‘Heranças de um Brasil profundo’ revela a arte indígena em 500 objetos e fotografias que documentam esses povos

Com curadoria de Emanuel Araújo, a mostra – inaugurada em 25 de janeiro e que fica em cartaz até 26 de julho -, reúne arte plumária, adornos, máscaras, fotografias, esculturas, utensílios e a arte contemporânea produzida por povos indígenas diversos. Ali, no Museu Afro Brasil* (Parque do Ibirapuera, São Paulo) estão representados os Karajá, os Marubo, Kayapó, Mehinako, Yanomami, Rikbaktsa, Tapirapé, Waurá, Tapayuna, Baniwa, Ashaninka, Parakanã, Panará e Juruna.

Levou quatro anos para podermos ver a exposição que ocupa todo o subsolo do museu e encerra a trilogia às quais a instituição tem se dedicado desde 2015, com a intenção de “iluminar as contribuições artísticas e culturais dos povos que deram origem ao Brasil“. Primeiro, com Africans, em 2015, e depois com Portugueses – Arte Contemporânea, em 2016.

Agora, nada mais perfeito do que reverenciar os povos originários, que têm sido tão pressionados pelo desenvolvimento econômico. E a intenção, aqui, é também romper com a ideia de que os indígenas e sua arte representam a inocência ou têm um tom folclórico, cheio de deuses, monstros e mitos, “entre tantos outros preconceitos impostos a esta cultura original”. destaca o site do museu.

“Essa ideia da herança tem o objetivo de trazer de volta a nossa memória a arte dos povos da floresta no que ela tem de mais esplendoroso que são as artes plumárias, mas também a arte dos objetos de uso, objetos simbólicos dessa cultura brasileira extraordinária. E traz, ao mesmo tempo, uma visão de fora, de alguns dos mais importantes fotógrafos do Brasil. Também há a representação de diferentes manifestações artísticas como gravuras, esculturas de artistas modernos, especialmente de São Paulo”, conta Emanuel Araújo.

Arte, cultura, fotografia

Lá estão três obras do premiado Denilson Baniwa, jovem indígena da etnia Baniwa, natural do Rio Negro, Amazonas. Duas fazem parte da série Natureza Morta (abaixo) e a terceira é uma pintura inédita que ele fez nas paredes do museu. No ano passado, o artista venceu o prêmio PIPA Online e participou de uma mostra no Centro Cultural São Paulo (leia sobre ele a cantora Djuena em reportagem publicada aqui, no site).

A Casa dos Homens – famosa em diversas etnias – faz parte do acervo e foi construída por quatro indígenas do povo Mehinako (Yuta, Itsaukuma, Kauruma e Wapitsewe Mahinako), que vive na região do Alto Xingu, na na Terra Indígena de mesmo nome. “Nela, os visitantes poderão entrar e sentar nos bancos também construídos por eles, para fazer uma reflexão sobre o Brasil, sobre as nossas origens, sobre a defesa desses indígenas, dessa gente forte e resiliente que habita sobretudo o Amazonas, o Xingu e o Mato Grosso”, conta Araújo.

Claro que não poderiam faltar peças de valor antropológico. Obras da arte que compõem o rico “universo do fazer artístico” de diferentes grupos em representações zoomorfas de apelo artístico e cultural. Cerâmicas e cestarias se destacam e, hoje, “estão incorporadas às tradições populares das regiões norte e nordeste”.

Mulher em cerimônia de Yamuricumã
Maureen Bisiliat, 1975

As obras de um premiado grupo de fotógrafos e fotógrafas que se dedicaram (ou se dedicam) à documentação de populações indígenas brasileiras também estão lá, como Claudia Andujar (a quem o Instituto Moreira Sales dedicou uma esplêndida exposição – em São Paulo e no Rio -, que, neste momento encanta os franceses, na Fundação Cartier), Rosa Gauditano, Maureen Bisiliat (acima), Nair Benedicto, Guta Galli (O Guerreiro, que ilustra este post), Manuel Rodrigues Ferreira, Rodrigo Pretella, Jamie Stewart-Granger, Marc Ferrez (duas crianças indígenas, em sépia, no final deste post) entre outros.

E, por fim: o belíssimo painel com imagens originais do fotógrafo alemão Albert Frisch, que registrou os povos da Amazônia no século XIX”.

Heranças de um Brasil Profundo
Museu Afro Brasil – Parque do Ibirapuera
Até 26 de julho, entrada gratuita.

Família indígena por Albert Frisch
Menina indígena com adornos na cabeça, pescoço e braços
Marc Ferrez, 1890
Menina indígena com adornos na cabeça, pescoço, braços e pernas,
Marc Ferrez, 1980

*O Museu Afro Brasil é uma instituição da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo, gerida pela Associação Museu Afro Brasil

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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