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Fotógrafo brasileiro Bruno Kelly é destaque em concurso internacional com série sobre a seca na Amazônia

Fotógrafo brasileiro Bruno Kelly é destaque em concurso internacional com série sobre a seca na Amazônia

*Por Nicoly Ambrosio

O fotojornalista Bruno Kelly, colaborador da Amazônia Real, foi um dos profissionais a receber Menção Honrosa no mais antigo concurso de fotojornalismo do mundo, o Pictures of The Year International (POY). Ele foi premiado na categoria Local News Picture Story, pelo seu trabalho na agência Reuters, dedicada a coberturas feitas nos locais de origem das organizações ou fotógrafos, com um ensaio que mostra os efeitos devastadores da maior seca já registrada na Amazônia, entre os meses de setembro e dezembro de 2023.

Natural de São José dos Campos (SP), Bruno Kelly vive em Manaus desde 2009 e colabora com a Amazônia Real desde 2013, ano de criação da agência. Participou, por exemplo, da série especial “Ouro do Sangue Yanomami”, parceria com a Repórter Brasil, quando sobrevoou a Terra Indígena Yanomami ao lado da jornalista Maria Fernanda Ribeiro. 

Recentemente, o fotojornalista trabalhou ao lado da jornalista e cofundadora da Amazônia Real, Elaíze Farias, na reportagem especial “Os guerreiros do Médio Javari’, que ouviu do povo Kanamari os relatos sobre invasões e ameaças ao território na Terra Indígena Vale do Javari, no oeste do Amazonas. 

Bruno Kelly também fez parte do documentário “Genésio – Um Pássaro Sem Rumo”, dirigido por Maria Fernanda, sobre a testemunha do assassinato do líder ambientalista Chico Mendes; e do documentário “O Mata Cavalo”, dirigido pelo jornalista Vandré Fonseca, sobre a luta do quilombo por regularização no Mato Grosso. 

Em maio de 2021, ele lançou o livro “Arapaima” que apresenta imagens do dia a dia do manejo sustentável comunitário de pirarucu em áreas protegidas do estado do Amazonas.

O trabalho de Bruno Kelly premiado no POY é uma série de dez fotos feitas para a agência internacional de notícias Reuters. Ele registrou os impactos da crise climática na região amazônica, sentidos principalmente por comunidades indígenas e ribeirinhas, com consequências graves para a biodiversidade. A seca extrema, aliada ao calor intenso, isolou populações que vivem em aldeias e comunidades afastadas dos centros urbanos. Sem as “estradas” dos lagos, igarapés, paranás e rios, elas sofreram com a escassez de alimentos e de água potável.

Em campo, o fotojornalista visitou lugares como a comunidade Santa Helena do Inglês, localizada na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Rio Negro, em Iranduba; a Comunidade Bela Vista do Jaraqui, na RDS Puranga Conquista; e o Lago do Puraquequara, em Manaus, além dos municípios de Careiro da Várzea e Manacapuru, todos no Amazonas. 

Imagens como a de botos que morreram nas águas quentes, com temperatura de 39°C, dois acima da temperatura média do corpo humano; e a de rios secos rodaram o mundo e foram publicadas em diversos jornais. Parte do material saiu na capa do jornal americano The New York Times, em novembro de 2023.

Em entrevista concedida à Amazônia Real, o fotógrafo conta como foi o processo de produzir as fotos que denunciaram ao mundo a crise climática vivida na região amazônica.

Fotógrafo brasileiro Bruno Kelly é destaque em concurso internacional com série sobre a seca na Amazônia

Bruno Kelly fotografado por César Nogueira/Artrupe

Como a série de fotos sobre a seca foi planejada?
Eu trabalho como fotojornalista freelancer em Manaus. Colaboro para veículos de imprensa do Brasil e exterior e também para ONGs que possuem foco em ações socioambientais. A seca logo entrou no meu radar, pois desde o início já tínhamos informações vindas de pesquisadores de que esta estiagem seria potencializada pelo El Niño e também pelo aquecimento dos oceanos. Fortes ondas de calor e a ação criminosa humana, queimando áreas de floresta em todo o estado, deixaram o povo do Amazonas e toda biodiversidade local em uma situação bem crítica por meses. Então fui a campo para mostrar os impactos desse conjunto de ações extremas. Toda a cobertura da seca foi feita para a agência internacional de notícias Reuters, para a qual colaboro desde 2012.

Quais dificuldades você encontrou para fazer essas fotos durante as viagens de campo?
A principal via de transporte na Amazônia são os rios e sem eles a logística ficou muito limitada, muitos lugares ficaram isolados. Comunidades ribeirinhas viram seus rios virarem lama e o acesso à água passou a ser um dos problemas mais emergenciais no meio da maior bacia hidrográfica do mundo. Ribeirinhos caminhavam horas e até dias para chegar onde havia água e onde chegava  a pouca ajuda enviada, como cestas básicas e galões de água potável. O calor e a densa fumaça deixavam tudo ainda mais difícil.

