Francis Kéré, primeiro negro a receber o Prêmio Pritzker ou ‘nobel de arquitetura’, é reconhecido por projetos que promovem a justiça social e ambiental

Francis Kéré, primeiro negro a receber o Prêmio Pritzker ou 'nobel de arquitetura', é reconhecido por projetos que promovem a justiça social

Eu cresci em uma comunidade onde não havia jardim de infância, mas onde a comunidade era a família. Todos cuidavam de você e a vila inteira era seu playground. 

Meus dias eram preenchidos com a garantia de comida e água, mas também simplesmente por estarmos juntos, conversando juntos, construindo casas juntos. 

Lembro-me da sala onde minha avó se sentava e contava histórias com um pouco de luz, enquanto nos aconchegávamos e sua voz dentro da sala nos envolvia, convocando-nos a chegar mais perto e formar um lugar seguro. Este foi o meu primeiro sentido de arquitetura”.

É com esse depoimento tocante que se inicia a apresentação de Francis Kéré no site do Pritzker Prizer (Prêmio Pritzker), considerado o ‘nobel da arquitetura’, que ele acaba de conquistar. 

Eles nasceu Diébédo Francis Kéré, em 1965, em Burkina Faso, um dos países mais pobres do mundo. Lá não existe água potável, eletricidade, nem infraestrutura. Muito menos arquitetura, área pela qual se apaixonou, sem saber, ainda pequeno. 

Ao anunciar a escolha do júri este ano, Tom Pritzker, presidente da Fundação Hyatt, responsável pelo prêmio, declarou: 

“Kéré é um pioneiro da arquitetura sustentável em terras de extrema escassez. Ele é tanto um arquiteto quanto um servidor, um ativista social que melhora as vidas e experiências de incontáveis cidadãos numa região do mundo que, às vezes, é esquecida”. 

E completou: “Por meio de construções que revelam beleza, simplicidade, ousadia e inventividade, e pela integridade de sua arquitetura, Kéré defende graciosamente a missão deste prêmio”, que oferece U$ 100 mil (cerca de 500 mil reais) a seus contemplados.

Para o júri, sua sensibilidade cultural “não só fomenta justiça social e ambiental, mas orienta todo o seu processo, na consciência de que este é o caminho para a legitimidade de um edifício em uma comunidade. Ele sabe que a arquitetura não trata do objeto, mas do objetivo; não do produto, mas do processo. Toda obra de Francis Kéré nos mostra o poder da materialidade enraizada no lugar. Seus edifícios, para e com comunidades, são frutos diretos dessas comunidades – em sua construção, seus materiais, seus programas e seus personagens únicos. Eles estão conectados ao solo sobre o qual se assentam e às pessoas que dentro deles se assentam. Eles têm presença sem fingimento e um impacto moldado pela graça”. Lindo!

O educador, ativista social e arquiteto é a primeira pessoa negra a receber a honraria desde sua criação, em 1979, pelo casal Jay e Cindy Pritzker. Seu objetivo era reconhecer “profissionais com talento, visão e compromisso para produzir consistentemente grandes contribuições à humanidade por meio da arte da arquitetura”. Tudo a ver com Kéré.

Ao longo de 43 anos, dois brasileiros foram agraciados com o Pritzker: Oscar Niemeyer, em 1988 (que dividiu o prêmio com o americano Gordon Bunshaft) e Paulo Mendes da Rocha, em 2006.

Uma escola para Gando

Francis Kéré, primeiro negro a receber o Prêmio Pritzker ou 'nobel de arquitetura', é reconhecido por projetos que promovem a justiça social
As paredes de tijolo (argila) mantêm o frescor da escola primária de Gando / Foto: Erik-Jan Ouwerkerk

Kéré foi o primeiro morador do vilarejo Gando, no centro-oeste de Burkina Faso, a ter educação formal. E, para isso, teve que se mudar da cidade. A partir daí e de seu progresso, a vida foi encaminhando o futuro arquiteto. 

