Gripe aviária obriga França a sacrificar 350 mil patos e outros 400 mil serão abatidos em breve

Gripe aviária obriga França a sacrificar 350 mil patos e outros 400 mil devem ser abatidos em breve

O Ministério da Agricultura e de Alimentos da França informou ontem (07/01) que 350 mil patos foram sacrificados no país desde 24 de dezembro. Os animais foram abatidos por causa de uma onda de infecções de gripe aviária, provocada pelo vírus H5N8.

Até este momento já foram registrados 119 surtos de infecção na região de Landes, sobretudo em Chalosse, no sudoeste francês, uma das mais maiores regiões produtoras de foie gras, um patê feito de fígado de ganso, pato ou marreco. A Fança é o principal fabricante e consumidor mundial desse produto, que tem sua comercialização proibida em diversos países (leia porquê mais abaixo).

“Dada a extrema contagiosidade do vírus, é necessário reduzir drasticamente a densidade das aves nos territórios mais populosos. Para isso, é preciso intensificar os abates preventivos“, afirmou o ministério em comunicado à imprensa.

Serão adotadas ainda outras medidas de precaução, como o aumento da área de abate. Até então, eram sacrificados animais localizados a até 3 km de um foco de infecção e a partir de agora, a área será estendida para 5 km.

No primeiro quilômetro, o abate será feito a todas as aves de criatórios e de quintal, e nos 4 km seguintes apenas aquelas que não estejam confinadas.

As autoridades sanitárias ressaltaram ainda que os 10 km da zona de vigilância em torno dos focos podem ser estendidos para até 20 km, com proibição de saída e entrada de aves (inclusive para repovoamento de granjas que tenham concluído seu ciclo de produção). As restrições serão reavaliadas até o final de janeiro, com base nos registros epidemiológicos.

Apesar de muito contagioso e letal, o H5N8 não é transmissível para os seres humanos, nem por contato, nem pelo consumo da carne, ovos ou foie gras. Outros países europeus relataram casos da gripe aviária também, mas a França é a mais afetada. Em 2015, já houve outro surto semelhante, e na época, milhões de patos foram mortos.

De acordo com Loic Evain, chefe veterinário do governo francês, nas próximas semanas mais 400 mil aves devem ser sacrificadas.

Foie gras: proibição em diversos países

O processo de fabricação do foie gras envolve muito sofrimento e crueldade. Chamado de “gavage”, ele faz com que os animais fiquem com o fígado dilatado (até 10 vezes seu tamanho normal) para que o órgão seja bastante gorduroso. Para isso, as aves são confinadas e alimentadas exaustivamente.

Alguns criadores usam luz artificial para que os animais fiquem acordados mais tempo e comam maiores quantidades de ração e em outros casos, a comida é injetada através de tubos diretamente no esôfago.

Em 2004, uma legislação banindo a comercialização de foie gras foi aprovada no estado da Califórnia, todavia, só passou a valer em 2012. A associação de fabricantes do produto entrou com uma ação contra a decisão na Corte Federal de Los Angeles, mas acabou perdendo o caso em 2017.

Em 2005, a Suprema Corte de Israel decidiu também que a produção de foie gras violava as leis de crueldade com animais do país e a prática foi proibida.  

Alemanha, Reino Unido Suíça baniram a fabricação do patê, entretanto, a venda (importação) neste último ainda é permitida, mas é necessário constar na embalagem a informação de que as aves foram alimentadas à força. Em 2014, a Índia proibiu a importação de foie gras e a União Europeia trabalha para eliminar progressivamente a alimentação forçada de aves em seus países membros até 2020.

No Brasil, em 2015, uma lei no município de São Paulo tornou ilegal a produção e a comercialização, mas foi considerada inconstitucional pela justiça.

Em 2018, em Florianópolis, a regulamentação foi bem-sucedida. A multa para quem produz, na capital catarinense, pode chegar a R$ 500 mil e a até R$ 50 mil para os restaurantes que oferecem o prato. No caso de reincidência, o valor sobe para R$ 500 mil.

Segundo a organização de proteção animal, PETA, além da crueldade envolvida no processo de fabricação do patê, como o foie gras é feito dos fígados de apenas machos, todas as fêmeas – 40 milhões delas por ano, somente na França -, são inúteis para a indústria e, portanto, simplesmente jogadas em moedores, vivas, para que seus corpos possam ser transformados em fertilizante ou comida de gato.

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Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

Um comentário em “Gripe aviária obriga França a sacrificar 350 mil patos e outros 400 mil serão abatidos em breve

  • 11 de janeiro de 2021 em 11:43 AM
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    Nada mais do que o exato perfil da atual condição humana insaciável e bestial, cujo cotidiano é torturar, usar e descartar animais como se fossem canetas BIC após acabada a tinta. Humanos que matam inocentes não são inocentes quando morrem nem se tornam bons porque adoecem. Continuam algozes e predadores à espera da próxima vítima. Visons, recentemente abatidos e enterrados, ressurgem do solo, por conta dos gases da putrefação, na visão dantesca de zumbis que voltam clamando por suas vidas roubadas por conta das fictícias vaidades mundanas. Merecemos sim, este cenário dantesco mas não aprenderemos com ele, porque hoje são patos mas ontem foram frangos e porcos que não deixamos de consumir apesar das pandemias que supostamente causaram. Continuaremos barbarizando com os animais e depois correndo medrosos para fabricar antídotos e vacinas porque matamos mas não queremos morrer nem assistir a morte dos entes amados. Morcegos, sapos, cobras, lagartos e pangolins continuam no cardápio, por conta da primitiva gula mas vacinas não nos fazem melhores do que fomos, não nos defendem de nossa maldade, egoísmo e insensatez, porque, teimosos e obstinados, continuaremos consumindo o que nos apetece, não importa qual espécie animal seja. Outros vírus modificados chegarão e correremos para novas vacinas, após o massacre das vidas humanas que se perdem, sem ter aprendido que o antídoto é a compaixão, a empatia, o amor e o respeito à vida de todas as espécies. Enquanto isso, só lamentar.

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