários e tratores da empresa, aguardando a decisão da justiça. Dias depois veio a pandemia da covid-19 que deixou-os ainda mais vulnerabilizados. E a luta continuou intensa até o fim do governo Bolsonaro.

“Demarque Yvyrupa”

Com Lula, a esperança voltou para todos os Guarani, não só devido às promessas feitas pelo presidente quando candidato, mas também porque, rapidamente, criou a principal delas: a criação do Ministério dos Povos Indígenas, dirigido por Sonia Guajajara.

Em 15 de fevereiro, lideranças do povo Guarani no sul e no sudeste do país aproveitaram a onda para lançar a campanha #DemarcaYvyrupa que reivindica a demarcação de 12 Terras Indígenas Guarani sem nenhuma pendência jurídica para avançar nos processos (assista ao terceiro vídeo no final deste post).

Para tanto, enviaram canetas decoradas com grafismos de seu povo para o presidente Lula e a ministra Sonia pedindo que assinassem logo essas demarcações.

De acordo com a Comissão Guarani Yvyrupa (CGY), organização do povo Guarani que articula aldeias no Sul e Sudeste, foi realizado levantamento detalhado que comprova que não existem pendências para a demarcação das referidas terras. Para a CGY, elas só não foram demarcadas pela paralisação ilegal dos processos por Sergio Moro, ministro da Justiça do governo Bolsonaro.

Em 28 de abril, último dia do Acampamento Terra Livre (ATL), na companhia de Sonia e da presidente da Funai, Joenia Wapichana, Lula assinou a homologação de seis terras indígenas (como contamos aqui). Os territórios Guarani não estavam entre elas.

A seguir, assista à apresentação filmada por Richard Werá Mirim (na segunda imagem) para o perfil Mídia Guarani Mbya, no Instagram (ele também é o autor das fotos) e a campanha Demarque Yvyrupa pela demarcação das terras Guarani:


Foto: Richard Werá Mirim/Mídia Guarani Mbya

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