Foto de indígena Zó’é carregando seu pai para vacinar viraliza na internet e revela um outro Brasil possível

Em Amazônia Latitude*

“Se uma imagem vale mais do que mil palavras”, dizia o escritor brasileiro Millôr Fernandes, “então diga isto com uma imagem”. Foi o que fez o médico neurocirurgião Erik Jennings Simões em janeiro de 2021 ao publicar, em seu Instagram, a foto do jovem indígena Tawy Zó’é, de 24 anos, carregando nas costas o pai, Wahu Zó’é, de 67 anos, para ser imunizado contra a covid-19.

Os Zó’e são um povo de recente contato com cerca de 300 indígenas que vivem no noroeste do Pará, perto da fronteira com o Suriname, em uma área de 668,5 mil hectares, de acordo com a Funai – Fundação Nacional do Índio. Tawy andou mais de seis horas entre subidas e descidas para vacinar o pai idoso, que tem problemas de saúde.

A foto foi feita há um ano, mas só foi compartilhada por Jennings no início de 2022, quando viralizou nas redes sociais (veja o post no Instagram, no final deste texto).

Como o próprio neurocirurgião explicou, em entrevista à BBC News Brasil, sua intenção com a publicação foi passar uma mensagem positiva no início do ano. Foi também uma forma de tentar enviar uma mensagem do povo Zó’é, porque eles sempre perguntam se o branco está se vacinando e se a covid-19 já acabou.

A polissemia da foto dos dois Zó’é é ainda mais poderosa quando se considera as fatais políticas públicas escolhidas pelo governo federal de Jair Bolsonaro para enfrentar a pandemia do coronavírus. No momento capturado pela câmera, misturam-se esperança com indignação, perseverança com morte.

As primeiras impressões, movidas pela esperança, foram de admiração pelo afeto e força de vontade do jovem. O desejo de proteger seu pai e sua gente faz com que Tawy seja um contraponto simbólico a Bolsonaro, que fez e (ainda faz) de tudo para desestimular a vacinação da população e as medidas de proteção sanitárias de indígenas.

O simbolismo é mais poderoso considerando que a palavra Zo’é’ significa ‘nós’, distintamente de ‘kirahis‘, os não-indígenas, as pessoas que não são daqui. Ao mesmo tempo que Tawy carrega o pai em suas costas, ele carrega nossa pequena, senão minguante, esperança de um futuro nacional afastado do ódio e da bile.

Observada por um viés antropológico, a imagem afasta o equívoco de que os Tupis abandonam os velhos à própria sorte. O que se viu foi que, os anciãos, são carregados (literalmente) pelos mais novos.

É uma imagem de eloquente amor entre pai e filho, de quase mover montanhas para assegurar a melhor prevenção possível contra o vírus.

Para uma sociedade que frequentemente esquece da importância dos mais velhos, a foto transmite o apreço deste povo indígena aos seus anciãos. A magnanimidade do gesto é tão grande quanto a significância dos idosos.

Em uma mensagem mais importante, a foto de Jennings testemunha a escassez de recursos destinados aos indígenas em território brasileiro pelo governo federal. Caso Tawy não fosse capaz de carregar o pai, quem garante que a vacina chegaria até ele?

Contudo, o povo Zo’é, em decisão conjunta com a equipe médica na área por mais de uma década, reinventou estratégicas de prevenção à pandemia levando em conta sua cultura, modos de vida e seu território protegido.

É fato conhecido que o governo de Bolsonaro enfrenta denúncias de genocídio contra os povos originários. Já são ao menos seis denúncias no Tribunal de Haia, enviadas por grupos de advogados, indígenas, ativistas e políticos.

São denúncias em relação às políticas colocadas em práticas pelo governo federal, como negação de água potável, vistas-grossas à invasão de grileiros e madeireiros, distribuição de remédios ineficazes para combater a pandemia.

A visão de Tawy carregando seu pai é agridoce. Na presença do afeto entre pai e filho, percebe-se um Estado insuficiente, que obriga que indígenas sejam advogados de si mesmos e dos seus para fazer valer seus direitos.

Apesar do Estado, personificado na pessoa do presidente Bolsonaro, se esforçar ao máximo para a população não se vacinar, Tawy e seu pai se vacinaram, como 67,86% da população brasileira.

Os Zo’é sobrevivem pela sua resiliência, apesar do governo. A dinâmica deste povo, que já passou por outras dificuldades sanitárias ao longo dos anos, baseia-se na capacidade de adaptação. Durante a pandemia não foi diferente. Foi uma estratégia própria, não somente de sobrevivência, mas de bem viver. Eles não foram impedidos de estarem felizes em seus territórios.

O idioma é um ramo da família de idiomas Tupi-Guarani.

*Este texto foi publicado originalmente no site Amazônia Latitude, em 14/1/2022

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Foto: Erik Jennings Simões/arquivo pessoal

Marcos Colón

Marcos Colón é escritor, doutor em português, professor do Departamento de Línguas e Linguística Moderna da Universidade Estadual da Flórida. Dirigiu e produziu o documentário 'Beyond Fordlândia: An Environmental Account of Henry Ford’s Adventure in the Amazon’ (Além da Fordlândia: um relato ambiental da aventura de Henry Ford na Amazônia), premiado em festivais internacionais.

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