Em 1985, ganhou uma bolsa de estudos em Berlim, Alemanha, para aprender carpintaria. E por lá ficou, cursou arquitetura na Universidade Técnica de Berlim, montou seu escritório (Kéré Archtecture) e é onde mora, até hoje.

Mas nunca esqueceu suas origens. Desde que saiu de Gando, mantinha o sonho de voltar para ajudar sua comunidade e seu país. Queria que todos pudessem usufruir de sua formação, de alguma maneira.

Assim, quando conquistou o diploma de arquiteto, dedicou-se a pensar e a desenvolver projetos explorando apenas os recursos disponíveis em um cenário de total escassez.

Escola Primária de Gando é o projeto modelo que definiu seu trabalho como arquiteto e lhe rendeu o primeiro prêmio de sua carreira: o Aga Khan Award, do qual falo mais adiante.

Francis Kéré, primeiro negro a receber o Prêmio Pritzker ou 'nobel de arquitetura', é reconhecido por projetos que promovem a justiça social
O primeiro projeto da escola primária de Gand, construída com a ajuda da comunidade / Foto: Simeon Duchoud-

Para erguer as paredes – sempre com a ajuda da comunidade -, ele usou apenas tijolos e projetou um teto bem alto com estrutura de metal, que garantiu a circulação de ar. A escola não só se mantém fresca, como suporta bem a época de chuvas, por vezes, intensas. O projeto inicial abrigava 120 alunos.

Essa primeira fase foi reconhecida em 2004 pelo Aga Khan Award, prêmio trienal que oferece o total de 1 milhão de dólares a projetos inovadores, compatíveis com as necessidades dos muçulmanos.

O teto alto de metal garante a circulação na escola primária de Gando / Foto: Erik-Jan Ouwerkerk

O projeto era tão inovador que foi pensado por Kéré visando sua expansão para receber novos alunos. E assim foi quatro anos após a construção da escola original: sua ampliação garantiu a circulação de mais de 700 crianças, um alojamento para professores e uma biblioteca (abaixo).

Com a ampliação, a escola primária ganhou um alojamento para os professores / Foto: Erik Jan Ouwerkerk
A área de recepção da biblioteca, que faz parte da escola primária de Gando / Foto: Kéré Architeture

Mas a região de Gando não ganhou do arquiteto apenas o projeto da escola primária. O vilarejo tem também um jardim e uma escola secundária com sua assinatura.

Ainda em Burkina Faso, na África, Francis Kéré construiu uma outra escola secundária (Lycée Schorge) em Koudougou (abaixo).

Escola Secundária Schorge / Foto: Iwan Baan
Escola Secundária Schorge / Foto: Iwan Baan

Kéré desenvolve projetos em diversas partes do mundo para instituições, governos, empresas, exposições, eventos. Participou, junto com outros dois arquitetos (Gringo Cardia, do Brasil, e Shigeru Ban, do Japão), da reformulação do Museu da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho, em Genebra, na Suíça.

Criou o Serpentine Pavillion, em Londres (2017) e uma instalação Sarbalé ke (abaixo), composta de 12 torres para o Festival de Música e Artes Coachella, na Califórnia, Estados Unidos (2019). Além do belíssimo Pavilhão Xylem, no Trippet Rise Art Centre, em Montana, EUA (abaixo), projetado como um lugar para conversar, contemplar as vistas dos álamos e dos algodoeiros da margem do riacho Grove, ou sentar e meditar.

Sarbalé ke / Foto: Kéré Architecture
Xylem, no Trippet Rise Art Centre, em Montana / Foto: Iwan Baan para Kéré Architecture

Como construir com argila… e com a comunidade

Em uma palestra para o TED (evento periódico com palestras de 18 minutos), em 2013, Francis Kéré apresentou algumas das belas estruturas que ajudou a erguer na sua pequena aldeia, em Gando, como a escola primária feita totalmente de argila e com a ajuda de sua comunidade. Assista, a seguir:

Foto (destaque): Pritzker Prize/diivulgacao (retrato de Francis Kéré)

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Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.