‘Flecha Selvagem’: série de filmes curtos é fruto de um sonho de Ailton Krenak para ‘adiar o fim do mundo’

'Flecha Selvagem': série de pequenos filmes é fruto de um sonho de Ailton Krenak para 'adiar o fim do mundo'. Lançamento do primeiro episódio: 5 de maio!

Atualizado em 29/9/2021
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Em 2018, o Rio de Janeiro ganhou um evento muito especial batizado com um nome muito sugestivo e inspirador: Selvagem – Ciclo de Estudos sobre a Vida. Idealizado por Anna Dantes, diretora da Dantes Editora, o encontro, que durou três dias em dezembro, reuniu pensadores de áreas diversas para conectar saberes científicos e ancestrais.

A mediação coube ao líder autor e pensador indígena Ailton Krenak.

Divulgamos o Ciclo Selvagem aqui, no Conexão Planeta, e também sobre a realização de sua versão paulistana, no mês seguinte, sob o comando de Anna e a mediação de Krenak, claro.

O evento teve continuidade em 2019, no Rio de Janeiro (veja foto que ilustra este post, de Elisa Mendes/Divulgação), mas, em 2020, o Selvagem foi interrompido pela pandemia.

De lá pra cá, Anna, sempre muito bem acompanhada por Krenak, tem organizado lives – que ganharam o nome de Conversa Selvagem – para manter a conexão pulsante. Ele já trocou ideias com os cientistas Marcelo Gleiser, Antonio Nobre e Emanuele Coccia, por exemplo. Está tudo registrado nas redes sociais – InstagramFacebook e YouTube – pra quem quiser ver e rever.

No mês passado, com o apoio do Selvagem, Ailton Krenak se uniu a Carlos Papá e Cristine Tekuá – lideranças indígenas do povo Guarani Mbya – para realizar o festival de arte contemporânea indígena ‘rec.tyty’, durante nove dias. Contei aqui, também.

Agora, driblando mais este ano pandêmicoo Ciclo de Estudos Selvagem lança uma lindeza de série: a Flecha Selvagem!

São seis filmes curtinhos, de 15 minutos, que reúnem trechos das rodas de conversa dos ciclos de 2018 e 2019 e dos bate-papos online de 2020 e 2021, resgatando pensamentos e reflexões sob as perspectivas científicas, mitológicas e ancestrais, numa linguagem especial.

O lançamento do primeiro episódio – da primeira flecha! – estava marcado para 4/5, mas foi adiado devido á morte do ator Paulo Gustavo por covid-19. Aconteceu no canal do YouTube do Selvagem – Ciclo de Estudos, em 11 de maio, às 16h, na virada da fase da Lua para Nova.

A segunda flecha – O Sol e a Flor – foi lançada em 28 de julho e ainda teve conversa com Ailton Krenak e o físico Marcelo Gleiser, narradores do vídeo, mediados por Anna Dantes.

E a terceira foi em 16 de outubro foi lançada Metamorfose, seguida pela conversa deliciosa de Anna Dantes com Krenak e a artista Daiara Tukano.

A seguir, um pouco mais da minissérie que deve ser finalizada no primeiro semestre de 2022. Todos os filmes ficarão disponíveis gratuitamente no YouTube do Selvagem, com legendas em inglês. Reproduzo todas as que foram publicadas até agora, abaixo.

Sonho para adiar o fim do mundo 

Flecha Selvagem é a realização de um sonho de Krenak para “adiar o fim do mundo”. Foi a solução que ele encontrou para que o conteúdo desses encontros fosse mais bem aproveitado, reaproveitado, reciclado, e pudesse promover novas reflexões

Assim, a websérie é composta por uma narrativa na voz do líder indígena que permeia “uma irradiante miríade de imagens ‘compostadas’ de diversos arquivos”, que ainda inclui animação – produzida com as ilustrações lindas de Lívia Serri Francoio – e trilha sonora original.

Flecha Selvagem é uma forma de propagarmos os conteúdos pelos quais passeamos no SELVAGEM, um ciclo de estudos sobre a vida que abre caminhos para a coexistência de saberes tradicionais, científicos e artísticos. A série não gerou imagens novas. É uma experiência fruto dos tempos que atravessamos, em que devemos aprender a lidar com a medida do possível e, mesmo assim, continuar buscando a beleza”, relata o texto de apresentação do Ciclo em suas redes sociais.

