Horta Social Urbana: agricultura reintegra pessoas em situação de rua

A população em situação de rua no país cresceu 140% a partir de 2012, segundo dados do IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. O cálculo utilizou o censo anual do Censo SUAS (Sistema Único de Assistência Social), que reúne informações das secretarias municipais e do Cadastro Único do governo federal.

Proporcionar saúde, alimentação, recuperação da autoestima e inclusão para essas pessoas é tarefa complexa, que exige acolhimento e atuação em múltiplas frentes. E essa população encontra-se ainda mais vulnerável desde o início da pandemia, com o aumento da desocupação e com a crise econômica.

Em São Paulo, há organizações da sociedade civil que se dedicam a trabalhar com pessoas em situação de rua. Uma delas, a ARCAH Associação de Resgate à Cidadania por Amor à Humanidade, atua desde 2012 buscando reintegrá-las na sociedade.

Uma das frentes desenvolvida pela organização é um curso de agricultura urbana com práticas agroecológicas e oficinas de saúde, ministrado em um terreno localizado na Avenida Miguel Stefano, no bairro do Jabaquara, na cidade de São Paulo, oferecendo prática e teoria de plantio agroecológico.

As oficinas têm função de desenvolver habilidades socioemocionais dos educandos, ao mesmo tempo em que trabalham questões sobre mercado de trabalho e emprego e estimulam a retomada dos estudos na rede pública de ensino.

As pessoas que frequentam o curso são encaminhadas pelos Centros de Acolhida de São Paulo e outros equipamentos públicos. Ao término do curso, a ARCAH apoia os educandos para que consigam reingressar no mercado de trabalho ou gerar renda a partir de hortas urbanas.

Emprego, moradia e família

As atividades foram paralisadas por cerca de seis meses, em 2020, durante a pandemia, mas, no fim do ano, o curso foi retomado com protocolos sanitários e menos alunos por turma, todos usando máscara, em ambiente aberto.

No início de dezembro, após quinze semanas de aulas práticas e teóricas, mais dez pessoas em situação de rua concluíram o programa Horta Social Urbana. E novas turmas começaram agora, em janeiro.

Mais de 300 pessoas já passaram pelo curso. Segundo a ARCAH, cerca de 30% delas conseguiram emprego, nova moradia ou retornaram para suas famílias. E alguns dos formados passaram a trabalhar na horta que abastece um supermercado da rede Pão de Açúcar na zona sul de São Paulo.

Aproveitando espaços ociosos e ajudando pessoas e retomarem suas vidas

O trabalho da ARCAH se desenvolve em duas hortas, localizadas em terreno ocioso cedido pela Prefeitura: a horta escola, onde são desenvolvidas as aulas, e a horta comercial, com trabalhadores contratados.

A segunda fornece hortaliças para o Pão de Açúcar e cestas para consumidores. Os recursos arrecadados com essas ações são utilizados no pagamento de funcionários e reinvestidos no curso.

A horta comercial é cuidada por quatro profissionais, três deles formados pelo curso de agricultura urbana. A manutenção da horta escola é feita pelos próprios alunos, como parte do curso.

Amador Diniz é um dos alunos que cuidam da horta comercial da ARCAH, e também foi indicado pela equipe da organização como prestador de serviços na horta do Trattoria Fasano, restaurante na zona sul de São Paulo.

“Ter me formado como agricultor e agora trabalhar na área tem me trazido forças e vontade de viver”, diz ele. Como parte do processo de retomada da autonomia, Diniz tem feito planos para deixar o centro de acolhimento onde vive para morar em uma república.

Joseval Silva Machado, formado em 2018 no curso, foi convidado a trabalhar no projeto como auxiliar de permacultura. Nascido em Salvador, na Bahia, Machado morava em um albergue e, hoje, vive em uma casa.

“O projeto transformou a minha vida. Aprendi tantas coisas que fui convidado a trabalhar aqui. É um curso que levanta as pessoas. A sorte está aí para todos e quando ela vem, temos que ter fé e coragem”.

A primeira colheita nas hortas foi realizada em setembro de 2019 e, desde então, a produção, que possui certificação orgânica, se consolidou. Além do Grupo Pão de Açúcar, o projeto tem parcerias com restaurantes para comercialização, além de muitos outros apoiadores.

Para conhecer mais o projeto e solicitar as cestas, navegue no site da Horta Social Urbana.

Abaixo, compartilho um vídeo lindo produzido pela ARCAH, que apresenta um pouco do trabalho da organização e de seus impactos:

Foto: Arcah

Mônica Ribeiro

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colabora com a revista Página 22, da FGV-SP e com a Plataforma Parceiros Pela Amazônia, e atua nas áreas de meio ambiente, investimento social privado, economia solidária e negócios de impacto, linkando projetos e pessoas na comunicação para um mundo melhor

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