Incêndios no Pantanal ameaçam maior refúgio de araras-azuis do Brasil

Incêndios no Pantanal ameaçam maior refúgio de araras-azuis do Brasil

*Atualizado às 11h30

Os incêndios no Pantanal que já entram na quarta semana, destruindo a vegetação da maior planície de água doce do mundo e matando seus animais, chegaram à Fazenda São Francisco do Perigara, no município de Barão do Melgaço, no Mato Grosso. O local é o maior refúgio natural de araras-azuis do país.

Na última sexta-feira (14/08), apesar das chamas estarem próximas à fazenda, relato das redes sociais do Instituto Arara-Azul traziam boas notícias: que as araras continuavam por lá.

Mas em post divulgado neste domingo, acompanhado do vídeo mais abaixo, o instituto informou que, “… a área continua protegida, sem fogo. Mas, infelizmente, os relatos não são muito bons. Isso porque as aves, tanto as araras azuis quantos outros psitacídeos, que costumam ser contados em centenas, foram vistos em menor número. Com relação às araras azuis, foram apenas 30 indivíduos no dormitório. Antes disso, poucas vezes foram contadas menos de 100 – 150 araras”.

Incêndios no Pantanal ameaçam maior refúgio de araras-azuis do Brasil

Combate ao fogo no Pantanal

De acordo com a bióloga Luciana Ferreira, que trabalha no instituto e esteve no local, a fumaça, a falta de água e a secura do ambiente podem ter afetado as araras e impedido que a maioria delas se dirija ao dormitório.

“Torcemos para que a chuva chegue logo na região. E assim, diminua o perigo sobre essa área tão importante para todas as espécies que a utilizam há décadas para dormir, se alimentar, se proteger e se reproduzir!”, escreveu a equipe do Instituto Arara-Azul.

Ajude a salvar o dormitório das araras-azuis

A arara-azul (Anodorhynchus hyacinthinus) está ameaçada de extinção. Com 1 metro de comprimento, da ponta do bico até a ponta da cauda, ela é a maior espécie no mundo da família Psittacidae. Mas sem dúvida nenhuma, é sua plumagem de um azul cobalto intenso e o amarelo em volta dos olhos sua maior característica.

A espécie vive em grupo, em bandos de 10 a 30 indivíduos. Na região do Pantanal, 90% dos ninhos dessas aves são encontrados nas árvores de manduvi e são reutilizados de ano para ano.

Incêndios no Pantanal ameaçam maior refúgio de araras-azuis do Brasil

O Instituto Arara-Azul foi fundado há 30 anos pela bióloga Neiva Guedes, uma apaixonada pela espécie e uma referência mundial em conservação. Graças à sua determinação e do esforços do instituto, estudando a vida dessas aves, testando e produzindo ninhos artificiais, manejando ovos e filhotes e, acima de tudo, envolvendo a população e divulgando a importância de manter as araras livres na natureza -, a arara-azul, que ao final da década de 80 tinha uma população estimada em 1,5 mil indivíduos, hoje chega a 6,5 mil.

O número de queimadas nos primeiros dias de agosto já supera aquelas de julho inteiro no Pantanal do Mato Grosso. Ações integradas de equipes da Marinha, Exército, Força Aérea, Corpo de Bombeiros e brigadistas de organizações da sociedade civil não têm sido suficientes para controlar o fogo.

O Instituto Arara-Azul está promovendo uma campanha para arrecadar recursos com o objetivo de colaborar com as ações de proteção e prevenção contra os incêndios, e assim, proteger a área de dormitório das araras-azuis que ainda resta.

Para quem quiser ajudar, vale depositar qualquer valor na conta abaixo:

Banco Santander – 033
Agência 1313
Conta Corrente – 13000029-3
CNPJ: 05.910.537/0001-02

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Na semana passada, Neiva Guedes escreveu o artigo que reproduzimos abaixo e mostra a importância desse santuário, lugar único para a reprodução das araras-azuis no Brasil:

O que significa o fogo na Fazenda São Francisco do Perigara – refúgio das araras azuis no Pantanal Norte

A fazenda São Francisco do Perigara, está localizada no Pantanal de Barão de Melgaço no Estado de Mato Grosso, as margens do Rio São Lourenço, fazendo divisa com a Reserva Indígena Perigara, da etnia Bororo e a RPPN SESC Pantanal e entre outros.  A paisagem da fazenda é formada por vegetação típica do Cerrado e Pantanal. O manejo da fazenda é o típico do Pantanal, onde o gado se alimenta de pastagem nativa na maior parte do ano, propiciando uma boa interação entre a produção e a conservação.

Na sede da fazenda há uma concentração de palmeiras que se transformou num ponto tradicional de dormitório das araras azuis e outros papagaios. Esse local foi cercado e protegido há mais de 60 anos pelo pai das atuais proprietárias, Ana Maria e Maria Ignez. Assim, a propriedade acabou virando um refúgio, que é único no mundo, porque dezenas de araras-azuis se reúnem todo final de tarde, para pernoitar. Censos conduzidos desde 2001, demonstram que a população de 248 indivíduos, chegou há mais de 1000 araras, em 2014 (Scherer-Neto et al. 2019).

