‘Fóssil do Dia’: Brasil ganha prêmio por culpar as organizações da sociedade civil pelos incêndios na Amazônia

Foi durante a conferência de mudanças climáticas realizada em Bonn, Alemanha, em 1999, que a Climate Action Network (CAN)Rede de Acão pelo Clima, em tradução livre – lançou o prêmio Fóssil do Dia (The Fossil of The Day Award). Simbólico e irônico, ele é oferecido pelos membros da organização que elegem, todos os dias, os países que prejudicam o meio ambiente e se comportam mal durante as negociações, impedindo que avancem e, muitas vezes, alegando que fizeram “o melhor” que podiam.

Ontem, 3/12, na Conferência Internacional sobre Mudanças Climáticas (COP25, da ONU, em Madri, o Brasil foi um dos vencedores, ao lado do Japão e da Austrália Ah, merecido, não? Ele foi escolhido porque o governo colocou “a culpa pelos incêndios na Amazônia na sociedade civil”.

Os integrantes dessa Rede costumam fazer uma cerimônia de entrega divertida que, claro, não conta com as presenças dos representantes dos países, mas de “supostos representantes”e chama bastante a atenção dos participantes e da mídia (assista ao vídeo, no final do post).

Vale contar aqui que, muito preocupada com os rumos do Brasil em relação ao meio ambiente e ao clima, no primeiro dia da conferência do clima da ONU, 2/12, a Climate Action Network divulgou nota de repúdio às propostas divulgadas pelo ministro do meio ambiente, Ricardo Salles, para sua participação na COP 25. Pelo título, já dá pra entender o tom: Nós queimamos, vocês pagam: a nova tática de negociação do Brasil (leia sobre a nota, aqui).

O país não cansa de ser eleito…

Não é a primeira vez que o Brasil é agraciado com o Fóssil do Dia. No ano passado, ele dividiu o título com a Arábia Saudita e o grupo de nações árabes por seu esforço em fazer retroceder as negociações para limitar o aquecimento global a 1,5°C. A decisão brasileira de não sediar a COP25, este ano, e a ameaça de que o país abandonaria o Acordo de Paris, posteriormente relativizada, mas não descartada, pelo então futuro ministro Salles.

Na época, a Rede já estava de olho no futuro governo Bolsonaro. “Se você acha que isso é uma vergonha, considere por um minuto o futuro chanceler brasileiro, Ernesto Araújo, um homem que vê Donald Trump como um exemplo a ser seguido e escreveu que as mudanças climáticas são parte de um trama marxista para transferir poder à China”.

A organização ainda fez muitas críticas ao presidente eleito, questionando seus planos em relação à floresta amazônica: “Ele prometeu acabar com o controle do desmatamento, negociar terras indígenas e até acabar com o Ministério do Meio Ambiente”, o que não aconteceu. Quer dizer, na prática, sim, já que Salles foi contratado para destruir o meio ambiente. Outro ponto destacado pela Rede foi o crescimento do desmatamento na Amazônia: “Entre agosto e novembro, as taxas de desmatamento subiram 32%, e um estudo recente estima que (o total) pode chegar a 25 mil quilômetros quadrados por ano, com emissões resultantes de 3 bilhões de toneladas de dióxido de carbono. Isso é ‘tchau’ a 1,5°C”.

Mal sabia ela que a situação poderia ser muito pior.

Agora, assista à entrega do prêmio ao Brasil, Japão e Austrália.

Imagem: Divulgação

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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