Gina Rizpah Besen: “a causa ambiental é a causa da minha vida”

Uma das grandes referências na área de resíduos sólidos no país, a pesquisadora e ativista Gina Rizpah Besen é também um exemplo da truculência das forças retrógradas no Brasil. Em sua trajetória, enfrentou ameaças de morte desde a época da faculdade, quando trabalhava em um projeto pelos direitos das populações carcerárias.

Para se recuperar do trauma, foi para o sul da Bahia e, anos depois, foi obrigada a voltar a São Paulo por ameaças enquanto lutava pela preservação ambiental do litoral baiano. Mesmo com respaldo do poder público, também enfrentou intimidações ao atuar no fechamento do lixão e pelos direitos dos catadores de resíduos em Embu das Artes, na Região Metropolitana de São Paulo.

Seu trabalho em Embu, onde foi secretária de Meio Ambiente, se tornou modelo de gestão socioambiental de resíduos e a causa de sua vida, como pesquisadora, consultora e militante. Hoje, faz parte do Observatório da Política Nacional de Resíduos Sólidos e da Aliança Resíduo Zero Brasil.

Conheci Rizpah quando foi trabalhar na SOS Mata Atlântica ao chegar da Bahia, e ajudou a implantar o primeiro projeto no país de troca de latinhas por mudas de árvores, em uma época que se começava a falar em reciclagem por aqui, no início dos anos 1990. Desde então, acompanho sua trajetória de ativista em tempo integral, daquelas que nos ensinam o quão importante é persistir na luta quando acreditamos nela.

“O Brasil chegou a ser referência ambiental e retrocedeu. É frustrante, triste, mas dá vontade de continuar a trabalhar, confiando nas novas gerações que têm uma outra mentalidade”, disse ao Mulheres Ativistas, no Conexão Planeta.

Como descobriu o ambientalismo?

Ainda na faculdade de psicologia, que cursei na PUC, em São Paulo, entre 1974 e 1979, desenvolvi uma grande sensibilidade para as causas sociais. Participei de um projeto multidisciplinar na penitenciária de Vila Pestana, em Osasco, para que os presos conhecessem seus direitos. Fomos perseguidos porque a atuação empoderava os presos e rompia a relação de poder dos carcereiros, que os dominavam. Fomos ameaçados até de morte, o que me abalou muito. Até esse momento, não estava sensibilizada para questões ambientais.

Por conta do desgaste daquele processo, fui visitar uma amiga em Arraial D’Ajuda, no litoral baiano. Foi a primeira vez que tive contato com a natureza em sua plenitude. Entender os ciclos e a importância do mar, da terra, do ar foi muito forte e mudou a minha vida. Quando voltei a São Paulo, em 1980, me estranhava na cidade, nada fazia sentido. Houve uma ruptura, um processo espiritual intuitivo. A clínica individual com a qual trabalhava começou a parecer limitada. Depois de um mês, decidi que moraria um ano no sul da Bahia.

Arraial D´Ajuda era uma aldeia de pescadores. Construí o primeiro banheiro na vila sem ser em pousada. A vivência lá me fez mudar de ritmo, me conectar com o local. Me dei conta da destruição do meio ambiente e da necessidade de proteger o que tínhamos. Na época, havia a ameaça de um projeto enorme de instalação de usinas de álcool, a Mata Atlântica seria substituída por canaviais e os rios destruídos, tirando o sustento dos pescadores. Sentindo isso, me juntei com o pessoal do Movimento de Defesa de Porto Seguro e a Igreja Progressista e fizemos o primeiro movimento de luta pelo meio ambiente na região.

Eu tocava violão, fiz música sobre o tema. Conseguimos levar o Gilberto Gil e o deputado e ambientalista Carlos Minc até lá e fizemos o enterro das usinas de álcool. Seguramos a instalação das usinas e resolvi que era lá que queria viver. Fazia artesanato e era psicóloga em uma escolinha. Assumi que a causa ambiental seria a da minha vida.

O Arraial era lindo, mas muito sujo. Passei a limpar quintais, plantar árvores nas calçadas, doar mudas de árvores para plantio, fazer mutirões de limpeza, incentivar que fizessem compostagem. Achavam que eu estava louca, mas foi um laboratório de vida. As árvores que plantei estão lá atéhoje. Quando vou até lá, me levam para ver.

O que te fez voltar a São Paulo?

Com o início de um turismo mais intenso, o Arraial D’Ajuda começou a mudar demais, principalmente com a chegada das drogas: perdi amigos para elas. Resolvi morar em Cumuruxatiba, outra aldeia ali perto. Lá, vivenciei também o abandono dos índios, a reforma agrária e os problemas socioambientais trazidos com a chegada das empresas de celulose, principalmente a Aracruz e depois a Bahia Sul. 

