Incêndios de 2020 no Pantanal mataram 17 milhões de animais

Incêndios de 2020 no Pantanal mataram 17 milhões de animais

Uma análise feita por pesquisadores brasileiros após os incêndios que devastaram no ano passado quase 30% do Pantanal indica um número assustador: quase 17 milhões de animais vertebrados foram mortos diretamente pelo fogo. Até agora, não havia sido feita uma estimativa exata de mortes causadas pela tragédia. O resultado desse estudo inédito, que envolveu a participação de 30 especialistas de universidades, organizações não-governamentais e órgãos públicos e foi concebido e coordenado pela Embrapa Pantanal, já foi submetido à revista internacional Scientific Reports e agora aguarda aprovação de outros cientistas para ser publicado oficialmente.

Os pesquisadores adotaram a técnica de amostragem por distância para estimar as densidades e o número de vertebrados mortos numa área de 30 mil km2 afetados pelas chamas. O levantamento aponta que pelo menos 16.952 milhões de vertebrados perderam a vida durante os incêndios no bioma, uma tragédia sem igual na maior planície alagável de água doce do mundo.

No ano passado, na fase inicial do estudo, que durou entre agosto e novembro, conversei com Christine Strüssmann, professora da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), e uma das pesquisadoras que participou da análise. Ela explicou que a técnica utilizada era uma adaptação de um método chamado “distance”, originalmente empregado para estimativas de densidades de animais vivos.

“As contagens são feitas por um observador enquanto caminha ao longo de um transecto, olhando à direita e à esquerda e anotando as carcaças e sua distância até a linha central. Com isso podemos calcular as densidades de animais mortos, em diferentes ambientes”, contou.

Para quem não está familiarizado com o termo, transecto é uma linha traçada em um terreno, a qual contabilizará a área em que será estudada por cientistas. Para a pesquisa, foram percorridos 114 km de transectos, que variavam entre 500 metros e 3 quilômetros.

Os animais mortos encontrados com maior frequência pertencem a dois subgrupos, divididos por seu tamanho: os pequenos vertebrados, com menos de 2 kg, como cobras, anfíbios, lagartos, roedores e pássaros, e médios para grandes, com peso acima de 2 kg, como tamanduás, queixadas, capivaras, mutuns, grandes cobras e primatas. Todavia, as serpentes aquáticas representam 60% do total de óbitos.

“É muito difícil avaliar o real impacto da morte desses 17 milhões de indivíduos porque não há dados anteriores para se fazer uma comparação, do antes e do depois. Mas podemos imaginar que além desses animais que morreram imediatamente pela ação do fogo, outros foram morrendo ao longo das semanas seguintes, devido à queimaduras, falta de alimento, aumento da predação, dentre outros motivos”, destaca Walfrido Moraes Tomas, pesquisador da Embrapa Pantanal e coordenador do estudo.

Incêndios de 2020 no Pantanal mataram 17 milhões de animais

Cientista faz análise de cobras mortas pelo fogo

O número de 17 milhões é realmente uma estimativa. Ele pode ser muito maior. Já que alguns bichos podem ter morrido dentro de tocas, ou seja, não foram avistados durante o estudo, e outros podem ter sido completamente carbonizados pelo fogo.

“Nossos achados não incluíram a morte de várias espécies silvestres de grande porte mortas também pelos incêndios, que geralmente vivem em densidades relativamente baixas, como a onça-pintada, o puma, a anta e veados”, dizem os pesquisadores no artigo.

Christine destacou ainda que o estudo também incluiu dados sobre animais avistados com vida e aparentemente em bom estado de saúde, nestes mesmos transectos. Estes seriam os potenciais recolonizadores das áreas queimadas.

“Rastros, tocas, avistamentos diretos, mudas de pele recentes, enfim, muitas evidências interessantes, mesmo em locais de campo inundável que foram queimados com bastante intensidade. A mesma turfa que dá margem à ocorrência de fogo subterrêneo possivelmente garante um sistema de galerias até locais com estabilidade térmica e água/lama residual onde uma multidão se sobreviventes aguarda melhores condições para repovoar a planície”.

Incêndios de 2020 no Pantanal mataram 17 milhões de animais

Uma toca com sua área em volta totalmente coberta pelas cinzas dos incêndios:
teria o seu morador sobrevivido?

No artigo os pesquisadores alertam que o impacto cumulativo das queimadas generalizadas é catastrófico, pois a recorrência do fogo pode levar ao empobrecimento dos ecossistemas e à interrupção de seu funcionamento. Segundo o grupo, para que desastres como o que ocorreu no Pantanal em 2020, fruto do descaso de políticas públicas eficientes de controle às queimadas, não aconteçam novamente, é necessário estabelecer uma gestão adequada da biomassa combustível (limpeza da matéria orgânica) para evitar novos incêndios e os efeitos incalculáveis sobre a biodiversidade e os serviços ecossistêmicos.

“Como temos um cenário de mudança climática grave no Pantanal daqui pra frente, com menos chuva, temperaturas mais altas e secas mais intensas, o risco de incêndios repetitivos ao longo dos anos é muito grande. Então olhando esse número que produzimos e você imaginar que ele possa acontecer em larga escala nos anos subsequentes, o impacto na composição da fauna e o papel que ela tem no funcionamento do ecossistema vai ser altamente impactado. Se você começa a ter a diminuição de populações ou até mesmo, a extinção local de algumas espécies, em razão de incêndios frequentes – a fauna tem várias funções, como polinização, predação, dispersão de sementes e ciclagem de nutrientes, por exemplo -, você acabará tendo um lento colapso do ecossistema inteiro”, diz Walfrido Tomas.

Para ele, é essencial a partir de agora ter um monitoramento constante no Pantanal, além de estudos de campo frequentes. “Mas infelizmente, o Brasil investe muito pouco nessa área, em levantamentos de biodiversidade, de populações, a médio e longo prazo. A gente não tem recurso para isso. Não é priorizado. Aí quando acontece um problema desse, avaliar impacto fica praticamente impossível. Essa é uma questão muito séria que o Brasil precisa enfrentar até porque os cenários de mudanças climáticas vão dificultar ainda mais os trabalhos de conservação da biodiversidade”.

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Registro do trabalho feito pelos pesquisadores:
importantíssimo para quantificar o número de mortes da tragédia

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Fotos: Christiano Antonucci – Secom – MT/Fotos Públicas (abertura) e demais arquivo pessoal Christine Strüssmann

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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