Para acompanhar essa “compostagem” de ideias, os idealizadores também selecionaram vídeos e imagens de instituições como MAR – Museu de Arte do Rio de Janeiro, Smithsonian Institute, Fundação Cartier, Getty Foundation e NASA, entre outras.

A intenção é atingir o público em geral, mas, também fazer “um convite para que escolas, universidades, pontos de cultura e projetos comunitários de educaçãoacessem narrativas mais pluriversais”. Por isso, com este projeto, são abertos espaços para que sejam feitas novas perguntas.

E mais: cada flecha/vídeo será acompanhada/o por um Caderno Selvagem que terá download gratuito. Será uma publicação especial com informações complementares, com propostas de atividades e outras ativações. Veja, neste link, a série de cadernos já produzida pelo Ciclo.

O tema de cada flecha

'Flecha Selvagem': série de pequenos filmes é fruto de um sonho de Ailton Krenak para 'adiar o fim do mundo'. Lançamento do primeiro episódio: 5 de maio!

O primeiro vídeo – A serpente e a Canoa – se baseia em três livros: A Serpente Cósmicao DNA e a Origem do Saber,de Jeremy Narby; Antes o mundo não existia, de Desana; e O mundo Tukano antes dos brancos, de Álvaro Tukano. 

Com narração inicial da artista Daiara Tukano, o vídeo exibe obras de artistas brasileiros (entre eles, indígenas) e estrangeiros vivos e já falecidos. São eles:

Tunga, Jonathas de Andrade, Tarsila do Amaral, Anna Maria Maiolino, Antonio Dias, Mestre Didi, Alexandre Vogler, Modesto Brocos, Pablo Amaringo, Cyprien Tokoudagba, J. Borges, Caravaggio, Fernando Lindote, Gilvan Samico, Denilson Baniwa, Jaider Esbell, Rivane Neuenschwander, Louise Bourgeois, Sol Lewitt, Yayoi Kusama, Leandro Katz, além de artistas do povo Huni Kuin.

Abaixo, as três Flechas Selvagens já lançadas e textos de apresentação dos vídeos programados, divulgados pela organização, que muito bem resumem os temas. 

1. SERPENTE CÓSMICA

“Viajaremos por teorias de criação do Cosmos ao surgimento da vida na Terra a bordo de narrativas científicas contemporâneas e das memórias das culturas ancestrais e tradicionais“.

O fio condutor deste episódio é a Serpente Cósmica, presente em mitos de origem de diferentes culturas, vista como a dupla hélice do DNA, código de memória presente em tudo que é vivo. A viagem percorre uma sequência entremeada de mitos de origens e hipóteses científicas sobre o surgimento da Vida.

Assista:

2. O SOL E A FLOR

Esta flecha associa diferentes visões sobre a relação do Sol com a vida na Terra. A partir de trechos do livro Biosfera, de Vladimir Verndasky, Ailton Krenak e Marcelo Gleiser narram a profunda interação dos raios cósmicos com a matéria verde, que transformam a Terra em um supra organismo vivo.

Uma visão da vida onde tudo está absolutamente relacionado, das cianobactérias ao ozônio. A fotossíntese se apresenta como chave de manutenção do equilíbrio dinâmico e para a regulação da biosfera.

A Teoria de Gaia flui em diálogo com a suspensão do céu na compreensão yanomami. Para além da narrativa científica, é uma flecha propulsionada, em sua essência, pela narrativa Guarani sobre Nhanderu, o desdobramento do escuro em sol e do sol em flor.

A narrativa de O Sol e a Flor é baseada em outros livros: A Vida das Plantas, de Emanuele Coccia; A Fala Sagrada, Mitos e Cantos Sagrados Guarani, de Pierre Clastres; A Queda do Céu, palavras de um xamã yanomami, de Davi Kopenawa e Bruce Albert. E ainda apresenta obras de artistas brasileiros e estrangeiros: Priscila Telmon & Vincent Moon, Olafur Eliasson, Daiara Tukano, Abraham Palatnik, Wassily Kandinsky, Ernesto Neto, Hélio Oiticica, Bianca Lee Vasquez, Mamadou Cissé, Sérgio Bernardes, Gabriela Machado, Hilma Klint, Claudia Andujar, George Love, Bia Monteiro, Flávia Aranha.

