
Foto: reprodução do vídeo de Flávio Mesquita
“Em pelo menos quatro encontros com sete indivíduos da espécie [maria-leque-do-sudeste] e algo em torno de seis ou sete horas somadas de observação, eu nunca tive a oportunidade de vê-la exibindo seu leque … a expectativa sempre era grande, mas a frustração vinha em seguida”, conta Flávio Mesquita, observador e fotógrafo de aves.
Foram dois anos de muita paciência, determinação, expectativa e frustrações – “ela não colaborava…” –, até que, finalmente, ele realizou seu sonho. “Fotografar a espécie com sua crista aberta era um objetivo muito desejado, desde quando comecei a passarinhar”.
No mês passado, Mesquita foi avisado por Duco, guia da cidade de Eldorado, no interior de São Paulo, que lá havia um casal de maria-leque-do-sudeste em condições muito propícias de observação. “Combinei com dois amigos, o Amer Cavalcanti e o Zezinho [José Aparecido Ferreira], ambos excelentes fotógrafos com os quais já havia viajado, e obtivemos sucesso na empreitada”, relata.
Após dois dias seguidos observando o casal indicado, ele conseguiu registrar o macho no momento em que abriu a crista em leque e a exibiu rapidamente. Isso, por quatro vezes. “Tá certo que foram mais umas seis horas [de espera], mas valeu a pena!”. E como ele sabe que o indivíduo fotografado é macho? “A fêmea tem a crista um pouco mais clara e com pintinhas pretas”.

Vídeo: Flávio Mesquita
O momento raro e mágico oferecido “por esta joia da Mata Atlântica” dura menos de dois segundos (alguns movimentos dela, acima), por isso, Mesquita alerta: “Se você não estiver atento, acaba perdendo a oportunidade e ‘tome’ esperar de novo por uma outra oportunidade”.
E ele celebra: “Este é o melhor registro da minha carreira de fotógrafo de aves, até agora! E não tem como não ficar apaixonado por esse bichinho! Não é à toa que ele é o Santo Graal da Mata Atlântica e move centenas de observadores e fotógrafos do mundo todo para tentarem testemunhar 1,5 segundos de puro êxtase!”.
O resultado está nas imagens que reproduzo aqui e no vídeo que Mesquita publicou no Instagram e compartilhamos no final do texto.
“Vício do bem”
Flávio Mesquita é psicólogo de formação e conta que sua relação com a natureza se estende por toda vida, desde menino. “Sempre gostei de animais e, especialmente, de passarinhos”.
Em sua chácara em São Carlos, interior de São Paulo, há muitos anos ele mantém comedouros para os animais silvestres da região. E sempre gostou de fotografar aves, atividade que foi impulsionada durante a pandemia, em especial devido a um casal de Fim-fim (Euphoria chlorotica), que fez ninho num vaso em frente à janela da cozinha.
“Observar o trabalho deles com o ninho me fascinou por completo”. Foi assim que ele se apaixonou de vez pelo mundo das aves. “Na Observação de Aves, existe a ideia do sparkle-bird, que é aquele momento em que te dá um estalo e, simplesmente, não tem mais volta. Se torna um vício do bem!”.
Por estar aposentado, o fotógrafo e observador passarinha com frequência pela região onde mora, muitas vezes sozinho. “Mas prefiro a companhia de um guia, que tem ouvido super treinado e o resultado da passarinhada é muito mais produtivo”.
Sua predileção por uma parceria profissional cresceu nos últimos dois anos – “muito intensos” –, durante os quais participou de diversas expedições a locais diferentes do Brasil, Equador e Colômbia.

e Amer Cavalcanti em passarinhada nos Andes do Equador
Foto: arquivo pessoal
“Nessas viagens, tive a oportunidade de conhecer excelentes guias e de fazer muitos amigos. Passarinhar diz respeito a muito mais do que observar passarinhos. É uma atividade lúdica de extremo prazer e uma oportunidade para, literalmente, expandir horizontes. Alguns vínculos se tornam duradouros, já que existe um interesse em comum, e depois a gente sempre encontra formas de programar novas viagens juntos”, conta.
Mesquita ainda lembra que tem sorte por ter, na cidade vizinha, Dourado, um guia que o acompanha desde seus primeiros passos na observação de aves. “Cal Martins é excelente e, hoje, o considero um amigo. Já fizemos expedições a vários pontos de interesse no Brasil e já temos outras programadas”.
Débora, esposa de Mesquita, também adora passarinhar, por isso, sempre que pode, o acompanha nas viagens. “Sinto que é uma atividade que enriquece nossa relação. A procura por aves acaba sendo uma desculpa para conhecer novos lugares e estar em profunda ligação com a natureza, juntos”. Na foto abaixo, eles estão em Campos do Jordão (SP), em busca do Mocho dos Banhados, também conhecida como coruja-do-bornal e coruja-do-Nabal.

Foto: arquivo pessoal
E Mesquita finaliza nossa conversa destacando a qualidade transformadora de passarinhar. “Adoro, por exemplo, histórias de guias que, antes, eram mateiros e caçadores e, hoje, são verdadeiros guardiões da natureza. A prática de birdwatching permite a eles uma vida digna, com remuneração decente e, ainda, contribui para a preservação ambiental”.
A seguir, assista ao flagra do momento deslumbrante da maria-leque-do-sudoeste na natureza registrado por Mesquita. Aproveite para segui-lo no Instagram e apreciar outros registros de animais que ele tem compartilhado.
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– Como passarinhar na janela
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Muito bom, ficaram lindas as imagens!
Olá Maria!
Feliz, aqui que você gostou.
O fotógrafo e observador de aves Flávio Mesquita é muito talentoso e sensível.
Abs
Olá Mônica, muito obrigado por compartilhar essa história de maneira tão cuidadosa ! A matéria ficou ótima ! Abç
Olá, Flávio!
Agradeço as palavras, que bom que você gostou.
Esse retorno é muito importante pra nós.
E agradeço sua disponibilidade em contar sua história com tantos detalhes.
Observadores de aves são bons contadores de histórias.
Abs