‘Flecha Selvagem’: série de filmes curtos é fruto de um sonho de Ailton Krenak para ‘adiar o fim do mundo’. Lançamento da primeira flecha: 11 de maio!

'Flecha Selvagem': série de pequenos filmes é fruto de um sonho de Ailton Krenak para 'adiar o fim do mundo'. Lançamento do primeiro episódio: 5 de maio!

Atualizado em 5 e 6/5/2021 devido ao adiamento do lançamento do primeiro filme devido ao luto em homenagem a Paulo Gustavo, que faleceu em 4/5 devido a complicações de saúde causadas por Covid-19. A primeira flecha seria, então, disparada em 6 de maio. Mas os organizadores alteraram a data novamente: vai ser em 11 de maio, às 16h, na virada da fase da Lua para Nova.
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Em 2018, o Rio de Janeiro ganhou um evento muito especial batizado com um nome muito sugestivo e inspirador: Selvagem – Ciclo de Estudos sobre a Vida. Idealizado por Anna Dantes, diretora da Dantes Editora, o encontro, que durou três dias em dezembro, reuniu pensadores de áreas diversas para conectar saberes científicos e ancestrais.

A mediação coube ao líder autor e pensador indígena Ailton Krenak.

Divulgamos o Ciclo Selvagem aqui, no Conexão Planeta, e também sobre a realização de sua versão paulistana, no mês seguinte, sob o comando de Anna e a mediação de Krenak, claro.

O evento teve continuidade em 2019, no Rio de Janeiro (veja foto que ilustra este post, de Elisa Mendes/Divulgação), mas, em 2020, o Selvagem foi interrompido pela pandemia.

De lá pra cá, Anna, sempre muito bem acompanhada por Krenak, tem organizado lives – que ganharam o nome de Conversa Selvagem – para manter a conexão pulsante. Ele já trocou ideias com os cientistas Marcelo Gleiser, Antonio Nobre e Emanuele Coccia, por exemplo. Está tudo registrado nas redes sociais – InstagramFacebook e YouTube – pra quem quiser ver e rever.

No mês passado, com o apoio do Selvagem, Ailton Krenak se uniu a Carlos Papá e Cristine Tekuá – lideranças indígenas do povo Guarani Mbya – para realizar o festival de arte contemporânea indígena ‘rec.tyty’, durante nove dias. Contei aqui, também.

Agora, driblando mais este ano pandêmicoo Ciclo de Estudos Selvagem lança uma lindeza de série: a Flecha Selvagem!

São seis filmes curtinhos, de 15 minutos, que reúnem trechos das rodas de conversa dos ciclos de 2018 e 2019 e dos bate-papos online de 2020 e 2021, resgatando pensamentos e reflexões sob as perspectivas científicas, mitológicas e ancestrais, numa linguagem especial.

Não perca o lançamento do primeiro episódio – da primeira flecha! – no canal do YouTube do Selvagem – Ciclo de Estudos, em 11 de maio, às 16h.

As outras cinco flechas serão lançadas até dezembro. Avisarei aqui, assim que souber. Todos os filmes ficarão disponíveis gratuitamente no YouTube do Selvagem, com legendas em inglês.

Sonho para adiar o fim do mundo 

Flecha Selvagem é a realização de um sonho de Krenak para “adiar o fim do mundo”. Foi a solução que ele encontrou para que o conteúdo desses encontros fosse mais bem aproveitado, reaproveitado, reciclado, e pudesse promover novas reflexões

Assim, a websérie é composta por uma narrativa na voz do líder indígena que permeia “uma irradiante miríade de imagens ‘compostadas’ de diversos arquivos”, que ainda inclui animação – produzida com as ilustrações lindas de Lívia Serri Francoio – e trilha sonora original.

Veja o teaser do primeiro filme no final deste post.

'Flecha Selvagem': série de pequenos filmes é fruto de um sonho de Ailton Krenak para 'adiar o fim do mundo'. Lançamento do primeiro episódio: 5 de maio!
Ilustração: Lívia Serri Francoio

Flecha Selvagem é uma forma de propagarmos os conteúdos pelos quais passeamos no SELVAGEM, um ciclo de estudos sobre a vida que abre caminhos para a coexistência de saberes tradicionais, científicos e artísticos. A série não gerou imagens novas. É uma experiência fruto dos tempos que atravessamos, em que devemos aprender a lidar com a medida do possível e, mesmo assim, continuar buscando a beleza”, relata o texto de apresentação do Ciclo em suas redes sociais.

Para acompanhar essa “compostagem” de ideias, os idealizadores também selecionaram vídeos e imagens de instituições como MAR – Museu de Arte do Rio de Janeiro, Smithsonian Institute, Fundação Cartier, Getty Foundation e NASA, entre outras.

A intenção é atingir o público em geral, mas, também fazer “um convite para que escolas, universidades, pontos de cultura e projetos comunitários de educaçãoacessem narrativas mais pluriversais”. Por isso, com este projeto, são abertos espaços para que sejam feitas novas perguntas.

E mais: cada flecha/vídeo será acompanhada/o por um Caderno Selvagem que terá download gratuito. Será uma publicação especial com informações complementares, com propostas de atividades e outras ativações. Veja, neste link, a série de cadernos já produzida pelo Ciclo.

O tema de cada flecha

'Flecha Selvagem': série de pequenos filmes é fruto de um sonho de Ailton Krenak para 'adiar o fim do mundo'. Lançamento do primeiro episódio: 5 de maio!

