Grife de alta-costura causa polêmica com roupas adornadas com cabeças de animais selvagens

Bizarro! Que mau gosto! Cafona! Um horror! É arte! Estes foram alguns dos adjetivos atribuídos, nas redes sociais, a peças da nova coleção de alta-costura da grife de luxo Schiaparelli desfiladas hoje, primeiro dia da semana de moda em Paris. 

Adornadas por cabeças fake de animais selvagens – um leão, um leopardo das neves e um lobo em tamanho natural -, as peças fazem alusão instantânea à caça, à taxidermia e a troféus de caça.

Mas a polêmica começou antes do show, com a chegada da empresária e influencer Kylie Jenner ao local do desfile num vestido preto de veludo colante, tomara-que-caia, enfeitado pela cabeça do rei dos animais (assista ao vídeo, no final deste post).

Jenner tem 379 milhões de seguidores no Instagram e foi uma das convidadas de Daniel Roseberry, diretor criativo da marca.

A empresária e influencer Kylie Jenner chega ao desfile de Schiaparelli: dá aflição ver a perfeita da cabeça de leão pendurada no vestido, não? Impossível não pensar nos ‘troféus’ de caça que os caçadores penduram na parede / Foto: reprodução de vídeo

Teve quem (ingênuo) perguntasse à Jenner, no Instagram, “Ei, isso é uma cabeça de leão de verdade?”, e quem (mais radical e crédulo) indagasse: “Usar cabeças de animais mortos como acessórios?”.

Não há limite para a criatividade, quando se trata de alta-costura, um setor da moda que não tem compromisso em apresentar roupas usáveis. É um celeiro de experimentação.

Leve em conta, ainda, que a criadora da marca (1927), a italiana Elsa Schiaparelli, era uma estilista à frente do seu tempo, visionária, inovadora e surrealista (amiga de Salvador Dali, Man Ray e Marcel Duchamp) e que cada roupa que desenhava era uma obra de arte. Portanto, ousar está no DNA da marca. Mas Roseberry errou a mão.

Além da alusão ao uso de peles de animais – que tanto foi moda, mas que ainda massacra animais pelo mundo, as peças adornadas com cabeças de animais selvagens causa desconforto e – também – repulsa, porque remetem à caça e aos troféus tão desejados por caçadores profissionais que frequentam safaris insustentáveis na África. E o fazem por prazer e maldade, por desrespeito à natureza, à biodiversidade, ao equilíbrio do planeta, por ganância.

Hoje, o mundo está voltado para a proteção ambiental e animal, contra o desmatamento, empenhado no combate às mudanças climáticas, na fabricação de produtos mais éticos (sem testes em animais), contra a caça de animais silvestres (o Brasil está debatendo este tema no Congresso Nacional, ainda).

E os cientistas ainda alertam que estamos à beira da sexta extinção de espécies, provocada por nós, humanos. A moda (a beleza também) não pode ficar alienada desse compromisso com a vida.

O designer conta que se inspirou no Inferno de Dante Alighieri, que é um dos livros da trilogia de A Divina Comédia, obra do século XIV. Ficou impressionado com o leopardo, o leão e a loba, que recebem Virgílio, o maior poeta romano, na porta do Inferno, e representam a luxúria, o orgulho e a avareza.

Diz ele, também, que queria “celebrar a glória da natureza e proteger a mulher que a usa”. É mesmo? Há lugar, hoje, para esse tipo de mensagem, sem nenhuma reflexão sobre ética? Sem nenhuma responsabilidade com os animais?

No mínimo, os adornos bizarros das roupas de Schiaparelli são uma brincadeira de muito mau gosto. Que sirvam de reflexão e ajudem a criar um novo olhar da moda para o mundo.

A seguir, assista aos vídeos de Kylie Jenner chegando ao desfile e modelos posando para fotos:

3 comentários em “Grife de alta-costura causa polêmica com roupas adornadas com cabeças de animais selvagens

  • 23 de janeiro de 2023 em 9:57 PM
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    Que ideia é essa? Qual foi objetivo em mostrar as cabeças dos animais? É crime isso!
    É triste essa ideia da estilista. Ela queria chocar!

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  • 24 de janeiro de 2023 em 2:56 PM
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    Eu adorei. A forma que as cabeças foram construidas , com muita arte, com carinho. Na próxima coleção que tal colocar a cabeça do seu cão de estimação. Já pensou na cabeça do doberman entre outros lindos. Não esquecendo dos gatos .

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  • 30 de janeiro de 2023 em 3:56 PM
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    Gente, é uma arte, são cabeças sintéticas, que mal há nisso??? indignada com a ignorância humana, eu amei, achei muito lindo e criativo. parabéns ao estilista.

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Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.