Ao longo do dia, as araras azuis, a maioria jovens não reprodutivos, seguem o gado pelos campos, aproveitando os frutos das palmeiras, que são trazidos do interior da mata, descarnados e regurgitados em montículos no campo, facilitando a alimentação das araras, especializadas nas castanhas de acuri e bocaiúva.

Desde 2005, o Instituto Arara Azul monitora os ninhos das araras na região, tendo instalado 20 ninhos artificiais em 2010. São mais de 30 ninhos naturais cadastrados e várias cavidades em formação, principalmente no manduvi, espécie arbórea onde são encontrados os ninhos das araras. Desde então, foram registrados o nascimento de mais de 60 filhotes de arara azuis na propriedade.

Segundo informação local, o fogo fugiu do controle na Reserva Indígena, no dia 30 de julho e chegou na fazenda SFPerigara no dia 01 de agosto, quando teve parte da mata de Cerrado queimada. Atualmente, com ajuda de brigadistas, ICMBIO, CEMAVE, Corpo de Bombeiros do MS e MT, Marinha, FAB, SESC e funcionários da fazenda estão sendo feitos aceiros e esforços para o controle do fogo, para que o dormitório e a parte do Pantanal não sejam atingidos, mas a situação é crítica e precisa de apoio de todas a forças públicas e privadas.

No Brasil, assim como em outras partes do mundo, a retirada das aves da natureza para o comércio ilegal e a degradação do hábitat constitui as principais causas para o declínio das populações.

A arara azul (Anodorhynchus hyacinthinus) Latham (1790), maior representante da família dos psitacídeos, saiu do Livro Vermelho de Espécies Ameaçadas de Extinção do Brasil em dezembro de 2014, mas continua como vulnerável na IUCN (União Internacional para Conservação da Natureza). Ela é uma espécie social, que vive em família ou grupos, conspícua, residente e com certa fidelidade aos sítios de nidificação. No Pantanal as araras utilizam ocos em troncos de manduvi (Sterculia apetala) para reproduzir, espécie-chave para esta população, uma vez que 94% dos ninhos desta ave são abrigados em cavidades existentes nesta árvore. Logo, a situação é preocupante, pois este é mais um desafio para as araras, que vêm sofrendo com a descaracterização do habitat, o tráfico de animais silvestres, e outras consequências das alterações climáticas, como o aumento da perda e predação dos filhotes.

Vale ressaltar que nesta propriedade, além das araras azuis, reúnem-se dezenas de papagaios, periquitos, maracanãs e vários outros exemplares da fauna.  Em trabalhos de campo, foram observados grupos com mais de 90 urubus-rei e espécies ameaçadas de extinção como onças pintadas, lobo guará e tamanduá bandeira. Pelo fato de ser realizado o manejo extensivo e tradicional do gado, fazendo rotação em pastagem nativa, a maior parte do ano e evitando o desmatamento da mata, esse tipo de manejo favorece tanto a produção do gado, que recebe uma alimentação orgânica, quanto beneficia o ambiente rico em alimentação para as araras e o restante da fauna, aumentando a relações ecológicas e consequentemente a conservação da biodiversidade. Logo, o fogo nesta região, causará grande impacto. Certamente afetará a oferta de alimentos, e com relação a reprodução, as poucas cavidades que restarem, serão altamente disputadas e ocupadas por abelhas, o que afetará o sucesso reprodutivo das aves na região. Além das araras azuis, ao longo dos anos foram registrados a reprodução das araras-vermelhas, ararinha de colar, tucanos, gaviões, corujas, urubus, pato-do-mato e mais 15 espécies.

Outra pesquisa realizada na Fazenda São Francisco do Perigara é a realização de censos no dormitório localizado na sede, desde 2001 pelo pesquisador Pedro Scherer-Neto. Uma análise destes resultados foi publicada num artigo científico em 2019, juntamente com Maria Cecília B. de Toledo e Neiva Guedes. Em 15 anos de censo, verificou-se que o número médio de indivíduos passou de 234 a 708 indivíduos. O maior número de araras registradas foi nos anos de 2013 e 2015, quando foram contabilizadas mais de 1.000 indivíduos na fazenda. O estudo mostrou uma taxa de aumento de 26 indivíduos ao longo do período de monitoramento de 15 anos. Ao longo dos anos, foram observadas flutuações temporais e sazonais das araras, ou seja, entre anos e nas estações de seca e cheia. Desta forma, o tipo de manejo tradicional de gado utilizado no local do estudo beneficia tanto a produção de gado quanto a conservação das araras devido às interações positivas entre os hábitos de alimentação do gado e as práticas de manejo em nível de paisagem que preservam o habitat das araras”.

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Fotos: reprodução Facebook Instituto Arara-Azul

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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