Garimpeiros matam cacique e invadem Terra Indígena Wajãpi, no Amapá, cobiçada por sua riqueza mineral

Em 27 de julho, sábado, o senador Randolfe Rodrigues e o movimento 342Amazônia – que tem o apoio de diversos artistas e mobilizou Caetano Veloso, Crioulo, Maria Gadu, entre eles – divulgaram em suas redes sociais a situação dramática do povo indígena Wajãpi, do oeste do Amapá. Foi o que bastou para que a notícia se espalhasse rapidamente. As informações ainda estavam meio truncadas, mas a mobilização foi grande porque os fatos causaram grande indignação, exceto do presidente da República e de representantes de seu governo. E o silêncio da Funai, da Polícia Federal (PF) e do Ministério Público Federal (MPF) só angustiava. Mas é preciso cautela e atender cada passo para o inicio de uma investigação.

Aqui, relato o que aconteceu baseada nas informações divulgadas ontem, de forma detalhada, pelo Conselho das Aldeias Wajãpi (Apina). No texto, eles chamam os invasores de “não-índios”. Vou manter a versão inicial de que seriam garimpeiros já que as terras guardam grande riqueza cobiçada por eles e, este ano, sua presença é a mais identificada.

Com exceção da foto do cacique, abaixo, divulgada pelo movimento 342Amazônia em seu Instagram, as demais, que permeiam este postt, foram cedidas pelos fotógrafos Victor Moriyama e Zig Koch, que estiveram nas terras Wajãpi em ocasiões diferentes.

O cacique Enyra Wajãpi, assassinado / Foto: 342Amazônia

Em 22 de julho, segunda, cerca de 50 garimpeiros invadiram a Terra Indígena Wajãpi. Assassinaram o cacique Enyra Wajãpi (foto ao lado), de 68 anos, a facadas, em emboscada na região de sua aldeia, Waseity, próximo da aldeia Mariry, quando ele voltava da casa da filha. Seu corpo só foi encontrado no rio pelos indígenas e sua esposa, no dia seguinte, com sinais gravíssimos de violência. Ninguém presenciou o crime.

Em 26 de julho, moradores da aldeia Yvitotô encontraram os garimpeiros armados nos arredores e avisaram as outras aldeias por rádio. Naquela noite, os criminosos invadiram uma das casas dessa aldeia e lá se instalaram, ameaçando e agredindo os moradores. Assustados e procurando evitar o confronto, os Wajãpi fugiram para a aldeia Mariry, e comunicaram a Funai e o Ministério Público Federal sobre a invasão, pedindo que a Polícia Federal fosse acionada. Porém, na madrugada, os moradores da aldeia Kapijuty também avistaram um invasor.

No dia 27, sábado, os indígenas decidiram entrar em contato com aliados – ONGs e parlamentares, entre eles – para pedir ajuda e apressar a PF. Foi aí que a notícia ganhou as redes sociais. Primeiro, o video emocionado que Caetano Veloso publicou do México, no meio de uma turnê internacional: “Sou do movimento 342Amazônia e o grupo recebeu um pedido de socorro dos indígenas Wajãpi, que estão sendo ameaçados neste momento por garimpeiros. Peço às autoridades brasileiras, em nome da dignidade do Brasil no mundo, que ouçam esse grito”. Depois, foi o senador Randolfe, em seu perfil no Instagram, que publicou um apelo para que todos espalhassem a notícia e pressionassem. Paulatinamente, a imprensa começou a divulgar o ataque. Randolfe registrou o crime e a invasão na Polícia Federal no sábado, por meio de um boletim de ocorrência.

Enquanto isso, guerreiros Wajãpi de outras regiões da TI (Terra Indígena) se deslocaram para as aldeias invadidas para dar proteção a seus parentes até a chegada dos policiais federais. Os representantes da Funai chegaram, conversaram com os Wajãpi e voltaram a Macapá para acionar a PF. Mas, os indígenas relatam que, durante toda a noite, ouviram tiros disparados próximo da Rodovia BR-2010, onde não havia nenhum indígena. Eles estavam armados com espingardas e metralhadoras e também tinham óculos especiais para a noite e um cão pitbull, tudo para intimidar os Wajãpi. Agrediram crianças e mulheres que se encontravam em aldeias ao redor. Foi o que relatou um indígena em áudio divulgado pelo site Mídia Ninja, que reproduzo no final deste post.

Fotos: Zig Koch

Ontem (domingo) pela manhã, policiais federais e do BOPE (Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar do Amapá) chegaram à TI Wajãpi. E o mundo já sabia da morte do líder indígena e da barbárie que se anuncia no território Wajãpi: o jornal britânico The Guardian foi o primeiro estrangeiro a divulgar o drama dos Wajãpi. Mais tarde, a Funai dava conta, em seu site, de que até aquele momento, “não há registros de conflito”.

Randolfe, que acompanha as investigações na região, logo anunciou para seus seguidores, no Instagram, a chegada das “forças da Segurança” ao local, agradecendo o governo do Amapá, a Funai, o governo federal, o Ministério Público Estadual (MPE), o Exército, o MPF e a PF por atenderem ao chamado. “Aguardamos novas informações das autoridades competentes. Vamos continuar na luta em defesa dos povos indigenas, nossos parentes”.

