Incubadora de Cooperativas Populares da USP lança publicação pra contar sua história

Incubadora de Cooperativas Populares da USP lança publicação pra contar sua história (e da economia solidária)

Nas universidades brasileiras, a área de extensão tem sido bastante ativa no fomento e apoio a empreendimentos da economia solidária. Várias delas, públicas ou privadas, possuem incubadoras para dar suporte e fortalecer cooperativas e outras formas de associação pautadas pelos valores desse tipo de economia.

Entre elas, a atuação da ITCP-USP (Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares da USP) merece grande destaque por sua contribuição ao campo da economia solidária no país, com a presença e atuação de Paul Singer, um de seus fundadores, e outros profissionais da USP.

A Incubadora acaba de ganhar uma publicação que sistematiza seus 20 anos de atuação, completados em 2018, e que permite conhecer melhor a amplitude do trabalho nas duas últimas décadas.

Em Sistematização dos 20 anos da Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares da USP, é possível acessar a trajetória da Incubadora por períodos históricos e compreender sua importância.

No primeiro período de atuação (1998-2001), a publicação permite compreender o contexto em que se constituíram as ITCPs no país, além do início da atuação da Incubadora da USP e suas bases metodológicas.

Entre 2002 e 2005, a ITCP-USP passa a atuar com as prefeituras municipais de Guarulhos e São Paulo.

De 2006 a 2011, a Incubadora sofre uma reestruturação, continua a atuação nas regiões sul e oeste da cidade de São Paulo e inicia uma experiência de articulação estadual. Também nesse período inicia a parceria com o Movimento Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis.

Entre 2012 e 2016, além da continuidade do trabalho com os catadores, a ITCP-USP participou da criação dos pontos de economia solidária e saúde mental, sobre os quais já escrevi aqui, no Conexão Planeta, e de novas articulações.

E de 2017 a 2018, a Incubadora focou suas atividades no fortalecimento no território do Butantã, zona oeste de São Paulo, com parceria junto ao Ponto de Economia Solidária e Cultura do Butantã, com o qual atua ainda hoje promovendo formações sobre economia solidária para a comunidade no entorno e incubação de empreendimentos que atuam no local.

O surgimento das ITCPs

A publicação resgata o contexto de surgimento das ITCPs na década de 1990, em um momento de implementação de políticas e projetos econômicos neoliberais marcados pela diminuição do estado e privatizações de empresas.

Havia uma grande crise econômica no Brasil, com redução de postos de trabalho, aumento de desigualdades, desemprego e fome. Assim, as Incubadores surgem como uma das respostas de organizações sociais para o enfrentamento deste quadro, juntamente com a organização dos movimentos sociais pela democratização do país.

A primeira ITCP surgiu vinculada à COPPE (Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia) da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Na USP, o grupo que inicialmente se articulou para a criação da Incubadora estava vinculado à CECAE (Coordenadoria Executiva de Cooperação Universitária e de Atividades Especiais), cujo objetivo era auxiliar as unidades universitárias nas atividades de extensão.

Em busca de alternativas para a geração de trabalho e renda, a CECAE soube da experiência da ITCP-UFRJ e partiu para conhecer o trabalho. Paralelamente, um grupo liderado por Paul Singer, da Faculdade de Economia e Administração, dedicava-se ao estudo de experiências históricas de autogestão.

Houve, então, uma articulação entre essas forças, e a ITCP iniciou suas atividades já como uma equipe multidisciplinar e como projeto de extensão.

Atuação junto a prefeituras

Prefeituras municipais iniciaram também atividades de apoio à geração de renda como resposta à crise. A primeira demanda de envolvimento da ITCP-USP nesses processos foi junto a servidores do município de Praia Grande, que atuavam com catadores.

Mas só em 2001, a partir de um contrato com a prefeitura de Guarulhos e, na sequência, com a Prefeitura de São Paulo, esta forma de atuação foi discutida e melhor estabelecida.

Em Guarulhos, foi realizada a Escola Itinerante, processo rico de atuação com grupos organizados e de formação de base para trabalhadores que procuravam a Secretaria do Trabalho.

Em São Paulo, durante a gestão de Marta Suplicy, a publicação informa que, com a criação da Secretaria de Desenvolvimento do Trabalho e Solidariedade, Paul Singer foi convidado para discutir a concepção da nova secretaria e foi criado o Programa Oportunidade Solidária, articulado às políticas de redistribuição de renda.

A ITCP-USP incubou também a montagem de outras incubadoras, como as da FGV (Faculdade Getúlio Vargas) e da PUC (Pontifícia Universidade Católica).

E posteriormente, com a criação da Secretaria Nacional de Economia Solidária (SENAES), Paul Singer e outros formadores da ITCP-USP foram trabalhar no governo federal.

Análises

A Incubadora da USP disponibilizou também, de modo complementar à publicação que analisa seus 20 anos, um banco de artigos que aborda temas variados como o trabalho de extensão, metodologias, a relação da economia solidária com a democracia, contribuição para o desenvolvimento local e pedagogia da autogestão.

A organização coletiva de consumo, clubes de compras, estudos de caso, o lugar dos jovens no cooperativismo, bancos comunitários, moedas sociais e políticas públicas completam os temas abordados, todos relacionados ao trabalho da ITCP-USP`.

Os textos contribuem para ampliar a compreensão de sua ampla contribuição para a economia solidária brasileira e para a extensão universitária, e podem ser acessados aqui.

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Edição: Mônica Nunes

Foto: USP/Divulgação

Mônica Ribeiro

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colabora com a revista Página 22 e com a AMAZ aceleradora de impacto. Atua nas áreas de meio ambiente, investimento social privado, economia solidária e negócios de impacto, linkando projetos e pessoas na comunicação para um mundo melhor

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