Feminicídio no Brasil: projeto analisa o papel da imprensa na manutenção da misoginia e da violência

Hoje, Dia Internacional da Mulher, abro o espaço deste blog para a jornalista Vanessa Rodrigues falar sobre o projeto que ela e a, também jornalista, Niara de Oliveira estão desenvolvendo.

Trata-se de uma análise da narrativa da imprensa sobre feminicídio (assassinato de mulheres), cujos casos parecem estar explodindo no Brasil nos últimos anos, acompanhados de outros tipos de violência de gênero.

Um assunto absolutamente urgente e fundamental!

Sou Vanessa Rodrigues*, jornalista e feminista, e, junto com Niara de Oliveira, também jornalista e feminista, fizemos uma campanha de financiamento coletivo, pelo Catarse, para a publicação do livro Narrativa de Feminicídios (título provisório), no qual analisamos a narrativa da mídia nos relatos de feminicídio

Nosso envolvimento com o tema vem de longe. Começou em 2015, quando criamos a comunidade virtuaNão foi ciúme no Facebook. 

Na época, reiteradamente nos indignávamos com a maneira como os relatos de feminicídio e outras violências contra a mulher (assédio, estupro, violência obstétrica, por exemplo) eram publicados pela imprensa, especialmente em portais de notícias

Identificávamos títulos que já começavam culpabilizando essa mulher-vítima e/ou fazendo com que elas se tornassem sujeitas da ação (“Mulher é morta por ex-companheiro”, por exemplo).

Tínhamos a irritante sensação de que a agressão contra aquela mulher continuava na maneira como seu caso era apresentado pela mídia, principalmente nos títulos das reportagens.

Nos casos de feminicídio, muitas matérias sugeriam que as mulheres teriam alguma responsabilidade pela própria morte, com a justificativa clichê e sem questionamento, dos “crimes passionais” (“por ciúme” ou “por não aceitar o fim do relacionamento”).

Ou, ainda, na escolha de imagens – capturadas em geral de seus perfis de redes sociais – nas quais as vítimas aparecem de maneira sensual, o que estimula ilações e juízos de valor sobre seu comportamento e, com isso, sugere um certo “merecimento” da violência.

Maridos, companheiros ou ex

Havia (e ainda há), também, o uso profuso das expressões “suposto” e “supostamente”. Ainda que saibamos das questões jurídicas implicadas (uma vez que um acusado é sempre “suposto” criminoso até que seja condenado), elas trazem uma percepção de dúvida sobre a palavra da vítima.

Costumamos brincar que precisamos “dar alta” aos jornalistas sobre o uso dessas palavras, sugerindo outras formas narrativas que sejam mais fiéis aos fatos e, ainda assim, resguardem o aspecto legal.

Uma outra coisa que nos chamava atenção desde aquela época é que diariamente tínhamos material para atualizar a comunidade. Todos os dias, tínhamos (e temos) feminicídios noticiados na mídia.

Invariavelmente, encontrávamos ao menos cinco crimes relatados todos os dias em portais na internet. Isso falando apenas dos que se tornaram públicos! 

E em quase todos os casos de assassinato de mulheres, os assassinos eram ex-companheiros, maridos ou namorados da vítima. 

Sociedade se comove pelo tom da pele da vítima

Outro aspecto que notamos é que feminicídios de mulheres brancas parecem comover mais, merecendo mais destaque, ainda que a maioria das mulheres vítimas de feminicídio seja negra

Segundo dados divulgados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Públicaa cada três minutos uma mulher é assassinada no Brasil e quase 90% dos crimes de feminicídio são cometidos por homens que tinham ou tiveram algum vínculo afetivo com aquela vítima.

Ainda segundo o Fórum, em 2019, os casos de feminicídio aumentaram 7% e, desses, quase 70% das vítimas eram mulheres negras.

Legítima defesa da honra

A casa, mais do que a rua, ainda é o lugar mais perigoso para uma mulher.

Em um contexto no qual a pandemia vem facilitando mais ainda a ocorrência de violências de gênero (físicas, psicológicas e feminicídio) é igualmente preocupante o acolhimento de tribunais da tese de “legítima defesa da honra” como justificativa para crimes de misoginia, levando à absolvição do réu (como ocorreu no ano passado).

A imprensa

Neste cenário, é fundamental tentarmos responder à duas perguntas-chave:
A mídia contribui para a manutenção desse cenário e no incremento desses números? 
Qual o papel da imprensa na narrativa de feminicídios e na manutenção da misoginia estrutural da sociedade? 

Nosso foco para a pesquisa e publicação do livro Narrativas de Feminicídio é a narrativa escrita – em jornais, revistas e portais de notícias -, tentando abranger todas as regiões do país a partir da cobertura de casos específicos.

Alguns bem famosos, como os de Ângela Diniz, Eliane de Grammont, Eloá Pimentel, Eliza Samudio, Sandra Gomide, Tatiane Spitzner e a juíza Viviane do Amaral. Outros, menos conhecidos, mas com igual importância para as autoras. Vamos do Quem Ama Não Mata, em 1980, até os dias atuais.

Em todos os casos pesquisados, fica sempre a pergunta sobre quem é o sujeito da ação num feminicídio. Certamente não é a vítima. Então, por que a maioria dos títulos de matérias que narram feminicídios tem a mulher como sujeito da oração? 

Acreditamos ser importante levantar um debate sobre a escolha de narrativas que revitimam a mulher e, de certa forma, já antecipam a defesa do assassino ou reduzem a gravidade do ato que lhe arrancou a vida.

O livro

Card divulgado hoje, Dia Internacional da Mulher, nas redes sociais

Narrativas do Feminicídio será lançado em novembro de 2021, impresso e ebook, pela Drops Editora, que é uma editora independente e comandada por mulheres. 

Para garantir a chegada do livro às livrarias, como já contei, lançamos um financiamento coletivo pela plataforma Catarse, que tem mais 25 dias pela frente: até 2 de abril.

Os apoios variam de R$ 20 a R$ 500 e cada faixa tem recompensas exclusivas para os apoiadores. O livro impresso e autografado será recebido apenas por quem colaborou com R$ 80 ou mais. Mas todas e todos que contribuírem serão citados no livro em agradecimento.

Enquanto isso, é possível acompanhar o making off do livro em seus perfis nas redes sociais: Facebook (onde fazemos um diário) e Instagram

Agora, assista ao vídeo especial que fizemos para marcar este Dia Internacional da Mulher. Em seguida, o que produzimos para a página do Catarse.

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* Vanessa Rodrigues é jornalista, escritora e feminista com trajetória em comunicação estratégica, assessoria de imprensa e mídias sociais, primordialmente em organizações do Terceiro Setor. Atualmente, se dedica à literatura e à produção de conteúdo para redes sociais

Imagens produzidas e fornecidas pelo projeto Narrativas de Feminicídios

Renato Guimarães

Jornalista, com mestrado em relações internacionais, é especialista em temas ligados à mobilização e engajamento em causas de impacto social. Morou oito anos no Peru, de onde conheceu bastante da América Latina. Trabalhou em organizações como Oxfam GB, Purpose, Instituto Akatu e IFC/Banco Mundial. Foi sócio de duas consultorias – Gestão Origami e Together – e Diretor de Engajamento do Greenpeace Brasil. Atualmente, é Assessor Sênior do Social Good Brasil e VP de Engajamento da Together, agência focada em processos de mobilização para causas de impacto

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