Comecei a fazer um dossiê sobre o que estava acontecendo e participava da rede mais ampliada para proteger o arquipélago de Abrolhos e os corais. Fui ameaçada de morte e vi que precisávamos de apoio, por isso passei a ir a São Paulo, onde conheci o pessoal que lutava pela região da Jureia, como Aron Belinky, Bellô Monteiro e Fabio Feldmann

Com as denúncias, fiquei muito visada no sul da Bahia, chegaram a atirar em um carro onde eu estava. Vi que se ficasse por lá minha vida estava em perigo. Não queria ser uma heroína morta, por isso resolvi voltar para São Paulo, de onde poderia fazer mais pela causa.

Como começou sua atuação com os catadores e os resíduos sólidos?

Quando cheguei em São Paulo, em 1992, Mario Mantovani, que eu conhecia das lutas ambientais, me recebeu na SOS Mata Atlântica e me convidou para trabalhar no projeto Observando o Tietê, onde implantamos a troca de latinhas por mudas de árvores. Foi o primeiro projeto do tipo no Brasil. 

Em 1994, a mulher do Mário, Marilene Mantovani, que era secretária de Planejamento em Embu das Artes, me convidou para trabalhar com ela no município. Havia pressão da Cetesb e do Ministério Público Estadual (MPE) para fechar o lixão, onde havia mais de 100 catadores, incluindo crianças e muitos conflitos, até com mortes.

Conseguiu resolver o problema do lixão?

Conheci os catadores, suas vidas, como eram explorados. Sabia um pouco das experiências de Porto Alegre, de Minas Gerais e do projeto piloto da administração de Luiza Erundina em São Paulo. Com isso, propus ao prefeito tirar os catadores do lixão e montar uma cooperativa para coleta seletiva. Fechar o lixão e transformá-lo em aterro sanitário

Na primeira fase, proibimos a entrada de crianças. Cadastramos todos os catadores, explicamos o que era coleta seletiva e dissemos que daríamos uma bolsa por três meses até que a cooperativa começasse a funcionar, além de ajudá-los com a documentação. 

Parecia fácil, mas havia intermediários. Proibimos a entrada deles e, novamente, fui ameaçada. Foi uma época difícil. Embu é um lugar extremamente violento. Mas tive apoio do Ministério Público Estadual e do prefeito e conseguimos avançar. Recuperamos a área do lixão e construímos a central de triagem onde trabalhavam, inicialmente, 60 catadores. Embu virou referência nacional, recebíamos visitas de todo o Brasil para conhecer a experiência.

Depois disso você se tornou secretária de Meio Ambiente em Embu?

A gestão mudou e fui ficando, houve continuidade do projeto, que incluía implantar a coleta seletiva, desconto de IPTU para quem preservasse a Mata Atlânticarecuperar praças com participação da população… Era uma administração totalmente diferente do que eu acreditava, mas me convidaram para montar a Secretaria de Meio Ambiente no município.

Foi uma gestão delicada, o prefeito chegou a ser caçado, mas conseguimos consolidar a secretaria, a cooperativa de catadores e a coleta seletiva, estruturar a fiscalização e a educação ambiental. Fui a única secretária que permaneceu, do inicio ao fim da gestão, mesmo com as questões políticas. 

O trabalho no município é muito importante e é incrível porque dá para ver o resultado. Foi um dos momentos de maior realização na minha vida. Fiquei quatro anos como secretária, vi muitos projetos se realizarem e, no período, fui a primeira presidente da Associação Nacional de Órgãos Municipais de Meio Ambiente (Anamma) em São Paulo.

O que você fez após essa experiência?

Em 2000, terminou o mandato e fui convidada pela Stela Goldenstein, então secretária do Verde de São Paulo, para assumir a diretoria de Controle Ambiental no município. A ideia me assustou, mas ela me disse que tínhamos que moralizar e enfrentar a corrupção e que, para isso, precisava de uma pessoa de confiança. Foi uma experiência difícil porque fazer licenciamento ambiental em uma cidade como São Paulo não é fácil. 

Fizemos coisas interessantes, mas São Paulo não é Embu. Aqui, os processos são lentos, complexos, há entraves jurídicos. Havia resistência atédentro da própria Secretaria. A relação era complicada também com a Secretaria de Obras, que geria os resíduos. Passei a ter problemas graves de saúde por causa dos licenciamentos. 

Pensava, “tenho filha para criar e vivo do meu trabalho, se houver processos terei que pagar advogado com meus recursos e ainda me exponho demais e estou infeliz por não ter os resultados esperados”. Dois anos depois, quando a Stela deixou a Secretaria, também saí.

Por que resolveu se dedicar à pesquisa?

Depois que deixei o trabalho na prefeitura de São Paulo, voltei para a SOS Mata Atlântica como consultora na área de resíduos sólidos. Também fazia consultoria para outras ONGs, empresas e prefeituras sobre gestão de resíduos, mas muitas vezes a consultoria não sai do papel. 

