Guernica na tela, no palco, na rua. Em todo lugar!

guernica

Poderia ser sapateado flamenco. Ou um tiro. Ou um bombardeio. Calor, movimento e dor se confundem num mesmo som. Os dançarinos de Guernica nos chamam para um espetáculo de dança. Mas o que fazem em uma hora de apresentação é ir congelando desespero, paralisando desalento, passo a passo, gesto por gesto.

Em cada movimento, espero pelo frame que eterniza a morte. A guerra e a fome estão no palco, pulam da tela dura e cinzenta de Picasso. O homem precisa lutar. Arrancar a força do touro para sobreviver à violência. O quadro e o espetáculo não nos deixam esquecer esse que é considerado o primeiro ataque terrorista da humanidade. Matou 1.600 pessoas em 1937. Mais de 1.000 ficaram feridas na pequena Guernica, localizada ma Espanha onde nasceu o pintor.  Foi um massacre promovido pela Alemanha nazista, com o apoio dos fascistas italianos e a serviço do General Franco. Tempos escuros movimentavam a Europa.

Compassos escuros no pa de deux lento e triste, dançado no estertor, num último suspiro que antecede a morte. Naqueles últimos passos caminhados sem firmeza, o chão se faz de mãos companheiras, que, no entanto, mal conseguem se salvar. Na caminhada coletiva, pernas de um outro corpo se unem a um ser já quase sem ação. A desgraçada solidariedade.

O ruído da respiração do moribundo. A música que, num certo momento, nos transporta a uma UTI com seu som anestésico.

O corpo que pinica, coça, se ajeita. Movimentos ganham duplos contornos, assim como a vida recortada e plasmada na mente, no palco, na tela. O traço de Picasso que se quer colagem virtual amalgamou-se à história. Virou uma obra prima ao desenhar o que aconteceria durante a Segunda Guerra Mundial.

A coreógrafa Carmen Jorge lembra que Guernica é um absurdo no meio de tantos no Brasil, na África, na Síria… “Entre as voltas dos punhos que dançam e a dos aviões que atacaram Guernica nos encontramos com o pulso forte e anguloso de Pablo Picasso. Essa tela! Esse evento… Parecem os inacreditáveis dias atuais. Como o homem pode ser assim?”

Laura Haddad, que dirige o espetáculo, em cartaz atualmente em Curitiba para celebrar os 80 anos da tela mais famosa do pintor espanho cubista, lembra que “Guernica não está feita para decorar exposições ou museus. É sim um instrumento de guerra ofensivo e defensivo contra o inimigo de ontem, hoje e infelizmente do amanhã. A imensa tela está ligada a um clamor de justiça tão válido hoje como em 1937. De uma universalidade e transparência poucas vezes vista”.

Ainda hoje somos obrigados a andar como cavalos com anteolhos para, num certo sentido, fazer vistas grossas e tentar continuar a caminhada nesse mundo tão mais deformado que as figuras transtornadoras de Picasso. Já estamos rendidos? Mãos para cima? Olhos para o alto, esperando o próximo ataque? Ou vejo uma flor, escondida no centro do quadro, no centro do peito de cada um.

Não, não é ilusão. Não pode ser um devaneio no meio do carnaval, essa cortina de poeira tão propícia para que o governo do Paraná venha com uma explicação fajuta sobre o certame público que não ficou pronto a tempo de evitar o encerramento das atividades do Balé Teatro Guaíra e Orquestra Sinfônica do Paraná.

Segundo o governo, os meses de janeiro e fevereiro não foram suficientes para regularizar o processo administrativo. O governo acredita (acredita?) que as contratações dos novos músicos e bailarinos vão acontecer em abril e as atividades retomadas em junho. Artistas têm dúvidas e medo do desmonte progressivo na arte. Fizeram um enterro temporário porque não sabem o que vai acontecer daqui para frente. Violência contra a arte. Guernica nas ruas de Curitiba. Estamos cercados na cidade, no estado, no país. Tem rota de fuga? Tentei, mas não está em mim mesmo parir um post lindo e colorido de carnaval numa circunstância dessas.

GUERNICA
Data: até 5 de março
Horário: quintas, sextas e sábados, às 20h30. Domingos às 17h e 20h30
Local: Pátio do Espaço Cultural Capela Santa Maria
Endereço: Rua Conselheiro Laurindo, 273, Centro, Curitiba
Ingressos: R$ 30 e meia-entrada R$ 15.

Fotos: Marcelo Almeida (espetáculo de dança) e André Coelho (mulher deitada na rua)

Karen Monteiro

Com arte, tá tudo bem. Se as exposições, peças de teatro, shows, filmes, livros servirem de gancho para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, cronista e assessora de imprensa, já colaborou com reportagens para grandes jornais, revistas e TVs.

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