Ilhas Faroé estabelece limite “máximo” de 500 golfinhos para abate durante evento anual, uma tradição milenar e controversa

Ilhas Faroé estabelece limite "máximo" de 500 golfinhos para abate durante evento anual, uma tradição milenar e controversa

Desde 2018 eu escrevo sobre essa “tradição” cruel e bárbara realizada todos os anos pelos moradores das Ilhas Faroé, um território da Dinamarca, localizado no Atlântico Norte entre a Escócia e a Islândia.

A tradição iniciada pelos povos Vikings, que já tem mais de 1 mil anos, é chamada de grindadráp, ou simplesmente grind e consiste no encurralamento de baleias e golfinhos em uma baía e a posterior matança dos cetáceos. Levados até ali por barcos, quando encalham na água de pouca profundidade, são facilmente mortos com facões. Geralmente é feito um corte no pescoço e depois, na coluna cervical.

As “regras” para a matança determinam que a morte dos animais deve ser rápida e sem sofrimento. Os envolvidos na prática precisam fazer curso e ter uma licença. Para a população de Faroé, a tradição promove a cultura e o senso de comunidade entre os moradores e também, fornece alimento (a carne), que é estocada durante vários meses.

Em setembro do ano passado, o número de golfinhos mortos provocou uma revolta e choque mundial. Quase 1.500 foram abatidos. E poucos meses antes, no verão, 615 baleias-piloto já haviam sido dizimadas.

Na época, a organização internacional Sea Shepherd denunciou que tinham sido cometidas várias irregularidades no “processo de abate” e foram mortos tantos golfinhos que haveria carne em demasia e provavelmente, os animais simplesmente seriam descartados antes que suas carcaças começassem a apodrecer. Eles precisariam ser jogados no lixo ou enterrados.

Depois da polêmica de 2021, o governo das Ilhas Faroé anunciou recentemente que impôs um limite máximo de 500 golfinhos que poderão ser mortos no próximo grindadráp.

“Temos ciência que os aspectos da captura [no ano passado] não foram satisfatórios, em particular o número incomumente grande de golfinhos mortos. Isso dificultou o gerenciamento dos procedimentos e é improvável que seja um nível sustentável de captura em uma base anual de longo prazo”, afirmaram as autoridades locais.

Ainda segundo o governo de Faroé, a população de golfinhos na região é de aproximadamente 80 mil indivíduos e que o abate de centenas deles por ano não afetará a conservação da espécie.

Em suas redes sociais, a Sea Shepherd criticou a cota máxima estabelecida. “Esta nova ‘cota’ não tem sentido para os golfinhos a longo prazo e só foi anunciada às pressas para enganar os políticos e a imprensa diante da indignação contínua pela matança de golfinhos nas Ilhas Faroé”.

Ilhas Faroé estabelece limite "máximo" de 500 golfinhos para abate durante evento anual, uma tradição milenar e controversa

Em 2021, foram mortos 1.428 golfinhos
(Foto: divulgação Sea Shepherd)

*Com informações da CNN Internacional

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Foto: reprodução Twitter Alastair Ward

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.