Qual foi o impacto que você teve ao se deparar com toda a dimensão da seca? 
Ver pessoas tirando água da lama para beber, peixes morrendo aos milhares e mais de 150 botos cozinhando até a morte em uma água que beirava os 40 graus celsius foi muito difícil. Mas isso foi o que conseguimos ter acesso, sempre imaginava o que estaria acontecendo nos lugares mais longínquos, onde não era possível chegar. Não é de agora que a Amazônia e seus povos sofrem com a ação criminosa de humanos que acham que a floresta é uma mercadoria. Toda essa biodiversidade, homens, mulheres e crianças já sentem na pele as mudanças climáticas e precisam ser respeitados, pois se ainda temos a Amazônia é por conta deles, os verdadeiros protetores dessa riqueza. Eles precisam ser ouvidos e recompensados por preservar e cuidar da floresta.

Você acredita que o fotojornalismo pode servir como meio de denúncia da crise climática que estamos vivendo na Amazônia?
O jornalismo é essencial para todos, pois a informação nos faz tomar decisões. Esse é nosso papel e precisamos fazê-lo com responsabilidade. A mentira não pode se perpetuar e só combatemos ela com informação, através de  imagens ou textos com credibilidade e ética.

Como é a sua relação e a sua proximidade com a região amazônica?
Eu sou natural do interior de São Paulo, nasci e estudei jornalismo em São José dos Campos. No fim de 2008 havia tomado a decisão de que gostaria de sair do eixo Rio-São Paulo para conhecer melhor a realidade do meu país. Por ocasião do destino, recebi uma proposta em março de 2009 para cobrir uma licença de um fotógrafo do jornal A Crítica, em Manaus, uma oportunidade daquelas de ouro que na época não sabia bem a dimensão que iria ter em minha vida. No jornal tive a oportunidade de conhecer pessoas maravilhosas e excelentes profissionais que não deixariam a desejar para nenhum correspondente experiente do Brasil ou do exterior.

Pude conhecer Manaus do lado do avesso, pois a editoria de fotografia cobre todos os temas de um jornal, do esporte à cultura, da política à criminalidade. Foi uma escola. Pude viajar pelo interior e andar com jornalistas que conhecem a Amazônia de verdade e que tiveram muita paciência para passar seus conhecimentos e ir aos poucos quebrando  os estereótipos que tinha dentro de mim, de um sudestino que acabara de chegar no norte do país. Digo que foi a melhor maneira de chegar aqui, através de um jornal local. Conhecer o fotojornalismo que é feito aqui e que precisa romper divisas, pois é de excelência e tem muito a mostrar.

Hoje posso dizer que escolhi a Amazônia pra viver ou ela me escolheu, né, vai saber? Continuo aprendendo com ela e com os amigos que ela tem me dado e com as experiências que ela tem me proporcionado. Sou eternamente grato a todos aqueles que me ensinaram e continuam me ensinando sobre essa região tão diversa que é a Amazônia.

O que esse prêmio significa para a sua carreira?
Confesso que não sou uma pessoa muito competitiva, prefiro sempre jogar com o coletivo, mas acredito que concursos de jornalismo como o POY podem de alguma maneira intensificar a visibilidade do assunto que está sendo sugerido pelo profissional. Fotografamos e escrevemos para que as pessoas possam ter a ciência do que está acontecendo nos lugares, com as pessoas que vivem nesses lugares. Pois acredito que tudo está conectado e toda pessoa pode sim gerar um impacto positivo ou negativo em um local por mais longe ou perto que esteja.

A Amazônia e seus povos ainda são vistos com distanciamento por aqueles que não vivem aqui, seja no exterior ou até mesmo nas outras regiões do nosso Brasil, que é muito grande. Então se for pra levar essas imagens a mais pessoas, acho que o prêmio cumpre seu papel. Não para mim, mas para o assunto que está sendo colocado em evidência. Fico muito feliz e honrado de receber essa Menção Honrosa.


Valmir Silva fura uma cacimba para pegar água no Lago do Puraquequara,
em Manaus que sofre com forte estiagem dos rios Negro e Solimões
(Foto: Bruno Kelly/ Reuters)

Embarcações e casas flutuantes encalhadas no Lago do Puraquequara, que sofreu
com a pior estiagem da história dos rios Negro e Solimões
(Foto: Bruno Kelly/ Reuters)

Paulo Monteiro da Cruz em meio aos peixes mortos por conta da forte estiagem do rio Solimões
que afetou a RESEX Lago do Piranha, em Manacapuru
(Foto: Bruno Kelly/ Reuters)

O pescador Raimundo da Silva do Carmo de 67 anos, pega água na cacimba que mandou fazer em meio ao Lago do Puraquequara, em Manaus
(Foto: Bruno Kelly/ Reuters)

Barco e casas flutuantes encalhadas por conta da forte seca que atingiu o rio Negro, no porto do distrito do Cacau Pirêra, no município de Iranduba, Amazonas
(Foto: Bruno Kelly/ Reuters)

Carcaças de botos-cor-de-rosa e tucuxis no Lago Tefé foram encontradas e precisaram de uma força-tarefa de legistas, ambientalistas e pesquisadores
(Foto: Bruno Kelly/ Reuters)

*Texto publicado originalmente em 15/02/24 no site da Amazônia Real

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