Extinção de espécies fará com que aves com características únicas desapareçam e sobreviventes sejam cada vez mais parecidas, temem cientistas

Extinção de espécies fará com que aves com características únicas desapareçam e sobreviventes sejam cada vez mais parecidas, temem cientistas

Poucos seres do mundo animal são tão estudados quanto os pássaros, dada à facilidade com que o os cientistas têm em observá-los. Com mais de 100 mil espécies descritas pela ciência, as aves são consideradas o mais diverso grupo de vertebrados do planeta. E sua história evolucionária começou a 150 milhões de ano, quando eles se separaram dos dinossauros para iniciar sua própria linhagem.

Todavia, em maio deste ano, o relatório State of the World’s Birds alertou que 48% de todas as espécies de aves do planeta apresentam declínio de suas populações, ou seja, mais de 5 mil espécies estão em risco de extinção. O monitoramento indica ainda que 39% delas parecem estáveis e apenas 6% mostram indicativos positivos, com aumento de seus números (leia mais aqui).

Agora, um grupo de pesquisadores britânicos da Universidade de Sheffield e do Museu de História Natural faz um novo e preocupante alerta: a perda de espécies também levará a declínios na diversidade morfológica. Ou seja, as aves que não desaparecerem serão cada vez mais parecidas à medida que as espécies mais incomuns são levadas à extinção.

Além disso, as extinções de espécies levam a uma grande perda de estratégias e funções ecológicas e a maioria dos biomas experimentará uma homogeneização morfológica, ressaltam os cientistas num artigo divulgado recentemente na publicação internacional Current Biology.

“Acreditamos que a maioria dos biomas e ecorregiões do planeta devem perder diversidade morfológica a uma taxa maior do que o previsto apenas pela perda de espécies, com as áreas mais ameaçadas estando localizadas no leste da Ásia e nas montanhas e sopés do Himalaia”, afirmam os autores do estudo.

Para realizar a pesquisa, o grupo analisou características como formato do bico, comprimento da asa e tamanho do corpo de quase 8.500 mil espécimes de aves, mantidas em coleções de museu ao redor do mundo, e seus respectivos status de conservação.

Eles descobriram então que aquelas em maior risco possuem características únicas, entre elas, as de menor e maior porte. São mencionados, por exemplo, os albatrozes e os abutres.

“A perda de traços únicos e história evolutiva também podem comprometer benefícios para a humanidade que são atualmente desconhecidos”, ressalta a bióloga Emma Hughes, principal autora do estudo.

Um dos exemplos citado, por exemplo, é como o tamanho pequeno e a forma do bico dos beija-flores permitem que esses animais bebam o néctar das plantas, enquanto os grandes corpos dos abutres permitem que eles voem enquanto caçam carcaças.

E apesar de seus portes tão distintos, ambas as aves têm um papel essencial no meio ambiente. Os beija-flores são importantes polinizadores, e os abutres contribuem para a proliferação de doenças, ao se alimentar das carcaças de outros animais, e ainda, para a ciclagem de nutrientes nos ecossistemas que habita.

“Essa homogeneização pode se tornar ainda mais pronunciada no futuro, à medida que espécies invasoras influenciam esse processo. Elas são mais propensas a serem generalistas e têm traços mais próximos da média, o que pode significar que estamos subestimando a extensão da homogeneização morfológica”, diz Emma.

*Com informações e entrevistas do site do Natural History Museum

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Foto: Zdeněk Macháček on unsplash

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.