Fotógrafo brasileiro homenageia os filhos ao ser convidado para batizar baleia jubarte que registrou na Antártica, em 2019

Em janeiro último, a baleia jubarte da foto ganhou o nome de Fredi. Foi por causa desse registro fantástico – o primeiro desse animal – que o fotógrafo paulista Adriano Kirihara foi convidado pela organização internacional Happy Whale para batizá-la.

O convite foi feito por intermédio de Júlio Cardoso, do Projeto Baleia à Vista, que atua no litoral de São Paulo. Ele é colaborador dessa organização californiana, que é a maior e mais completa do mundo em monitoramento de baleias, entre outros cetáceos.

Depois de um tempo procurando um nome para a jubarte, Kirihara decidiu homenagear os filhos Frederico, de 8 anos, e Diogo, de 14. Afinal, eles andavam super animados e empenhados em ajudar o pai nessa missão. Combinou os dois nomes e gostou do resultado: Fredi. Os garotos também.

Diogo (de pé) e Frederico, felizes por ter seus nomes combinados para batizar Fredi / Foto: Adriano Kirihara

“Tô muito feliz! É uma emoção muito grande saber que existe uma baleia com os nossos nomes”, declarou Diogo. “Ah, eu tô feliz porque não é comum alguém conhecer uma baleia com seu nome, dedicada à você”, completou Frederico. 

“Agora, toda vez que alguém fizer um registro da Fredi no Happy Whales, vai descobrir seu nome e vamos ficar sabendo”, comemora o fotógrafo.

Diversão e ciência

Três anos antes, em janeiro de 2019, Kirihara participou de uma expedição fotográfica na Antártica, organizada pelo fotógrafo André Dib, a bordo do veleiro Fernande, comandado pelo capitão Charlie Flesch. 

“Essa é a época do verão antártico, quando as baleias dos oceanos Pacífico e Atlântico seguem para lá para se alimentar de krill”, conta ele. “A região é muito rica! Foram 26 dias de viagem e encontramos diversos indivíduos”. 

Fredi, em outro momento de seu passeio / Foto: Adriano Kirihara

Kirihara avistou a baleia no dia 13 e fez diversos registros interessantes (reproduzo alguns neste post). O que ele não imaginava é que essa aventura lhe renderia o reconhecimento da Happy Whale,

A organização recebe imagens individuais de mamíferos marinhos feitas por turistas e cientistas em qualquer lugar do planeta, que ajudam a identificá-las e rastreá-las, “por diversão e pela ciência”.

Dessa forma, promove Ciência Cidadã, como explica Cardoso, do Baleia à Vista.

“Fazer pesquisas no mar é difícil e muito caro, por isso, quem contribui com essa plataforma está praticando Ciência Cidadā, ou seja, somos pessoas que têm acesso a barco, navegam e contribuem para o conhecimento científico da fauna marinha”.

“Deu match!”

Foi Cardoso quem incluiu o registro de Fredi por Kirihara no site da Happy Whale.

Em dezembro de 2021, quando o fotógrafo americano Jeff Litton publicou fotos de baleias que produziu em novembro durante expedição a bordo do navio Lin Blad, da National Geographic Expeditions, “deu match!”, brincou o fotógrafo. Veja as duas imagens, abaixo:

O registro de Fredi em janeiro de 2019, por Adriano Kirihara, publicado por Julio Cardoso na plataforma Happy Whale
Fredi, por Jeff Litton, em regitro de novembro de 2021

Mas como foi possível fazer essa identificação? “Depende de cada espécie”, conta Cardoso. “No caso da baleia jubarte é pela parte inferior da cauda, que aparece muito bem nos registros de Adriano e do outro fotógrafo que a flagrou!”.

“Essa parte da cauda da jubarte é como sua digital, é sua marca. E o projeto Happy Whale tem programas que usam algoritmos específicos para garantir esse reconhecimento pelas fotos”.

Cardoso acrescenta: “No caso de outras espécies como as baleias de Bryde, os golfinhos e as orcas a identificação se faz pelas marcas e formatos da nadadeira dorsal, que são muito diferentes em cada espécie.

O poder da fotografia na conservação

Foto: Adriano Kirihara

Ao tomar conhecimento da descoberta, o especialista escreveu na página da baleia: “Fantástico! O primeiro encontro foi registrado por Adriano Kirihara a bordo do veleiro Fernande em 2019 e, agora, ela foi vista na mesma área de dois anos atrás”.

Na verdade, são quase três anos! O que torna a notícia ainda mais interessante. 

