Filhote de anta albina é encontrado sozinho e resgatado no interior de SP

No final de novembro, em 23/11, um filhote de anta foi encontrado bastante debilitado em uma área do Parque Estadual de Jurupará, bairro de Ribeirão Bonito, por uma equipe da prefeitura de Piedade, interior de São Paulo, que o encaminhou para o Zoológico de Sorocaba.

Trata-se de uma fêmea que aparentava ter aproximadamente dez dias quando foi encontrada, e é de uma espécie rara: albina. De acordo com informações divulgadas pela Secretaria do Meio e Sustentabilidade (Sema), ela estava muito prostrada e fraquinha, e com risco de desnutrição.

Assim que chegou ao zoológico, a pequena anta passou por exames, que confirmaram sua condição bastante delicada: pesava apenas nove quilos.

“A filhote está recebendo todo o cuidado necessário, como hidratação, aquecimento e adaptação à amamentação, e vai permanecer sob os cuidados da equipe técnica no Setor de Veterinária e Biologia do zoo. Ela está sendo amamentada na mamadeira com leite de cabra”, revelou a Sema, em nota.

É possível que ela tenha sido abandonada ou que a mãe tenha sofrido alguma violência: atropelamento ou caça. Em geral, os filhotes ficam na companhia das mães até 18 meses a dois anos.

O caso está sendo investigado. Assim que a antinha se restabelecer, pesquisadores do Instituto Manacá, parceiros da reserva privada Legado das Águas (sobre a qual já escrevi aqui), vão poder descobrir se ela tem algum grau de parentesco com os dois indivíduos dessa espécie que vivem por lá.

A primeira anta albina do Legado foi encontrada em 2014, como conto neste post, mais adiante.

Fofura no Instagram

Ontem, pela manhã, ao abrir o Instagram, o post que pulou na tela do meu celular mostrava o documentarista Lawrence Wahba dando mamadeira para uma anta pequenina e branquinha – que me fez arregalar os olhos imediatamente porque eu amo antas!! -, ao som de Three Litllte Birds, com Bob Marley.

Era ela! A mesma anta albina encontrada desnutrida pela equipe da prefeitura há cerca de 20 dias, que ilustra este post.

Assisti ao vídeo curtinho (formato Reels) até o fim. Ela aparece em outras duas situações muito gostosas: comendo uma vegetação bem verdinha e fresca e deitada recebendo carinho de Lawrence na barriga. Corri para a legenda: “Não dá pra resistir a tanta fofura”, declarou ele. Não dá, mesmo! Olha só a imagem abaixo, que copiei do vídeo. Não resisti.

O documentarista Lawrence Alba e a pequena anta no Zoo de Sorocaba
Imagem: reprodução do Instagram

Até agora (18h, de 3/12), o post recebeu 4.200 mil curtidas e 227 comentários. Entre estes, alguns que escancaradamente declaram alegria, felicidade, ternura, amor e outros sentimentos carinhosos pela antinha branca. Outros que revelam falta de informação a respeito de conservação e proteção de fauna, criticam os zoológicos, querem saber do futuro do animal. E Lawrence responde aos mais necessários.

Quem quiser assistir ao vídeo, reproduzo o link no final deste texto.

Filhote pode ajudar a desvendar mistérios da espécie

A anta albina é uma espécie raríssima. É a primeira aparição da espécie registrada fora do Legado das Águas, situado no Vale do Ribeira. Os dois únicos indivíduos da espécie que vivem livres na natureza – de que se tem notícia até hoje – estão lá. E são dois machos, constantemente monitorados por pesquisadores do Instituto Manacá, um dos parceiros científicos da reserva.

Por isso, a notícia da existência do filhote encontrado em Piedade é tão auspiciosa.

