Experimento científico com baleias na Noruega gera protestos e denúncia de crueldade contra animais

Experimento científico com baleias na Noruega gera protestos e denúncia de crueldade contra animais

A divulgação de um experimento científico com baleias que será realizado na costa da Noruega está provocando consternação mundial. Mais de 50 cientistas e especialistas em vida marinha já vieram a público afirmar que os testes são “simplesmente inaceitáveis”. O grupo enviou uma carta à primeira-ministra Erna Solberg alertando sobre sua preocupação com a realização dos mesmos.

Uma equipe do Norwegian Defence Research Establishment (FFI), um centro de pesquisas dos órgãos de defesa do país nórdico, pretende capturar doze jovens baleias minke (Balaenoptera acutorostrata) e durante seis horas – isso mesmo, SEIS HORAS – submetê-las a testes com ruídos.

Eletrodos serão colocados embaixo da pele dos cetáceos para analisar como o cérebro deles reage a diferentes frequências de sons observados nos oceanos. Após a introdução desses sensores, as baleias serão soltas no mar e seu comportamento monitorado através de satélites. Todavia, foi dada uma permissão para que cada animal seja mantido nesses “recintos” por até quatro dias.

Em uma nota divulgada para a imprensa, o Norwegian Defence Research Establishment afirmou que “O conhecimento de como a atividade humana perturba os animais selvagens sempre será benéfico para eles. Acreditamos que este também seja o caso aqui”.

Ainda segundo o instituto, os testes a serem feitos apresentam “gravidade moderada para os animais”, ou seja, eles poderão sentir dor, sofrimento ou angústia moderada de curto prazo.

Os pesquisadores dizem que o objetivo não é expor as baleias a sons altos, mas pelo contrário, tentar descobrir se elas ouvem as frequências mais baixas.

A captura dos cetáceos será feita num estreito na ilha Vestvågøy, na região de Lofoten, no norte da Noruega, onde as baleias passam todos os anos a caminho de áreas de alimentação no Mar de Barents. Serão colocadas cordas para restringir o nado dos animais, que depois ficarão imobilizados entre duas balsas.

Toda a operação foi aprovada pelo Norwegian Food Safety Authority, órgão federal responsável pelo cuidado com animais. Pelo site do Norwegian Defence Research Establishment é possível ver que testes com baleias já foram realizados antes. Em 2019, foi feita uma pesquisa para analisar o efeito de sonares militares sobre espécies como cachalotes e jubartes.

Imagem de testes feitos em 2019 pelos pesquisadores noruegueses

Na carta enviada à primeira-ministra da Noruega os cientistas pedem a proibição dos testes:

“Os pesquisadores reconhecem que esse tipo de experimento nunca foi tentado anteriormente. Nossa grande preocupação é que a captura de baleias minke e a experimentação por até seis horas tenha potencial significativo para causar lesões e estresse, resultando potencialmente em miopatia de captura.

Se for dada a permissão, esses experimentos podem levar a um sofrimento considerável para as baleias e risco de minar a reputação da Noruega. Se algo der errado, serão feitas perguntas sobre o motivo do consentimento em primeiro lugar. Recomendamos que solicite o cancelamento, uma vez que é completamente inaceitável de um ponto de vista de conservação, científico e de bem-estar animal”.

Os signatários do documento denunciam que os pesquisadores do experimento reconhecem que as baleias provavelmente sentirão ‘angústia e desconforto moderados’. Mas eles acreditam que elas sentirão mais do que isso, criando uma situação perigosa tanto para elas quanto para os humanos.

O grupo de especialistas destaca também que tentativas anteriores de capturar baleias minke para experimentos semelhantes falharam e há relatos de que elas reagiram com grande força após invadirem currais de aquicultura.

“Lembramos o caso recente de uma baleia minke juvenil que encalhou em águas rasas no rio Tâmisa, em Londres, no dia 10 de maio. As equipes de resgate realocaram a baleia para pontões de reflotação, no entanto, ela sofreu um enorme estresse”, relatam.

Também há um plano de emergência que inclui a sedação dos animais numa emergência. “No entanto, se a situação se agravar para o ponto em que uma baleia requer sedação, este é um processo arriscado que raramente é tentado em cetáceos visto que esses táxons são altamente adaptados à hipóxia. O uso de sedação em espécies maiores de baleias que nadam livremente é limitado. Também é importante notar que a tentativa de sedação não resulta necessariamente no efeito desejado. Por exemplo, o coquetel de drogas inicial usado na tentativa de sedação no mar de uma baleia franca do Atlântico Norte, resultou em um aumento na velocidade de natação e na evasão do barco”, diz a carta.

E por final, os cientistas ressaltam novamente: “Instamos que este projeto seja interrompido, pois pode levar a traumas consideráveis para as baleias, sem contribuição útil para a ciência”.

Vale lembrar que a Noruega está entre os países a favor da caça a baleias que derrubaram a proposta de criação de um Santuário no Atlântico Sul, em 2018.

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Fotos: Len2040/Creative Commons/Flickr (abertura) e FFI

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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