Fakebook.eco: nova plataforma combate mitos, mal-entendidos e mentiras sobre meio ambiente no Brasil

Notícias falsas são uma das marcas registradas do governo Bolsonaro. E essa prática tem garantido sucesso às empreitadas antiambientais de Ricardo Salles, ministro do meio ambiente. Talvez não exista ninguém mais competente que ele para fazer o serviço sujo para o qual foi contratado: favorecer os interesses de gente que vê a natureza esplêndida deste país apenas como mercadoria.

Foi para combater as mentiras que ele, seu chefe e qualquer membro do governo contam sobre essa área, que organizações e sites ambientais e científicos se uniram e criaram a primeira plataforma de checagem de informações e de combate a fake news e falácias relacionadas ao meio ambiente: o Fakebook.eco. E escolheram este dia especial – o aniversário de Salles – para lançá-la.

Assim, apresentando conteúdos de forma sistemática, didática e direta, o Observatório do Clima (OC) intensifica o combate à desinformação ambiental, com a parceria dos sites Oeco, InfoAmazônia, Direto da Ciência e Projeto Colabora e do blog O que Você Faria se Soubesse o que eu Sei? do climatologista Alexandre Araújo Costa.

Agora, “o ministro contra-o-meio-ambiente e o presidente contra-o-Brasil vão ter um pouco mais de trabalho pra disseminar fake news e ocultar seu real projeto de guerra contra a Terra e os povos indígenas”, provoca o site, em sua apresentação.

O projeto e seu nome

Fakebook parece remeter a tudo que é falso e divulgado no Facebook, mas, como explica a apresentação do portal, o nome é, na verdade, inspirado numa tradição entre músicos de jazz da primeira metade do século 20. Consistia numa compilação de informações básicas sobre canções diversas – acordes, melodia e, às vezes, letra – adotada para que os músicos pudessem improvisar a partir delas. “Com um fakebook na mão, um bom músico de jazz ou bossa nova tem um roteiro mínimo que lhe permite sobreviver a qualquer apresentação”.

O embrião deste projeto foi lançado com o primeiro Fakebook do OC, que teve início com checagens das fake news mais frequentes disseminadas por Salles realizadas em parceria com o Greenpeace e o ClimaInfo, em 2019. “Não imaginávamos que o resultado seria um libreto de 35 páginas, que acabou ganhando o nome de Fakebook, um trocadilho com seu conteúdo”, explica o site. Ele se configurava em “um roteiro mínimo a jornalistas, investidores e membros de governos e organizações internacionais que precisassem lidar com o discurso governamental sem ter conhecimento prévio da situação ambiental do Brasil”.

Esse conteúdo ganhou o nome sugestivo de The Ricardo Salles Fakebook – Guia para as Falsidades e Retóricas do Ministro do Meio Ambiente e destaca, na primeira página, três detalhes do currículo do antiministro:
– em 2012, disse à imprensa que era mestre em direito público pela Universidade de Yale;
foi condenado por fraude ambiental pela Justiça São Paulo, duas semanas antes de tomar posse; e
está sob investigação por enriquecimento ilícito.

Outro projeto que inspirou a criação do Facebook.Eco foi o Agromitômetro, lançado pelo OC e pelo O Eco em 2018, também para checar informações ambientais.

Para este lançamento, a primeira checagem foca na última mentira de Salles, divulgada no Dia Mundial do Meio Ambiente, sobre o programa Floresta+ de pagamento por serviços ambientais anunciado por Bolsonaro como “o maior do mundo”.

Criado no governo Temer, esse programa obteve recursos por redução do desmatamento na gestão Dilma, e está longe de receber esse título já que muitas outras iniciativas de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) com mais recursos aplicados, como acontece na cidade de Nova York (EUA). Um exemplo é o programa lançado pelo governo em 1997, que garante abastecimento de água potável. Portanto, o que Salles disse é mentira!

Outras seções

O site terá a participação de convidados. O primeiro é Ricardo Galvão, professor do Instituto de Física da USP, ex-diretor do Inpe (2016-2019) exonerado por Bolsonaro e escolhido pela revista Nature uma das dez personalidades da ciência em 2019. Em seu primeiro artigo – Cenário ainda mais sombrio -, ele escreve sobre a Amazônia, ameaçada pela devastação e pelo coronavírus.

Os mitos mais comuns na área ambiental estão reunidos na seção Falácias Frequentes e ainda estão classificados nos 10 Mitos Top, entre eles “o agronegócio brasileiro é o mais sustentável do mundo” ou “o clima o mundo sempre mudou”.

Em Fatos Florestais, a estreia do segundo vídeo da série lançada em abril de 2019, produzida por Fernando Meirelles, com direção de Gisela Moreau. Neste, o engenheiro florestal Tasso Azevedo responde a perguntas sobre licenciamento ambiental, desfazendo mal-entendidos muito comuns sobre o tema. Quem faz as perguntas é Marisa Orth. No primeiro vídeo, Camila Pitanga indaga o especialista a respeito do embate entre conservação ambiental e produção agrícola. Precisa existir, mesmo?

Como participar

A prontidão de Felipe Werneck, Tatiana Lobão, Rodrigo Fernandes e Claudio Ângelo, integrantes da equipe do Fakebook.Eco em alinhamento com os editores dos sites parceiros –, garantirá a atualização da plataforma. Mas qualquer pessoa pode colaborar com o projeto por meio da seção Viu algo suspeito?

O site convida: “Trombou com algum conteúdo ambiental estranho na internet? Desconfiou de alguma coisa que recebeu daquele tio no grupo de zap da família? Achou que aquela autoridade pode estar distorcendo informações no discurso? Manda aqui – link, print, mensagem. A gente verifica”.

Imagem: Divulgação

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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