O primeiro vídeo – A serpente e a Canoa – se baseia em três livros: A Serpente Cósmicao DNA e a Origem do Saber,de Jeremy Narby; Antes o mundo não existia, de Desana; e O mundo Tukano antes dos brancos, de Álvaro Tukano. 

Com narração inicial da artista Daiara Tukano, o vídeo exibe obras de artistas brasileiros (entre eles, indígenas) e estrangeiros vivos e já falecidos. São eles:

Tunga, Jonathas de Andrade, Tarsila do Amaral, Anna Maria Maiolino, Antonio Dias, Mestre Didi, Alexandre Vogler, Modesto Brocos, Pablo Amaringo, Cyprien Tokoudagba, J. Borges, Caravaggio, Fernando Lindote, Gilvan Samico, Denilson Baniwa, Jaider Esbell, Rivane Neuenschwander, Louise Bourgeois, Sol Lewitt, Yayoi Kusama, Leandro Katz, além de artistas do povo Huni Kuin.

Abaixo, reproduzo os textos de apresentação dos seis vídeos divulgados pela organização, que muito bem resumem os temas. 

SERPENTE CÓSMICA

'Flecha Selvagem': série de pequenos filmes é fruto de um sonho de Ailton Krenak para 'adiar o fim do mundo'. Lançamento do primeiro episódio: 5 de maio!

“Viajaremos por teorias de criação do Cosmos ao surgimento da vida na Terra a bordo de narrativas científicas contemporâneas e das memórias das culturas ancestrais e tradicionais. O fio condutor deste episódio será a Serpente Cósmica, presente em mitos de origem de diferentes culturas, vista como a dupla hélice do DNA, código de memória presente em tudo que é vivo.

A viagem percorrerá uma sequência entremeada de mitos de origens e hipóteses científicas sobre o surgimento da Vida.  

PLANTAS MESTRAS 

Aqui, o conhecimento tradicional nativo conversa com Paracelso, Darwin, Lineu e Lynn Margulis. Pensar que há um domínio das plantas, responsáveis pela fotossíntese, que transforma energia solar em matéria. Pode-se dizer que a memória está inscrita na natureza através dos genomas. E assim, de mãos dadas com diferentes linhagens de botânicos, raizeiros e pajés, caminharemos entre as plantas mestras, agentes da pluriversalidade, para perceber a profundidade da nossa conexão com a biosfera.  

BIOSFERA

Gaia, a Biosfera, é um grande organismo vivo do qual todos fazemos parte. Para além do Antropoceno, uma visão da Vida onde tudo está absolutamente relacionado, das cianobactérias ao ozônio. Ver a fotossíntese como chave de manutenção do equilíbrio dinâmico e dessa forma perceber a importância da matéria verde para a regulação da biosfera. Falaremos de raios cósmicos, frequências de luz, energia química e outros processos. A Teoria de Gaia, aqui, dialogará com o céu suspenso, como descrito por Davi Kopenawa.  

SERES INVÍSIVEIS 

Os seres invisíveis são essenciais para a vida. A ciência os revela como contínuas atividades de plânctons, fungos, vírus, bactérias e diatomáceas que regulam da Biosfera. Mergulharemos no conceito da simbiose, mecanismo de evolução a partir da cooperação e não da competição, aprofundando-nos, assim, nas relações entre os seres e também nas soluções que outros organismos encontraram para questões como, por exemplo, a geração de resíduos. Na visão indígena, os seres invisíveis encontram outra metafísica: os grafismos como visualidade da ordem energética da vida, gente-peixe, gente-pedra, gente-planta, os “espíritos” da mata, os “donos” dos lugares. Eles também habitarão esta flecha. 

METAMORFOSES 

A metamorfose como expressão do processo de transformação contínua da vida. O filósofo Emanuele Coccia diz que a vida é uma migração entre corposonde cada ser vivo é uma espécie de casulo pelo qual a vida constrói algo diferente. Com essa inspiração, construiremos uma ponte entre a narrativa de Coccia e conceitos indígenas como shuku shukuê que, para os Huni Kuin, representa “a vida não tem fim”.  

REGENERANTES 

“Micróbios, vegetais, animais, fungos, elementos orgânicos e inorgânicos se relacionam a centenas de milhões de anos de forma equilibrada e dinâmica. Os humanos tornaram-se uma força geológica capaz de afetar a estrutura sensível que sustenta a biosfera. O ecólogo Fabio Scarano fala de espécies que atuam como células-tronco na atividade de retecimento da camada viva do planeta. Dessa proposição buscaremos alinhar no front da batalha pela vida, do encantamento pela vida, algumas atividades que transformam de forma positiva o sistema insustentável em que vivemos. Quem são os seres regenerantes que podem colaborar para cicatrizar a ferida antropocênica?

Falaremos sobre a revegetalização do planeta, como dizia o pajé Agostinho Ika Muru do povo Huni Kuin, e outros comandos de regulação para além dos humanos”. 

“O futuro é ancestral” 

É o que diz Krenak. Se entendermos o que se encerra nesta mensagem, saberemos como participar com sabedoria da dança cósmica para a qual o pensador indígena nos convida sempre. 

Agora, assista ao teaser do primeiro episódio.

Foto (destaque): Elisa Mendes (registro de Ailton Krenak durante o Selvagem – Ciclo de Estudos de 2019)

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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