“Fredi foi registrada pelo fotógrafo americano num local muito próximo do que eu fotografei. Isso mostra que, em seu processo migratório, ela voltou ao mesmo local para se alimentar. É legal saber que está viva, nadando pelos oceanos! É muito gratificante. Eu diria que o sentimento que tenho de tudo isso é muita gratidão pela natureza!”. 

E acrescentou: “Por seu estilo migratório, os pesquisadores acreditam que ela vem do Oceano Pacífico. Poder monitorar e saber dos seus hábitos ajuda a compreender melhor esse animal. E este é o poder da fotografia na conservação”. 

Acima, a página da Fredi na plataforma Happy Whale: no mapa, é possível ver o registro de Kirihara (o primeiro, azul) e do americano

Veja – na foto acima e no link do mapa da página da Fredi – os três registros fotográficos da Fredi no site da Happy Whale.

O primeiro, de 13/1/2019, é de Kirihara; o segundo, é de Sig Bial, outro colaborador da organização que estava no mesmo veleiro; e o terceiro, de Litton, de 27/12/2021.

“Espero que a Fredi seja registrada muitas vezes, ainda. As jubartes vivem uns 70 anos e ela ainda pode ser muito avistada por ai!”, celebra Cardoso.

Baleias à vista no litoral norte de SP

Baleia jubarte (Megaptera novaeangliae) por Airlane Francisco

Júlio Cardoso trabalha com monitoramento de cetáceos (baleias e golfinhos) no litoral norte de São Paulo desde 2004. “Sempre naveguei muito. Durante um tempo também pratiquei pesca esportiva oceânica e navegava pelo mar azul. Vi coisas incríveis, muitas baleias e golfinhos e, como tenho paixão por fotografia, mudei o foco: passei a navegar para poder encontrar e fotografar esses bichos fantásticos!”, conta Cardoso. 

Para desenvolver suas habilidades com fotografia, ele diz que contou com a ajuda da bióloga Shirley Pacheco de Souza e, a partir daí, com mais bagagem, começou a montar seu próprio catálogo, já visando sua contribuição para a Ciência: 

“Organizei-o de forma que pudesse ser consultado também por cientistas e pesquisadores”.

A criação do Projeto Baleia à Vista foi consequência desse esforço e do encontro com a bióloga Arlaine Francisco, no final de 2016. 

“Não somos uma ONG ou empresa. Nosso projeto não tem existência formal, mas, sim, digital. Registramos tudo no site e usamos o Facebook e o Instagram para divulgar nosso catálogo, que é um dos mais extensos sobre cetáceos identificados no Brasil. São quase 800 registros com cerca de 50 mil fotos e centenas de baleias e golfinhos identificados, principalmente no litoral norte de SP”. 

Golfinho-pintado-do-Atlântico por Julio Cardoso

Esse trabalho tem rendido a participação e a elaboração de diversas publicações cientificas, indicadas no site do projeto.

Desde 2017, o Baleia à Vista é parceiro do Projeto Baleia Jubarte, “uma espécie de “filial” deles, aqui, no litoral paulista. E eu ainda faço parte do conselho do Instituto Baleia Jubarte”. 

O projeto ainda mantém parcerias internacionais, sendo que a mais importante é com a plataforma Happy Whale, “a maior e a mais completa do mundo em termos de dados sobre várias espécies de baleias – são mais de 73 mil baleias identificadas!”. Lá, até agora, seu projeto publicou 1.353 fotos, sendo 291 registros, entre eles 259 baleias. 

“Já reencontramos várias delas e batizamos um bom número! Queremos cada vez mais batizar baleias reavistadas, o que é feito pelo autor do primeiro registro, como aconteceu com Adriano”.

O catálogo do Baleias à Vista é focado no litoral norte de SP, mas, entre seus colaboradores, há fotógrafos parceiros que viajam para a Antártica, como Adriano e André Dib, que também já teve baleias identificadas na Happy Whale, em anos anteriores. 

“Eles nos mandam as fotos e montamos um catálogo na plataforma. Já conseguimos vários registros de jubartes conhecidas lá”. E o especialista acrescenta: 

“Acabamos de ajudar numa publicação cientifica sobre como as populações dos oceanos Pacífico e Atlântico estão começando a se misturar. Isto porque todas vão se alimentar de krill na Antártica e algumas decidem se juntar ao grupo do outro oceano para se reproduzir nas águas quentes da Bahia, no Atlântico, ou do Panamá, no Pacífico”.

A seguir, veja o post publicado por Adriano Kirihara sobre o batismo da Fredi, em seu Instagram.

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.