Falas racistas e homofóbicas de Piquet rendem ‘punição’ da F1 e ações de investigação e indenização: chega de impunidade!

ex-piloto brasileiro Nelson Piquet sempre foi conhecido por suas declarações agressivas e ofensivas, por isso, os trechos da entrevista que concedeu para um canal no YouTube, em novembro de 2021 – e viralizou nas redes, na semana passada -, na qual ele ofende o piloto inglês Lewis Hamilton, não surpreendeu. 

No entanto, “os tempos são outros”: racismo é crime, assim como homofobia (sim, em outro trecho da conversa ele foi homofóbico, como conto mais adiante) e, ainda mais por ser uma personalidade conhecida mundialmente (muito exposta), sua atitude não deve ficar impune.

Quem diz, muito à vontade, o que Piquet declarou nessa entrevista, não sabe o que é racismo e não se considera racista. E ainda é capaz de afirmar que racismo não existe no Brasil e chamar qualquer protesto ou repúdio à sua atitude de ‘mimimi’, como se vê/lê com frequência nas redes sociais. 

Mas a atitude dele foi ainda mais repugnante: em outro trecho da mesma entrevista, divulgado no último fim de semana: além de repetir o termo ‘neguinho’ para se referir ao heptacampeão, o ex-piloto faz um comentário homofóbico, e ofende outro colega de pistas de sua época.

Questionado a respeito da temporada de 1982 da Fórmula 1 e de Keke Rosberg, campeão daquele ano e um de seus grandes rivais, Piquet dispara: “Era um bosta. Não tinha valor nenhum”. 

Em seguida, compara Rosberg ao filho Nico, campeão da categoria em 2016, e volta a falar de Hamilton: “É que nem o filho dele (Nico): ganhou um campeonato! O ‘neguinho’ devia estar dando mais o c* naquela época, aí tava meio ruim”. 

Deplorável. Além de racista, Piquet também é homofóbico (assista ao vídeo no final deste post).

Notas de repúdio

Logo que o primeiro vídeo viralizou na internet, os organizadores da Fórmula 1, da Federação Internacional de Automobilismo (FIA) e a Mercedes, equipe de Hamilton, divulgaram notas públicas de repúdio à fala agressiva e racista de Piquet (como contamos aqui), declarando que o piloto inglês é um símbolo da diversidade, movimento que tem sido defendido por esse esporte.

Hamilton se manifestou dias depois, em seu Twitter, muito elegante, como sempre: sem citar nomes. Em português, declarou: “Vamos focar em mudar essa mentalidade”. E acrescentou: 

“É mais do que linguagem. Essas mentalidades arcaicas precisam mudar e não têm lugar no nosso esporte. Eu fui cercado e alvo dessas atitudes a minha vida toda. Já houve bastante tempo para aprender. Chegou a hora da ação!”.

Desculpa esfarrapada

Piquet respondeu às notas de repúdio com uma ‘carta de desculpas’, tentando justificar o uso do termo, mas a situação ficou ainda pior. 

Não se dirigiu a Hamilton e a redigiu apenas em inglês talvez para tentar convencer principalmente os dirigentes da F1 de que se tratava de um “erro de tradução” e que o termo é “daqueles largamente e historicamente usados de forma coloquial no português brasileiro”. Segue o teor da carta em tradução livre: 

O que eu disse foi mal pensado, e eu não vou me defender por isso, mas eu vou deixar claro que o termo é um daqueles largamente e historicamente usados de forma coloquial no português brasileiro como sinônimo de ‘cara’ ou ‘pessoa’ e nunca com intenção de ofender. Eu nunca usaria a palavra que estou sendo acusado em algumas traduções. Condeno veementemente qualquer sugestão de que a palavra tenha sido usada por mim com o objetivo de menosprezar um piloto por causa de sua cor de pele. Eu me desculpo com todos que foram afetados, incluindo Lewis, que é um grande piloto, mas a tradução em algumas mídias e que circula nas redes sociais não é correta. Discriminação não tem espaço na F1 ou na sociedade e estou feliz em deixar claros meus pensamentos”.

Banido dos boxes da F1

Cai nessa ladainha quem quer. Os dirigentes da F1 não caíram e puniram o tricampeão brasileiro: Piquet foi banido do paddock das provas da categoria, ou seja, não pode mais circular pelos boxes das equipes durante as provas, como sempre fez. 

Não tem ‘mas’ nem desculpa esfarrapada que justifique o uso de um termo como ‘neguinho’ por um branco, a menos que seja para depreciá-lo e isso é racismo. 

Com um detalhe: durante a tal entrevista, Piquet chamou Hamilton assim, pelo menos duas vezes, como você pode conferir no vídeo reproduzido no final deste post. 

Mas, ouvindo o trecho com muita atenção, tive a impressão de que ele o repetiu uma terceira vez. Só que, na legenda que aparece no vídeo, foi ‘traduzido’ como “ele” (imagem abaixo).

Fotos: reprodução de vídeo

Denúncia ao Ministério Público e ação indenizatória

Logo após a divulgação de sua carta de desculpas, Piquet foi denunciado ao Ministério Público do Distrito Federal pelas deputadas federais Talíria Petrone, Áurea Carolina e Vivi Reis, do PSoL. 

Na denúncia, as parlamentares alegam que o ex-piloto tratou Lewis Hamilton de forma “evidentemente pejorativa” e que o racismo é “inaceitável no âmbito do Estado Democrático de Direito”, e solicitam que seja aberto inquérito para investigá-lo pelos crimes de discriminação e preconceito

Esta semana, o caso ganhou ainda mais repercussão: uma nova ação pública foi ajuizada, desta vez por quatro entidades – EducafroCentro Santo DiasAliança Nacional LGBTQIA+ e Associação Brasileira de Famílias Homotransafetivas (ABRAFH) – que pedem “reparação de dano moral coletivo e dano social infligidos à população negra, à comunidade LGBTQIA+, e ao povo brasileiro de modo geral”. 

Protocolada no Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios, a petição destaca que as “ofensas injuriosas, humilhantes e vexatórias, de cunho racista e homofóbico, vociferadas publicamente pelo réu” violam normas de proteção à honra e à dignidade de todo ser humano, em especial as que protegem a população negra contra o racismo. E reivindica indenização no valor de R$ 10 milhões para a população negra. 

No entanto, para que a reparação seja integral – visto que, para as organizações, trata-se de dano de grande “magnitude e alcance” –, somente a indenização não basta. Nelson Piquet também deve publicar pedido público de desculpas (em português) e, caso repita declarações com teor racista ou homofóbico, terá que pagar multa no valor de R$ 100 mil por cada ocorrência. 

Assim que saírem os resultados das duas ações, atualizarei este post.

A pressão está grande e espero que sirva de exemplo para quem considera bobagem toda denúncia de racismo e de homofobia ou que nenhuma das duas fobias existe no Brasil. Ambas estão entranhadas na sociedade e devem ser estirpadas, como qualquer outra.

Agora, assista aos trechos da entrevista que provam que Nelson Piquet foi racista e homofóbico ao se referir a Lewis Hamilton.

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.