A homofobia que ainda mata no Brasil

homofobia mata estudante no Rio de Janeiro

Negro, gay e pobre. Diego Vieira Machado fazia parte destas três minorias. Para ele, foi uma sentença de morte. O estudante do curso de Letras, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, foi assassinado brutalmente no sábado passado (02/07). Seu corpo, seminu, foi largado dentro do campus, próximo ao alojamento estudantil onde vivia. Os colegas e amigos, indignados, tentam entender o que aconteceu. Tentam, não. Eles sabem o que causou a morte de Diego. A homofobia e a violência acabaram com a vida do jovem paraense.

Segundo relatos dos amigos, o aluno do Fundão – como é conhecida a universidade no Rio -, já havia reclamado de ameaças. Morava no local, mas  queria se mudar o mais breve possível dali. Não teve tempo. Saiu para correr e nunca mais voltou. Seu corpo tinha sinais de espancamento.

Apesar da morte de Diego ter aparecido em diversos jornais do Rio de Janeiro e a polícia estar investigando o caso, tudo teria sido muito diferente se ele fosse, por exemplo, um estudante branco, carioca, cursando Direito na PUC. Neste caso, haveria uma comoção nacional. Mas Diego, era negro, homossexual e pobre. O branco, se falaria, “tinha um futuro pela frente”. Para o estudante nortista, só houve manifestação de colegas e amigos na universidade.

Diego tinha outros irmãos. Era o mais velho. Foi criado pela avó porque a mãe não teve condições financeiras de fazê-lo. Saiu de Belém porque achava que no Rio de Janeiro encontraria uma cidade mais aberta à diversidade. Não foi o que achou. Encontrou ali a morte. Ele tinha apenas 29 anos.

Colegas denunciam que a homofobia está por todos os lados no Fundão, um dos mais renomados – e o mais antigo – centro de ensino do Brasil. Piadas e brincadeiras grosseiras são feitas por alunos contra os homossexuais. Pichações usam termos como “viadinhos”. É simplesmente inaceitável. Como se pode admitir tal comportamento homofóbico no meio acadêmico?

Esta semana um grupo de alunos da UFRJ fez uma passeata para lembrar Diego. Juntos, gritaram: “A nossa luta é todo dia, contra o machismo, o racismo e a homofobia”.

Os amigos contam que Diego era talentoso, carinhoso e generoso. Queria mudar de curso, fazer Comunicação Social. Mas o ódio e a ignorância foram mais fortes que ele. O mais perturbador, realmente, é pensar que o racismo e a homofobia estejam ainda hoje, impregnados numa casa destinada a ensinar o conhecimento. É muito triste. E, mais uma vez, repito: inaceitável.

Não é a cor da pele, opção sexual ou conta bancária que fazem uma pessoa melhor ou pior do que a outra. Cada um escolhe seu próprio caminho e aos outros basta respeitar esta decisão. Simples assim.

Das muitas manifestações de colegas que Diego recebeu nas redes sociais, após seu assassinato, reproduzo aqui a escrita pelo amigo, Frederico Alt, em sua página no Facebook.

“… eu acordo e o pesadelo não acaba,
eu só consigo parar de pensar nele quando,
de fato, vou dormir.
Nós que estamos aqui,
agraciados com o presente da vida,
nem nos damos conta do valor que ela tem,
ele amava viver também,
mas não a tem mais.
Não é justo sorrir diante do que aconteceu,
não é justo seguir em frente,
não é justo de nenhuma forma amenizar
uma morte tão trágica e tão brutal,
NÃO É JUSTO,
NÓS QUE TEMOS ESSE PRIVILÉGIO DE PODER VIVER,
ESFREGAR ESSE PRIVILÉGIO NA CARA DELE,
pois das mãos dele foi arrancado!
Não dá pra ser feliz, não dá…”

Foto: reprodução Facebook

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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