Geladeira não é lugar pra pinguim!

Geladeira não é lugar pra pinguim!

O frio vem chegando e junto com ele aparecem as tainhas na costa brasileira, especialmente nos mares gelados. Andar pelas praias só com agasalho, isso se o vento não vier do Sul, aí é preciso mais proteção, pois trinca e bate no queixo sem dó.

Para muita gente é hora de se recolher, acender a lareira, diminuir a atividade lá fora; mas, para o pescador é hora de muito trabalho. E ter história pra contar, claro!

Pois esta que aqui vai, vem da ilha de Santa Catarina.

Havia um pescador lá pras bandas da Praia da Armação que resolveu “salvar” um pinguim e achou que botando na geladeira conseguiria fazer com que o visitante se sentisse em casa.

Entra ano, sai ano, os pinguins aportam exaustos, capengas, mortos-vivos pelas praias da costa brasileira. Alguns, que pegam uma correnteza mais forte podem chegar até a Bahia! Sempre tem um ou outro que sobrevive e o pescador da Armação, com dó do coitado, esvaziou a geladeira e meteu o bichinho lá dentro.

Não deu outra. Fila pra ver o pinguim e papo no jornal local. A conversa que mais se ouvia era se pinguim era peixe ou ave, e com argumentos do tipo: “É ave, mas não voa, mergulha!” Ou então “Nada feito peixe, então é peixe!”, ou ainda “Bota ovo, choca e mora em cima da pedra como gaivota, vai ver é mesmo passarinho!”.

O pinguim

É uma ave, sem dúvida. Palmípede marinha das regiões antárticas cujas asas, transformadas em nadadeiras, perderam a função de voar. Vive agrupado aos milhares, formando uma espécie de cidade com relações sociais típicas de uma metrópole, como furtos, distúrbios e altruísmo.

Por exemplo, quando morrem os pais de uma ninhada, esta logo é adotada e alimentada pelos vizinhos. Igualzinho gente, né?!

Ave inofensiva e confiante, que tem jeito de um burguês de casaca, quem sabe ensinou os primeiros passos a Charles Chaplin…

É um exemplo quase perfeito da arte da natureza, pelo menos no que se refere a seres que vivem na água. Possui uma bolsa que enche de água para facilitar o mergulho, se move por meio de suas asas e usa seus pés como leme, atingindo grande velocidade, percorrendo milhares de quilômetros sem parada.

Quando mergulha, uma película transparente lhe cobre os olhos e seus ouvidos são protegidos por um óleo que cria uma capa impermeável ao redor dos mesmos. Suas narinas são quase imperceptíveis e expelem o cloreto de sódio da água do mar.

Vive no mar, reproduz na terra – entre fevereiro e setembro – e alimenta-se de polvos, peixinhos e principalmente krill, o mesmo alimento das baleias. Adora pequenas sardinhas. Tem visão extraordinária dentro d’água e seu principal predador é o lobo-marinho.

Quando está chocando, nos finais de ano, zurra feito um burro dia e noite e cuida das gaivotas, que fazem de tudo para roubar-lhe os dois ou três ovos depositados numa cavidade. Os filhotes devem ser alimentados a cada meia hora e ao cabo de uns três meses são empurrados para o mar e passam a viver por conta própria.

Na estação da muda, que dura de seis a sete semanas, o pinguim não consegue mergulhar. Em certo momento, para não morrer de fome, usa um recurso estupendo. Engole um tanto de pedras redondas para formar lastro e, assim, comer. Que coisa, né?!

Os jovens machos muito se assemelham aos humanos, pois gostam de namorar. Rodeiam os ninhos onde fêmeas estão chocando e promovem galanteios, esticando e esfregando o pescoço. Parece que nos namoros encontram enorme satisfação em contemplar os olhos um do outro.

O que deve ter acontecido com o pinguim, personagem principal deste texto, citado mais acima?

Quando nadava pelas águas brasileiras, nosso pinguim deve ter sido arrastado pelas correntes oceânicas, seduzido por cardumes, se distraído na caça e aportado no sul da ilha de Santa Catarina, na praia da Armação.

O pinguim que apareceu na Armação deveria ter sido resgatado pela R3 Animal, uma ONG que cuida destes bichinhos perdidos, como descrito nesta matéria publicada aqui no Conexão Planeta.

Lembrei deste “causo” para trazer um pouco de informação sobre a espécie e também, lembrar aos nossos leitores o que deve ser feito quando acharem pinguins ou outros animais perdidos pelas praias.

Caso você encontre um mamífero, ave ou tartaruga marinha debilitada ou morta na areia, ligue 0800 642 3341

Ah, e a imagem usada para ilustrar este texto é uma montagem, feita com uma geladeira da internet e a foto do pinguim do nosso parceiro, o fotógrafo João Quental. Ela faz parte do poster das Aves Costeiras (este guia e todos já produzidos pela gente podem ser comprados na Loja do Passarinho).

*Com informações dos livros “Da Ema ao Beija-flor”, de Eurico Santos, e “Ornitologia Brasileira”, de Helmut Sick

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Gabriela Giovanka e Renato Rizzaro

Gabriela Giovanka é administradora de empresas, especializada em Naturologia Aplicada. Renato Rizzaro é designer gráfico e fotógrafo. Juntos criaram a Roda de Passarinho, e com suas viagens de norte a sul do país, buscam aproximar as pessoas da natureza, através de fotografias e do canto das aves, sementes, instrumentos musicais, relatos de vivências e exercícios que inspirem a vida comunitária.

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