Garimpo ilegal mata mais duas crianças Yanomami: elas foram ‘sugadas’ por draga enquanto brincavam no rio

Garimpo ilegal mata mais duas crianças Yanomami: elas foram 'sugadas' por draga enquanto brincavam no rio

Apesar da decisão tomada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), em junho, que “determina a proteção dos povos Yanomami e Munduruku e a retirada urgente de invasores de suas terras” – como contamos aqui -, o garimpo ilegal continua firme, em plena atividade, e cada vez mais próximo das aldeias. E acaba de fazer mais duas vítimas fatais.

Em 12 de outubro, dois meninos do povo Yanomami, primos de 5 e 7 anos, da comunidade Makuxi Yano, em Alto Alegre, no norte de Roraima, brincavam no rio Parima com um pedaço de uma vasilha de plástico que faziam de prancha, quando foram “sugados e cuspidos por uma draga” – que faz parte do maquinário dos garimpeiros – “e levados pela correnteza”.

O crime foi denunciado pela Hutukara Associação Yanomam (HAY) por meio de nota divulgada no dia seguinte, quando os indígenas iniciaram as buscas e resgataram o corpo do menino mais velho.

Devido à dificuldade para encontrar o corpo do segundo menino, o Conselho de Saúde Indígena Yanomami e Ye’kwana (Condisi-YY) acionou o Corpo de Bombeiros e a Funai (Fundação Nacional do Índio), por meio de ofício, solicitando uma equipe de resgate, que o encontrou ontem, 14/10.

Crianças mortas a tiros

Garimpo ilegal mata mais duas crianças Yanomami: elas foram 'sugadas' por draga enquanto brincavam no rio
Indígenas se reúnem após ataque dos garimpeiros na comunidade Palimiu, que matou duas crianças / Foto: Condisi-YY

“A morte de duas crianças é mais um triste resultado da presença do garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami, invadida por mais de 20 mil garimpeiros até setembro de 2021”, relata o documento.

Na nota, a associação Hutukara enfatiza que a área destruída por essa atividade ultrapassa 3 mil hectares, representando aumento de 44% em comparação com dezembro de 2020. Isto só em Parima, região onde fica a comunidade Makuxi Yano.

“Além das regiões altamente impactadas, como Waikás, Aracaçá e Kayanau, o garimpo avança sobre novas regiões: em Xitei e Homoxi, o garimpo ilegal teve aumento de 1000% entre dezembro de 2000 e setembro de 2021”, alerta a entidade.

À agência Amazônia Real, Dario Kopenawa, presidente da associação Yanomami contou que a Polícia Federal e o Exército não fizeram nenhuma operação para conter o garimpo nesta região.

“Nós recebemos a informação através das lideranças  da comunidade. Nessa região, o garimpo é muito antigo, de muitos anos, e a operação da Polícia Federal e do Exército não foi lá; não fizeram nenhuma fiscalização,. Nada, nada. A situação nessa comunidade é ainda mais complicada porque os garimpeiros usam draga. Lá na comunidade, depois de 300 metros, já é draga, onde o cano puxa o petróleo dentro do rio. A correnteza levou as crianças e elas entraram na mangueira que está puxando o petróleo”.

E completou: “Acionamos os órgãos públicos para chamar a atenção das autoridades locais. Pedimos ao Ministério Público, à Polícia Federal, o próprio governo federal. Não é de hoje que pedimos a retirada do garimpo, a violência, o agravamento do nosso território que está muito ameaçado, por isso enviamos o ofício às autoridades”.

Esta não é a primeira vez que crianças morrem vítimas dos garimpeiros. Em maio deste ano, mulheres e crianças estavam tranquilos à beira do rio, como de costume, quando os invasores chegaram atirando. Todos correrem para se refugiar na mata, mas duas crianças – de 1 e 5 anos – desapareceram. Dois dias depois, foram encontradas boiando no rio.

Violência, desnutrição e morte

Garimpo ilegal mata mais duas crianças Yanomami: elas foram 'sugadas' por draga enquanto brincavam no rio
Campanha Fora Garimpo / Foto: Victor Moriyama/Instituto Socioambiental

A rotina dos Yanomami está cada vez mais ameaçada pela violência, pelas doenças – levadas por invasores, como malária e covid-19 – e pela morte. Mas essa ameaça não é recente.

Desde a década de 80 que o garimpo ilegal é um fato na maior reserva indígena do Brasil – com 10 milhões de hectares entre os estados de Roraima e Amazonas e (parte) na Venezuela, 27 mil indígenas e mais de 360 comunidades.

A situação nunca foi ideal, mas, até Bolsonaro, a atuação da Funai e dos órgãos ambientais do governo era a favor dos indígenas. Com o atual governo, a situação só piorou porque ele apoia as invasões e a exploração das terras indígenas, entregou a Funai a um representante dos ruralistas – Marcelo Xavier está sendo processado por impedir a demarcação da terra dos Munduruku, como contamos aqui – e desestruturou os órgãos de fiscalização.

O garimpo ilegal destrói a floresta e contamina os rios, impactando diretamente na saúde dos indígenas. As crianças, em especial, sofrem com as doenças e a desnutrição já que o alimento torna-se escasso.

Em maio deste ano, a foto de uma menina indígena desnutrida causou comoção nas redes sociais e alertava para a situação de abandono dos Yanomami, como contamos aqui.

Garimpo ilegal causa mais mortes entre os Yanomami: duas crianças foram 'sugadas' por draga enquanto brincavam no rio
Foto: Centro de Documentação Indígena

Foto (destaque): Chico Batata, Greenpeace

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Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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