Assista:

3. METAMORFOSE 

A terceira Flecha Selvagemreúne conhecimentos do povo Tukano e conta com a participação de João Paulo Lima Barreto, autor das obras Waimahsã: Peixes e Humanos e Kumuã Na Kahtiroti-Ukuse, além da narração inicial de Naiara Tukano.

O livro Metamorfoses, de Emanuele Coccia, é também fio condutor desta terceira flecha que fala sobre transformação. Ela é motivada pelos ensinamentos Huni Kuin do Shuku Shukue, que diz que “a vida é para sempre!”. Uma “teoria” sobre o corpo e o conhecimento-prático dos especialistas indígenas.

Esta flecha apresenta obras de artistas brasileiros e estrangeiros: Luiz Lana, Paulo Desana, Mário Peixoto, Luiz Zerbini, Glauber Rocha, Priscilla Telmon, Vincent Moon, Mariene de Castro, Olav Lorentzen, Cao Guimarães e Rivane Neuenschwander, Alfredo Volpi, John Feldman, Tarsila do Amaral, Fernanda Zerbini, Dukhee, Ana Miranda, Denilson Baniwa, Maria Laet, Ana Carvalho, Fernando Ancil, kã Nai Bai Ika Muru Huni kui e Pajé Agostinho Manduca Mateus Kaxinawá.

Assista:

Eis os próximos episódios:

SERES INVISÍVEIS

Os seres invisíveis são essenciais para a vida. A ciência os revela como contínuas atividades de plânctons, fungos, vírus, bactérias e diatomáceas que regulam da Biosfera.

Mergulharemos no conceito da simbiose, mecanismo de evolução a partir da cooperação e não da competição, aprofundando-nos, assim, nas relações entre os seres e também nas soluções que outros organismos encontraram para questões como, por exemplo, a geração de resíduos.

Na visão indígena, os seres invisíveis encontram outra metafísica: os grafismos como visualidade da ordem energética da vida, gente-peixe, gente-pedra, gente-planta, os “espíritos” da mata, os “donos” dos lugares. Eles também habitarão esta flecha.

PLANTAS MESTRAS

Aqui, o conhecimento tradicional nativo conversa com Paracelso, Darwin, Lineu e Lynn Margulis. Pensar que há um domínio das plantas, responsáveis pela fotossíntese, que transforma energia solar em matéria. Pode-se dizer que a memória está inscrita na natureza através dos genomas.

E assim, de mãos dadas com diferentes linhagens de botânicos, raizeiros e pajés, caminhamos entre as plantas mestras, agentes da pluriversalidade, para perceber a profundidade da nossa conexão com a biosfera“.  

REGENERANTES 

“Micróbios, vegetais, animais, fungos, elementos orgânicos e inorgânicos se relacionam a centenas de milhões de anos de forma equilibrada e dinâmica. Os humanos tornaram-se uma força geológica capaz de afetar a estrutura sensível que sustenta a biosfera”.

O ecólogo Fabio Scarano fala de espécies que atuam como células-tronco na atividade de retecimento da camada viva do planeta. Dessa proposição buscaremos alinhar no front da batalha pela vida, do encantamento pela vida, algumas atividades que transformam de forma positiva o sistema insustentável em que vivemos. Quem são os seres regenerantes que podem colaborar para cicatrizar a ferida antropocênica?

Falaremos sobre a revegetalização do planeta, como dizia o pajé Agostinho Ika Muru do povo Huni Kuin, e outros comandos de regulação para além dos humanos”. 

“O futuro é ancestral” 

É o que diz Krenak. Se entendermos o que se encerra nesta mensagem, saberemos como participar com sabedoria da dança cósmica para a qual o pensador indígena nos convida sempre. 

Foto (destaque): Elisa Mendes (registro de Ailton Krenak durante o Selvagem – Ciclo de Estudos de 2019)

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

2 comentários em “‘Flecha Selvagem’: série de filmes curtos é fruto de um sonho de Ailton Krenak para ‘adiar o fim do mundo’

  • 9 de maio de 2021 em 11:14 AM
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    Precisamos defender a pacha mama, a mãe natureza e os povos indígenas. Como estamos agindo, logo não teremos mais nada. O presidente, corrupto, bandido, milicianos, criminoso, genocida, iniputável, não pode continuar sendo o que ele se mostra 24horas: incompetente, cercado de militares tão irresponsável quanto ele. A Amazônia grita e clama pela vida…SALVEMOS OS POVOS INDÍGENAS. Parabéns Krenak…vc merece.

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