De acordo com o MPE, que lidera as investigações em parceria com PF, Exército e Funai, ainda não se pode dizer que os homens que invadiram as terras dos Wajãpi são garimpeiros. Nem que foram eles que assassinaram o cacique Enyra.

Tensão constante

Foto: Victor Moriyama

Localizada entre os estados do Pará e do Amapá, a Terra Indígena Wajãpi foi demarcada em 1996, no governo de Fernando Henrique Cardoso, abrange 6 mil quilômetros quadrados (pouco mais e 608 hectares) espalhados por três municípios (Pedra Branca do Amapari, Laranjal do Jari e Mazagão) e abriga 1.300 indígenas, organizados em diversas aldeias.

Mas, há um detalhe que a torna tão visada por garimpeiros e por Bolsonaro, que já falava dela e da Raposa Serra do Sol (dos Wapichana) durante a campanha: metade desse território está localizado na Reserva Nacional do Cobre e Associados (Renca)aquela que Michel Temer tentou extinguir para explorar, por meio de um decreto, em 2017 -, portanto, é riquíssima em ouro. Em oito e vegetação…

Foto: Zig Koch

A reserva tem 4,6 milhões de hectares de floresta amazônica, o que impede a atuação de mineradoras. Com um detalhe: é a única terra indígena com autorização para exploração de ouro, feita de forma artesanal, que só pode ser feita pelos indígenas, seus protetores.

Foto: Victor Moriyama

Quando Temer anunciou o decreto, rapidamente ambientalistas e ativistas se mobilizaram contra e ele “voltou atrás”… criando um novo decreto. O senador Randolfe Rodrigues foi um dos que alertou para essa decisão, dizendo que, na prática, nada mudaria. “Mantém a extinção e continua vulnerabilizando áreas indígenas e a floresta amazônica”.

Ou seja, é uma região de tensão constante. Mas há décadas não era invadida. No final deste post, também reproduzo video feito pelo jornal El País com depoimentos dos Wajãpi sobre o decreto de Temer pelo fim da Renca.

Bolsonaro quer legalizar o garimpo ilegal, não combatê-lo

Foto: Victor Moriyama

Quando Bolsonaro estava em campanha pela eleição, chegou a dizer, em palestra a empresários e ruralistas, que não seria demarcado mais nenhum centímetro de terra indigena no país. E, pelo que tem demonstrado em pouco mais de seis meses de governo, vai cumprir a promessa e ir além.

Há cerca de uma semana, o presidente afirmou que vai propor projeto para legalizar garimpos na Amazônia. Repare que ele não fala em eliminar os garimpos, mas em torna-los legais, dentro da lei. Ele também justificou a indicação surreal de seu filho Eduardo para chefiar a embaixada americana porque precisa de “alguém de confiança” para buscar apoio para intensificar a exploração mineradora no Brasil.

Só essas declarações irresponsáveis abrem precedentes terríveis e colocam a segurança dos indígenas em risco, já que suas terras guardam riquezas minerais sempre muito cobiçadas. E o presidente sempre falou sobre elas com ares de cobiça. Dessa forma, legitima a exploração e a invasão de terras, o avanço da grilagem, da exploração ilegal de madeira e do garimpo. A redução do poder dos órgãos de fiscalização e combate a crimes ambientais, como o Ibama, fazem parte dessa estratégia desenvolvimentista, que contribui para a destruição.

Recentemente, a BBC News Brasil analisou imagens de satélite (da Planet Labs), que revelaram o aumento do garimpo ilegal em terras indígenas da Amazônia – principalmente em Pará e Roraima – a partir de janeiro deste ano, ou seja, quando Bolsonaro assumiu o governo. Esse crescimento coincide com a alta do desmatamento, de acordo com dados do Inpe, um dos institutos de detecção de informações sobre cobertura da vegetação, que Bolsonaro e Ricardo Salles, ministro do meio ambiente, têm tentado desqualificar. O presidente chegou a dizer que tais índices atrapalham as negociações do país com o mercado internacional. Pra quem pensa que a questão ambiental é para “veganos que comem só vegetais -, como ele disse em defesa de seu projeto estapafúrdio de transformar a baía de Angra dos Reis em uma Cancún, faz sentido.

Foto: Zig Koch

Agora, ouça o relato do indígena Wajãpi sobre a atuação dos garimpeiros invasores na Terra Indígena Wajãpi e, em seguida, vídeo produzido pelo El País com depoimentos dos indigenas dessa etnia contra a extinção da Renca, reserva que abriga metade de suas terras.

Repare na potência da natureza revelada pelas imagens aqui publicadas e por este filme. Só de pensar que tudo pode ser destruído por ganância, que os seres que ali vivem – indígenas, animais e plantas – podem desaparecer, dá um nó na garganta.. e muita raiva. Até quando vamos suportar?

Fotos: Victor Moriyama (abertura, entre outras) e Zig Koch

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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