“A descoberta e o resgate desse filhote albino, condição raríssima no mundo, nos anima ainda mais para entender a ecologia e a genética desses indivíduos. Por isso, estamos acompanhando, junto com o Instituto Manacá, e desejamos ampliar o conhecimento científico dessas descobertas por sua importância para a conservação da anta (Tapirus terrestris), espécie ameaçada de extinção, e da Mata Atlântica“.

Esta declaração está publicada em 24/11 no Facebook do Legado das Águas. Nos comentários desse post, a equipe do Instituto Manacá – que monitora as antas albinas no Legado – disse: “Temos certeza de que ela, agora, está nas mãos de uma excelente equipe. Ficaremos na torcida para que ela se recupere e, enquanto isso, estamos buscando novas estratégias para ampliar nossos estudos sobre essas preciosidades”.

As duas únicas antas albinas livres do mundo

A primeira anta albina foi avistada no Legado das Águas em 2014, como contei. E, no mesmo ano, graças à parceria entre o Projeto Anta, do Instituto Manacá, e o fotógrafo de natureza Luciano Candisani – ambos parceiros da reserva -, ela ganhou um registro muito especial.

A anta já havia sido identificada por armadilhas fotográficas, mas ainda parecia insuficiente para afirmar (e mostrar) que se tratava de um indivíduo da espécie albina.

Foi aí que entrou Candisani, com um sistema inédito e sofisticado de armadilha fotográfica que batizou de Floresta Viva: trata-se de um estúdio fotográfico camuflado instalado na mata e equipado com câmeras e flashs profissionais (contamos aqui).

Como nas armadilhas comuns, quando o animal passa, sensores são acionados e fazem o registro, anulando a incidência da luz natural, não importa o horário. O resultado é perfeito: retratos coloridos em alta resolução, que revelam o animal nos mínimos detalhes.

E foi assim que a primeira anta do Legado, um macho como já comentei, ganhou o nome de Gasparzinho.

Gasparzinho, em foto de Luciano Candisani/Floresta Viva
para o Legado das Águas

Lembro de Candisani contando, em 2015, quando visitei o Legado, que dava pra ver que a anta se arrepiou com o disparo do flash e os carrapatos, que em sua pele estavam, pularam. Vi as imagens e é incrível, mesmo!

Em fevereiro de 2016, um funcionário da reserva flagrou uma anta albina nadando no Rio Juquiá, em Tapiraí. Sim, as antas são exímias nadadoras. E também caminham na água, é lindo! Foi fácil imaginar que poderia ser Gasparzinho, mas, dois anos depois, outro indivíduo foi avistado. E parece ter certeza de que se tratava de mais uma anta albina, Candisani foi chamado para montar seu super estúdio na mata de novo.

Na comparação das imagens, ficou claro que se tratava de mais um ilustre e raro morador da reserva que, logo, ganhou o nome de Canjica. Sua foto, abaixo, confirmou também que se tratava de outro macho.

Canjica, em foto de Luciano Candisani/Floresta Viva
para o Legado das Águas

Assim que a pequena anta se recuperar, os pesquisadores do Instituto Manacá poderão verificar e confirmar se ela tem alguma relação de parentesco com os machos do Legado.

Já é bom demais saber que Gasparzinho e Canjica não são as únicas antas albinas da região. Quem sabe outras ainda podem ser encontradas, não no mesmo estado do filhote! E que, sendo fêmea, a pequena possa ajudar na reprodução da espécie na reserva, que tem tudo a ver com a conservação da Mata Atlântica na região.

Mas estas são reflexões muito particulares. Nada se sabe sobre o destino da antinha albina. Agora é preciso focar em sua recuperação. De todo modo, sua história fala não só de resiliência, mas também de esperança.

Agora, delicie-se com a anta filhote durante a visita de Lawrence Wahba no Zoo de Sorocaba e veja como ela está se recuperando bem.

 
 
 
 
 
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Com informações do UOL, G1 Sorocaba, Legado das Águas

Foto (destaque): Prefeitura de Piedade

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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