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Fazendeiro que desmatou ilegalmente mais de 2 mil hectares no Amazonas é processado por “danos climáticos”

Fazendeiro que desmatou ilegalmente mais de 2 mil hectares no Amazonas é processado por "danos climáticos"

*Por Roberto Kaz

A decisão foi proferida na semana passada. Titular da Sétima Vara Federal Ambiental e Agrária do Amazonas, a juíza Mara Elisa Andrade rejeitou o pedido feito pelo fazendeiro Dauro Parreira de Rezende, réu num processo por desmatamento com multa valorada em R$63,5 milhões (ele pedia um novo cálculo do valor da ação). Rezende é acusado de desmatar ilegalmente mais de 2 mil hectares no Projeto de Assentamento Extrativista Antimary, em Boca do Acre, município no Sul do Amazonas, a 1.200 quilômetros de Manaus. 

O caso de Rezende seria apenas mais um numa rede interminável de crimes e ilegalidades que tomou conta da Amazônia a partir do governo Bolsonaro, não fosse por um importante detalhe: é que além da multa de R$ 8 milhões por danos ambientais, a maior parte do valor a ser restituído pelo réu – mais especificamente, R$ 44,7 milhões – adveio de um cálculo feito pelo Ministério Público Federal (MPF) a partir da emissão de gás carbônico, configurando assim um “dano climático”. 

“Essa é a primeira vez que eu vejo uma decisão na Justiça de uma ação civil pública motivada por dano climático”, explicou Paulo Moutinho, cientista sênior do Ipam, o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia [na verdade, há um caso pregresso, julgado na mesa Vara em 2022, mas de valor bem mais baixo, R$165 mil]. 

A história foi mencionada por Moutinho na última quinta-feira, 2 de março, durante sua apresentação no Décimo Seminário Técnico-Científico de Análise de Dados do Desmatamento na Amazônia Legal, ocorrido na sede do Ministério do Meio Ambiente, em Brasília. Na abertura, a ministra Marina Silva, enfatizou que a pauta ambiental é também uma pauta política: “Não há combate à desigualdade sem enfrentar o desmatamento.”

E não há combate ao desmatamento sem enfrentar a grilagem.

Área de 56 milhões de hectares

Diretor do Controle de Desmatamento e Queimadas do MMA, Raoni Rajão mencionou uma estimativa recente feita na Universidade Federal de Minas Gerais, que calculou em cinco vezes o retorno financeiro de uma terra grilada.

“É a mesma taxa de lucro de quem traz cocaína da Colômbia. Mas as penas para os dois crimes são muito distintas: em um deles você pode pegar até 20 anos de cadeia, no outro você converte a pena em pagamento de cesta básica”, explicou, lembrando que 70% das fazendas registradas no Cadastro Ambiental Rural (CAR) dentro de Terras Indígenas – ou seja, ilegais – ainda estão com o cadastro ativo. “O problema não é falta de estímulo positivo para tirar as pessoas da grilagem; é carência de estímulo negativo. O porrete está curto.” 

O cientista Claudio Almeida, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) lembrou que a falta de fiscalização e de punição transformaram a Amazônia num terreno fértil para o crime organizado – que tem papel importante no financiamento da grilagem. “Para desmatar 100 hectares você gasta ao menos 300 mil reais. Não é barato, é alguém fazendo um grande investimento com perspectiva no futuro.” 

Os índices mais altos de desmatamento e grilagem têm ocorrido em terras públicas – ou, mais especificamente, em Florestas Públicas Não Destinadas (FPND), aquelas que ainda não foram homologadas como área de proteção ambiental.

“É errado achar que isso é terra de ninguém. Isso é terra do povo brasileiro, e que os governos precisam cuidar”, diz Moutinho. Segundo ele, 27% das Florestas Públicas Não Destinadas estão cobertas por fazendas com registro no CAR – ou seja, por áreas griladas. E praticamente metade do desmatamento dessas florestas ocorre exatamente nas áreas sobrepostas por propriedades registradas no CAR. “No meu entender é grilagem pura.”

Moutinho diz que a Amazônia ainda tem 56 milhões de hectares de Florestas Públicas Não Destinadas – uma área duas vezes maior que o estado de São Paulo. “Estamos esperando os governos darem uma destinação, como manda a Lei de Florestas de 2006.”

Ele lembra que só nos primeiros dois anos do Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm), tocado pela ministra Marina Silva no primeiro governo Lula, foram criados 24 milhões de hectares de florestas protegidas, que ajudaram a derrubar drasticamente as taxas de desmatamento. 

Ele acredita que o modelo de sucesso do PPCDAm pode ser repetido se contar com ações de fiscalização da Polícia Federal, do ICMBio e do Ibama e – novidade -, com ações judiciais contra desmatadores, como no caso da terra grilada em Boca do Acre, no Sul do Amazonas, em que o fazendeiro pode vir a pagar R$44,7 milhões pelos danos climáticos.

“Isso tem que estar embutido dentro das multas do Ibama daqui pra frente”, prosseguiu, defendendo a inciativa. “É fácil calcular os prejuízos em termos de emissão, nós publicamos o protocolo na (revista) Science.”

Atualmente, o Observatório do Clima se colocou à disposição como amicus curiae (amigo da corte) em outros três processos parecidos – dois no Amazonas e um no Pará -, com multas igualmente altas. “Em um deles, só o dano climático ascrescenta R$91 milhões ao valor da causa”, revela o advogado Nauê Bernardo Pinheiro de Azevedo, assessor jurídico do OC. “Queremos ajudar o Estado a processar os grandes desmatadores.” 

*Texto publicado originalmente em 07/03/23 no site do Observatório do Clima

Foto de abertura: Alberto César Araújo/Amazônia Real (área desmatada no Amazonas)

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