Em 2008, meu marido Pedro Roberto Jacobi, que é professor e pesquisador da Universidade de São Paulo (USP), me convenceu a fazer mestrado na Faculdade de Saúde Pública da USP. Desde então, me envolvi com a universidade em pesquisas relacionadas aos catadores e políticas públicas de resíduos sólidos. Em 2011, terminei o mestrado e fiz doutorado, quando começamos a desenvolver indicadores de sustentabilidade para a coleta seletiva organizações de catadores

Desde então, continuo a fazer pesquisa como colaboradora do Instituto de Energia e Ambiente da USP e a apoiar ONGs que trabalham com resíduos, como o Instituto 5 Elementos, onde fui coordenadora de projetos por dois anos. Há quatro anos, apoiamos a fundação do Observatório da Política Nacional de Resíduos Sólidos. Também colaboro com a Aliança Resíduo Zero Brasil. Atuei e participo ativamente na construção e na implementação de políticas públicas de resíduos sólidos. Sou uma ativista que não precisa de holofotes, quero ver as coisas andarem.

Como vê a situação dos resíduos sólidos no Brasil?

Estamos em processo de avaliação da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), que completou dez anos de vigência neste momento de retrocessos que passamos no país. É uma avalanche. 

A política está sendo mexida com o viés da recuperação energética pela queima de resíduos, inclusive no Estado de São Paulo. Colocam como um avanço, mas é o contrário. 

Queimar e incinerar resíduos urbanos é insustentável, está na contramão da economia verde e da circulação e redução de resíduos, gera impactos sociais e na saúde. É um modelo ultrapassado, que está em processo de transformação na Europa, que tem investido cada vez mais na recuperação e reciclagem, em uma economia circular e na desativação dos incineradores. 

É um grande embate e estamos mal, pois os incineradores vêm sendo licenciados. É a privatização do serviço público, o contrário do que acontece em outros lugares. E tudo isso no meio da pandemiaÉ a boiada passando com a caneta na mão. 

A participação social tem sido delegada apenas aos empresários e a sociedade civil tem sido excluídaTodo material reciclável tem valor econômico, mas incineradores precisam de quantidades imensas de plásticos e outros materiais e vão competir com a reciclagem. 

Só é possível falar em queima de rejeito (e não de resíduos como diz a PNRS) e ainda depois que a coleta seletiva e a compostagem estão implantadas em altos patamares de recuperação de materiais e quando a economia circular está em implementação. O Brasil produz mais de 170 mil toneladas de resíduos por dia, que são enterrados. Ainda temos três mil lixões milhares de catadores extremamente vulneráveis

A maioria das prefeituras não cobra pela gestão de resíduos por motivos políticos. O Marco do Saneamento prevê a cobrança, o que é bom. São muitos os desafios da sociedade civil na área. Também fazemos um esforço para mostrar às pessoas que é possível reduzir o lixo em casa, atualmente por meio da participação em entrevistas na TV, eventos, webinares

O Brasil chegou a ser referência ambiental e retrocedeu. É frustrante, triste, mas dá vontade de continuar a trabalhar, confiando nas novas gerações que têm uma outra mentalidade.

O que o ativismo representa na sua vida?

Vivi a ditadura militar, fui para a rua, sou uma ativista de todos os valores da democracia. Embora tenha me encontrado no socioambientalismo, tenho ativismo em qualquer questão que ponha em risco a democracia, como o racismo, o fascismo, o armamento da população e a violência, sou aderente a qualquer plataforma pela redução da desigualdade. Muitos estão cansados de abaixo-assinados, eu não. 

Todos os que recebo, que considero valer a pena, toco para a frente: para defender os direitos das minorias, judeus, LGBT, indígenas e das mulheres. Muitos deles fazem as coisas avançarem.

Na pandemia, o ativismo ficou intenso e de internet, mas tem também o ativismo de mão na massa, na rua. Fui a todas as manifestações em prol da democracia e também faço militância de internet e econômica, na qual apoio causas dentro das minhas possibilidades, em especial dos catadores de materiais recicláveis, que tenho orgulho de ver como estão empoderados e organizados para lutar por políticas públicas que estão sendo desconstruídas. 

Nunca fui filiada a partido político, mas sempre fiz e continuarei fazendo militância política para as causas que têm eco dentro de mim e votando em quem faz com que elas se tornem realidade.

Edição: Mònica Nunes

Foto: arquivo pessoal

Maura Campanili

Jornalista e geógrafa, foi repórter e editora de cidades e meio ambiente na Agência Estado e na revista Terra da Gente. Trabalhou em ONGs como a SOS Mata Atlântica, Instituto Socioambiental e Rede de ONGs da Mata Atlântica. É autora e editora de livros e publicações socioambientais e autora do blog ‘Paulistanasp’ no qual fala de temas que lhe são caros: meio ambiente, a metrópole paulistana, literatura e feminismo.

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